janeiro 11, 2004

A caminho de Mumbai

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A poucos dias do início do IV Fórum Social Mundial, a decorrer em Mumbai, na Índia, importa recuperar algumas ideias de Boaventura de Souza Santos e de Christophe Aguiton sobre o Fórum.

A Índia de Mahatma Gandhi, do movimento pacifista e da multiplicidade cultural, mas também a Índia do fundamentalismo hindu, do separatismo islâmico e do terrorismo vai ser a sede do 4º Fórum Social Mundial (FSM), entre 16 e 21 de janeiro de 2004. O lançamento oficial ocorreu em uma série de cerimônias realizadas nesta semana em Mumbai (ex-Bombaim), cidade onde será realizado o Fórum, além de São Paulo, Porto Alegre e Quito.
Até então, havia dúvidas sobre a capacidade de a Índia receber o evento. No final de agosto, atentados terroristas atingiram o país, matando 46 pessoas e deixando 150 feridas. A repercussão do episódio obrigou o Comitê Organizador do Fórum a empreender uma ofensiva diplomática junto às ONGs, movimentos sociais e sindicatos que compõem o Conselho Internacional do FSM.

Foi divulgada uma nota oficial, em que as condições para a realização do evento são garantidas. “Confiamos no rápido poder de recuperação da cidade de Mumbai e no apoio de seus cidadãos”, diz o texto.

A ida do FSM à Índia, depois de três edições em Porto Alegre, é mais uma jogada da estratégia de internacionalização do evento, que já vem sendo posta em prática com a realização dos chamados fóruns regionais e temáticos. Cidades como Belém do Pará, Buenos Aires, Cartagena (Colômbia), Lisboa, Washington e Viena aplicaram a metodologia do FSM para discutir problemas locais e construir políticas alternativas.

Na Índia, os organizadores do FSM pretendem introduzir os movimentos sociais asiáticos no debate preferido pelos que participam das conferências do Fórum: a busca de alternativas à globalização neoliberal, a luta contra o militarismo e a guerra.

O francês Christophe Aguiton, membro da direção internacional da ONG Attac e um dos articuladores do FSM, tem uma boa justificativa para a nova estratégia. Segundo ele, já passou o tempo em que os países do Oriente conseguiam manter seus modelos políticos, econômicos e sociais praticamente imunes ao que se passava no Ocidente.

“As políticas neoliberais venceram essa fronteira", diz Aguiton, que veio ao Brasil para o lançamento do FSM em São Paulo.

Para o português Boaventura de Sousa Santos, uma mas maiores personalidades ligadas ao FSM, o fortalecimento do diálogo, apesar das diferenças culturais entre a população indiana e os povos ocidentais, é a grande tarefa do FSM em Mumbai. “A diversidade é o acento tônico do Fórum”, gosta de dizer o sociólogo.

Índia dividida

Para Aguiton, Boaventura e outros que vão assumir a empreitada e voar até a Índia, o desafio é mesmo imenso. As múltiplas culturas do subcontinente indiano, com seu pouco mais de um bilhão de habitantes, irão introduzir novas questões e, quem sabe, soluções aos debates propostos pelo FSM.

O país, por exemplo, ainda não conseguiu solucionar o secular conflito entre a maioria hindu (75%) e a minoria islâmica (12%). O maior palco dessa batalha é a explosiva região da Caxemira, disputada desde 1947 com o vizinho Paquistão. Muitas vezes, o conflito atinge outras áreas do território indiano sob a forma de atentados terroristas, como recentemente ocorreu em Mumbai.

A esquerda do país é também bastante dividida. São diversos partidos comunistas e um grande partido socialista – todos ainda sem força para enfrentar o partido religioso hindu BJP (Bharatiya Janata). E além do conhecido movimento pacifista, construído por Gandhi na primeira metade do século XX, a população indiana possui um organizado movimento de massas, a partir da luta dos atingidos por barragens, dos camponeses e dos excluídos em castas inferiores.

