Por Fausto Rêgo, Rits
"O Mundo não está à venda", Fórum Social Mundial
No painel sobre “Terra, água e soberania alimentar”, sobraram críticas às grandes corporações internacionais e à Organização Mundial do Comércio. A líder popular indiana emocionou-se ao defender um mundo “igual e justo para todos”, o militante francês José Bové convocou nova manifestação para a próxima reunião da OMC, em Outubro, e a ambientalista canadiana Maude Barlow resumiu a importância do tema: “É uma das mais importantes lutas de nossas vidas. O mundo não está à venda”.
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Críticas à Organização Mundial do Comércio (OMC) e a grandes corporações internacionais foram a tónica do painel “Terra, água e soberania alimentar”, no Hall 1 do Nesco, onde acontecem as actividades do Fórum Social Mundial. Representantes de organizações e movimentos sociais manifestaram séria preocupação com os recursos naturais do planeta – profundamente afectados, segundo afirmam, pelo descompromisso de políticas públicas e pelo mau aproveitamento. Esta sessão encerrou-se com um inflamado discurso de Medha Patkar, do Movimento dos Atingidos pela Represa de Narmada. Uma das principais líderes da sociedade civil indiana, que chegou às lágrimas, sob muitos aplausos, ao defender “um mundo igual e justo para todos no acesso aos recursos naturais”.
O painel foi aberto com a apresentação musical de um grupo formado por integrantes da Via Campesina da Indonésia, que levaram ao palco uma faixa em que se podia ler: “Globalizemos a luta, globalizemos a esperança”. Rafael Alegria, do Conselho Coordenador das Organizações Campesinas de Honduras, foi o primeiro a falar. Para este, está a ocorrer uma “guerra no campo” em todo o mundo. Lembrando que milhões de pessoas estão a passar fome, afirmou que não pode haver combate à pobreza sem acesso à terra. O activista hondurenho também mostrou indignação com o que chamou de apropriação da água por grandes empresas internacionais. “Vamos, ao longo deste ano, empreender uma jornada contra a Nestlé, a Coca-Cola e todas as corporações que estão se apropriando da água”. A OMC é outro alvo potencial: “Estamos em plena luta contra esse organismo nefasto que controla o comércio mundial, por isso precisamos continuar mobilizando as organizações de todo o mundo, daí a importância deste Fórum Social Mundial”.
Maude Barlow, ambientalista canadense que fundou o Planeta Azul – movimento internacional pela protecção da água e fundou o Conselho Canadense, organização que actua no campo da segurança ambiental, afirmou que as corporações internacionais criaram uma situação insustentável na alimentação e agora pretendem fazer a mesma coisa em relação à água. Ela identifica três prioridades: garantir que cada cidadão tenha acesso a este recurso, fazer com que a Coca-Cola se retire da Índia – onde há fortes protestos contra a empresa por uso irracional da água e danos ao meio ambiente – e derrotar os interesses das grandes corporações internacionais. “É uma das mais importantes lutas de nossas vidas. Nossa água não está à venda, a Índia não está à venda, o mundo não está à venda”, concluiu.
Um dos principais críticos dos métodos empregados pelas indústrias de mineração, o jornalista e pesquisador britânico Roger Moody destacou a poluição de águas fluviais e lembrou que o mercado está dominado por três companhias sedeadas na Inglaterra e na Austrália. “Existe uma máquina de crescimento económico sustentada pela dependência dos países em desenvolvimento”, afirmou, antes de pedir a solidariedade de toda a sociedade civil presente ao Fórum para o problema das comunidades afectadas pela mineração.
Itelvina Massioli, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, apresentou a posição do MST: a distribuição de terras, por si, não é suficiente para garantir maior qualidade de vida para os campesinos. “Queremos uma reforma agrária que democratize o acesso à terra, mas também democratize a comercialização dos recursos agrícolas”. Para Itelvina, é preciso construir um novo modelo de produção agrícola e uma nova forma de organização social da população que vive no meio rural. “Este desafio está presente no Brasil, na América Latina e em todo o mundo, pois o capitalismo está ampliando suas formas de domínio da produção, o que coloca em jogo a sobrevivência dos pequenos agricultores e das organizações campesinas”. Itelvina acredita que apenas a soberania alimentar - o princípio de que cada povo, em seu espaço específico, seja capaz de produzir os alimentos que consome – levará à independência necessária e à soberania sobre seu próprio destino. “É o que defendiam José Marti, Gandhi e Che Guevara”, disse. “Um país não pode estar subordinado a acordos internacionais que só favorecem as grandes corporações”.
Um dos oradores mais aguardados, o activista francês José Bové dirigiu-se ao microfone com o pescoço envolto por um lenço da Via Campesina. Foi duro ao criticar as políticas agrícolas que privilegiam os interesses das grandes corporações e lembrou a situação vivida pelos agricultores: “Apenas 30 milhões de produtores agrícolas em todo o mundo têm tractores e mais de um bilhão têm de trabalhar com as próprias mãos”. O objectivo da Via Campesina, garantiu, é fazer com que a OMC se retire da agricultura. “Desde que a China entrou para a OMC, mais de 100 milhões de fazendeiros tiveram de parar de produzir. Na Índia acontece a mesma coisa. Para onde eles vão? O que vão fazer? É uma política sem sentido, criminosa”. Bové lembrou as duas vitórias recentes dos movimentos sociais contra a Organização Mundial do Comércio, nas reuniões de Seattle e Cancún, e convocou a todos para o que chamou de “uma nova batalha” em Hong Kong, em Outubro, quando os membros da entidade voltam a se reunir. “Estaremos lá e os derrotaremos novamente”, prometeu.