
Antes das conferências, dos encontros, dos debates, uma análise profunda e cuidada da cidade anfitriã do IV Fórum Social Mundial: Mumbai, a 2 dias do início do Fórum.
O estranho encanto da cidade mais cosmopolita da Índia: que misérias revela, que ilusões espalha a metrópole que sediará, a partir do dia 16, o Fórum Social Mundial -- e que pode ser a mais populosa do mundo, em 2020
Mila Kahlon, para o Le Monde Diplomatique
Mumbai, a famosa Reay Road, ao longo das docas. Esta avenida, que tinha no início quatro pistas, para oferecer velocidade aos automóveis, está cercada por uma infinidade de slums (barracos) de vários andares. Seus habitantes - migrantes vindos do interior, na maioria - andam, conversam, dormem, descansam, trabalham, lavam-se e vêem seus filhos ensaiar os primeiros passos no asfalto. Reay Road tornou-se um lugar onde os automóveis e os seres humanos rivalizam. Uns e outros fazem da rua seu reino.
Sobre uma superfície de cerca de um quilômetro quadrado, parte dos moradores da favela construiu dois ou três (greniers) sobre suas cabeças, e os alugam aos novos pobres que chegam. Cada barraco abriga em média dez pessoas. Ninguém sabre quantos miseráveis vivem em Reay Road, mas a cifra aumenta a cada dia, como o caos.
E, na verdade, ninguém sabe quantos habitantes tem hoje Mumbai. Os recenseamentos oficiais falam em 12 milhões de pessoas (mais que a Grécia), dos quais a maioria é de sem-tetos. Mas em virtude do fluxo ininterrupto de migantes, da população favelada e de centenas de crianças não-declaradas que nascem tdos os dias, é possível que o número real esteja próximo de 16 milhões.
O mini-sonho norte-americano
Se as cifras assustam, a verdade é que os habitantes de Reay Road e de outros bolsões de miséria que preoliferam não têm lugar melhor aonde ir. A metrópole atrai todos os dias milhares de pessoas vindas do resto do país para cruzar as fronteiras desta “cidade de esperança”, convencidas que lá encontrarão um emprego, uma ocupação regular ou - por que não? - a chance de se tornar milionários. Para essa gente, as provas materiais de sucesso (a eletricidade pirateada, o telefone ou a televisão muitas vezes roubados) dão a suas casas o ar de vilas de luxo, em relação ao que conheceram e viveram na terra em que foram criados.
Por isso sobrevivem aqui, na rua, dia após dia, apesar da poluição, do calor insuportável, da desnutrição, da sujeira, da sujeira dos caminhões, dos acidentes, das doenças, dos ratos enormes, do desgosto dos pedestres com mais sorte e das cheias provocadas pelas monções. Felizes, dizem alguns. Felizes? Sim, de certa maneira. Por terem chegado a esta cidade monstruosa, que pode tirar-lhes tudo ou lhes dar a oportunidade de suas vidas. Eles nunca se aproximaram tanto de seu mini sonho norte-americano. Eis exatamente o que Mumbai representa aos olhos do resto da Índia.
Demora um certo tempo para entender por que esta cidade continua a atrair um fluxo incessante de forasteiros que esperam fazer fortuna. Ela não tem limites; é poluída, sufocante, encoberta, congestionada pelo trânsito. Emana as visões e odores mais repugnantes da pobreza e da doença. Quem é pobre, vive em condições sub-humanas. Quem é rico (1% da população) é constantemente ameaçado pela máfia. Quem integra a classe média vive a cada dia, a partir do momento em que sai de casa, um combate: é preciso enfrentar os outros automóveis, ignorar as pequenas mãos suplicantes coladas aos vidros do carro.