“O desafio é unir todas essas forças. Sempre há muita discordância, mas o que se conseguiu até agora foi positivo. O Fórum irá se enriquecer com essa nova realidade, aprender novas formas de luta”, prevê Aguiton.

Para Boaventura, o FSM deve trabalhar pela articulação de políticas nacionais e globais. Ele cita exemplos de sucesso disso. “O movimento feminista soube como ninguém unir sua luta contra a política discriminatória empreendida por (George W.) Bush contra as mulheres com a luta mundial contra a guerra”, diz o sociólogo, que estudou como poucos a resistência zapatista no México e as características que fizeram desse grupo um exemplo para outros movimentos mundiais.

O Brasil é o próximo teste dessa articulação, defende Boaventura. Com a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, ampliaram-se os espaços de articulação dos movimentos sociais. “Mas isso ainda está muito no plano da consulta, o que já um avanço, mas não é tudo”, diz o sociólogo. Faltaria o governo agregar os movimentos ao plano decisório.

“Há um esforço do governo Lula para consultar os movimentos sociais. Sem dúvida há quem se sinta contemplado, mas o movimento indígena diz-se marginalizado e o movimento negro está infeliz. Não tenho ilusões: são muito fortes as pressões que os governos nacionais sofrem das agências globais e a melhor forma de luta é a mobilização que vem de baixo pra cima. Só assim chegaremos à justiça social”, afirma Boaventura.

Estrutura do Fórum
Cerca de 75 mil participantes, dos quais 10 mil estrangeiros, são esperados para o FSM 2004, que contará também com um Acampamento da Juventude com cerca de 10 a 15 mil pessoas.

Para o Fórum Social Mundial na Índia, foram propostos os seguintes focos de debate:

► globalização imperialista;

► sectarismo religioso, políticas de identidade e fundamentalismo;

► castas, racismo e exclusão social;

► patriarcado;

► militarização.

A metodologia do FSM 2004 prevê a realização de quatro painéis diariamente no período da manhã, dos quais um será em formato de mesas de debates, 200 atividades autogestionadas (à tarde), além de testemunhos e vozes de resistência e uma conferência (à noite) em torno dos seguintes eixos amplos:

► Militarização, guerra e paz;

► Mídia, informação, conhecimento e cultura;

► Democracia, segurança ambiental e econômica;

► Exclusão, discriminação, dignidade, direitos e igualdade;


Publicado por davidavila em janeiro 11, 2004 06:26 PM
Comentários

O planeta está à mercê de uma máquina contítuida por homens que pensam mecanicamente; aceitaram viver condicionados a um modelo de comportamento, que os instiga a ser consumidores compulsivos; como se não fosse possível usar o tempo útil de vida de modo diferente.
Sabendo nós que a educação é cada vez mais tecnicista; formar "soldados da produção" como dizia o Agostinho da Silva é a função actual das universidades.
Cidadãos que pensem pelo seu próprio pé, o lugar
deles é na valeta. Como alterar esta situação?
Ninguém parece disposto a ceder...
Ninguém quer perder privilégios...
O culto da mediocridade preenche todos os interstícios da sociedade...
Em Portugal, o futebol, o fado e Fátima continuam a mirrar culturalmente o País, sem que se vislumbre luz ao fundo do túnel...
Enfim, podia continuar...

Rodrigo Ribeiro

Afixado por: Rodrigo Ribeiro em janeiro 11, 2004 10:09 PM

Claro que infelizmente podia mesmo continuar, Rodrigo. São experiências ricas como a do Fórum que a mim me fazem vislumbrar a tal luz no fundo do túnel...

Afixado por: al santo em janeiro 11, 2004 10:44 PM


Se tivessemos dependentes do fórum para vislumbrar a luz ao fundo do túnel, nunca de mais
de lá saiamos. Mas respeito quem pensa doutra maneira. A intenção também conta, embora de boas
intenções esteja o inferno cheio.
Antes o Fórum aberto às pessoas que o congresso
sujeito aos congressistas.

Afixado por: Andropov em janeiro 30, 2004 10:45 PM

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Afixado por: honda finance em novembro 4, 2004 11:03 PM