Buracracia, caos e... ânimo
Nada se faz com facilidade. Os menores trabalhos, as tarefas aparentemente simples, exigem esforços duríssimos. A corrupção e a burocracia estão em toda parte. Porém, apesar das dificuldades extraordinárias para viver, a cidade mantém um ânimo impressionante, algo que parece invencível. Algum mumbaicar lhe dirá, a qualquer momento: "De que você se queixa? Mumbai é muito melhor que todas as outras cidades". Um frisson lhe percorre a espinha diante da idáia de um lugar sobre a terra que seja pior do que este.
Quem tem a chance de conseguir um emprego e estar bem alojado não pode mais viver sem Mumbai, seu ritmo de vida desenfreado, seus salários - os melhores da Índia -, sua tolerância, seus modos de vida alternativos, as ocasiões sem fim que se oferecem aos que ousam, cinemas multiplex e galerias comerciais que regurgitam produtos importados, night-clubs olho no olho (os proprietários pagam generosamente à polícia para continuar abertos depois da meia noite), teatros, restaurantes gastronômicos com preços exorbitantes mas sempre cheios, vendedores de carros exóticos, telefones celulares, prédios de escritório que evocam Manhattan, butiques de criadores, concursos de beleza, hotéis cinco estrelas, escolas internacionais, hospitais modernos e aeroportos.
Tudo isso faz de Mumbai a única metrópole verdadeira da Índia. Perto dela, Chennay (Madras), Calcutá, Bangalore, o Vale do Silício indiano ou mesmo a capital, Nova Delhi, têm ares de cidades provincianas. Talvez seja difícil compreender, mas se trata de um país onde a população rural permanece no século 18. Nesse cenário, Mumbai aparece como obra de milagre, como verdadeira cidade de sonhos.
Especulação, loteria, cricket
É, sem dúvida alguma, a cidade mais próspera da Índia, a capital dos negócios e das finanças. Mais da metade da arrecadação do Imposto de Renda vem daqui. Mumbai tem mais milionários que todas as outras grandes cidades da Índia juntas. É aqui que se fazem mais de 90% das transações bancárias comerciais, que funciona a Bolsa, que estão localizados 80% dos fundos de investimento, que se localizam os mercados de capitais. O Banco Central indiano, os três grandes bancos comerciais e os grandes bancos de investimento estão enraizados no bairro de negócios de Mumbai.
Já o porto concentra 40% do comércio marítimo indiano. Os imóveis valem ouro (um apartamento sofisticado pode custar até 2 milhões de dólares). A cidade entrega-se à especulação, à loteria, às corridas hípicas e ao cricket. Os profissionais ascendentes da publicidade ganham mais que os médicos. Mumbai atrai o melhor dos talentos do país, multinacionais gigantes, investidores, artistas e intelectuais.
Também os fogos de Bollywood são irresistíveis. Mumbai tem a maior indústria cinematográfica do mundo, e todo indiano que quer fazer carreira no cinema se instala aqui. A ponto que as estrelas esquecidads do Ocidente assinam contratos para fazer uma ponta nos filmes indianos, esperança de uma nova juventude. Aqui, os atores parecem deuses, e os jovens de todos os meios se batem para conseguir um pequeno papel. O mundo do cinema habita mansões grandiosas nas periferias inóspitas e vive no pavor do telefonema de um chefe da máfia que lhe extorquirá dinheiro.
Histórias de bombeiros e atores
As histórias de sucessos pessoais espetaculares somam-se à imagem mítica da cidade . Como a do bombeiro Dhurubhai Ambani, que se tornou magnata da petroquímica; ou de Harshad Mehta, moço pobre do vilarejo de Raipur, que orquestrou um golpe de 6 milhões de rúpias (100 milhões de euros) e chegou a presidir a Bolsa (antes de ser encontrado morto, na prisão); ou ainda a do ator preferido dos indianos, Shah Rukh Khan, que chegtou a Mumbai de bolsos vazios e depois de anos de dureza, sem conhecer ninguém na cidade ou no mundo do cinema, e se fez superstar.
Neste oceano demográfico, encontra-se champagne, quando se está disposto a pagar por ela (três vezes o salário de um membro típico da classe média), mas a população não tem água potável para beber. Em Dharavi, a maior favela da Ásia, 600 mil pessoas comprimem-se em 1,5 quilômetro quadrado. O ar é pesado e venenoso, carregado de odores de detritos - mas é lá que são fabricados os artigos em couro mais elegantes, exportados para o resto do mundo. Há mais clínicas de emagrecimento e academias de ginástica que organizações não governamentais. Floresce um mercado de livros de auto-ajuda e de gestão, vendidos por crianças que não sabem ler.
Mumbai é impiedosa porém compreensiva. Nos jornais, os crimes mais cruéis aparecem lado a lado com os exemplos mais comoventes de companheirismo e compassão. Talvez por tantos de seus habitantes terem partido do zero, ela foi sempre um porto de tolerância, onde os cristãos se misturam aos parsis, os hindus têm vizinhos muçulmanos, os sikhs, os jainistas, os judeus e cada vez mais os phirangs (termo genérico para todos os estrangeiros) vivem juntos.
Porto de tolerância ou ovo da serpente?
Mas o fluxo de "estrangeiros" e a mescla de culturas estão também na origem de um monstro: o partido extremista hindu Shiv Sena, dirigido por Bal Thackeray, que defende os "filhos da terra". Nasceu do ataque aos estrangeiros, depois se lançou ao ataque de tudo o que não é maharastrino. Este partido atiça o ódio e provoca atentados. Conseguiu alterar o nome da cidade (Bombaim foi há séculos uma colônia portuguesa, cujo nome significava "bela baía"; Mumbai vem do nome da deusa protetora do lugar). Foi uma maneira de dizer ao mundo que ela pertence a seus ocupantes maharastrinos originais e os estrangeiros não têm nada a fazer aqui.
Para provar a determinação a repelir os "imigrantes", uma multidão de sainiks (partidários do Shiv Sena) saqueou recentemente o escritório de recrutamento da empresa ferroviária, exigindo quotas para os maharastrinos, que se sentiam ameaçados diante dos candidatos provenientes do norte pobre da Índia. Alguns dias depois, numa estação muito freqüentada, funcionários do Shiv Sena, entre eles mulheres, atacaram jovens migrantes vindos a Mumbai para o exame de seleção para a ferrovia.
"Nós iremos nos juntar"
Os resultados de uma enquete realidada pelo Times of India e por um programa popular de TV (The big fight, O Grande Combate) não são animadores. A maioria crê que o Shiv Sena tem motivos, e uma grande porcentagem aprova sua política de "filhos da terra". Boa parte dos entrevistados declara-se a favor da política de quotas contra os migrantes, no acesso aos empregos mais qualificados. Alguns pensam, além disso, que tais quotas fortaleceriam a imagem da cidade como centro financeiro internacional. Mumbai, a cosmopolita, irá se tornar Mumbai, a chauvinista?
E no entanto, escreve Suketu Mehta, um jornalista que cresceu em Mumbai e que vive hoje em Nova York, "se você estiver atrasado para o trabalho em Mumbai e se chegar à estação no momento em que o trem deixa a plataforma, você pode correr em direção aos vagões superlotados, porque muitas mãos se estenderão para içá-lo a bordo (...) Quando você estiver lá em cima, um pequeno espaço irá se abrir, para permitir que seus pés toquem o chão. (...) No momento do contato, quem te ajuda não sabe se tua mão é a de um hindu, de um muçulmano, de um cristão, de um brâmane ou de um intocável, nem se você nasceu nas cidade ou chegou a ela naquela manhã (...), nem se você é de Mumbai, de Bombaim ou de Nova York. Tudo o que sabem é que você procura um lugar na cidade de ouro e é o que basta. "Suba - dizem eles - nós iremos nos juntar".
Publicado em Porto Alegre 2003: 13/01/2004