Aqui fica uma entrevista a Francisco Whitaker, realizada pela ADITAL, onde este membro do comité internacional do Fórum Social Mundial (FSM) fala sobre o que este evento representa na sociedade actual, e qual o seu futuro.
"Um outro mundo é possível". Com este emblemático lema, inaugurava-se uma nova tendência mundial, uma nova possibilidade que passava a unir sob uma mesma palavra de ordem, os mais diversos movimentos da sociedade civil organizada ou não. Com essa proposta o Fórum Social Mundial – recém-saído de sua quarta edição – consolida-se como um marco divisor para os gritos desses movimentos.
Depois de acontecer na Índia, o FSM voltará a ser realizado no Brasil em 2005. De terras brasileiras, possivelmente, seguirá viagem para a África, em 2006. Marcado agora por um carácter itinerante, o evento investe na universalidade das mais profundas questões sociais.
Sobre esses e outros assuntos referentes ao evento, que reuniu milhares de pessoas em Mumbai, o membro do Comité Internacional, Francisco Whitaker, fez algumas considerações, reafirmando a ideia de um novo mundo possível, necessário e urgente:
_______________________________________________
Adital - Em 2005 o Fórum volta a ser realizado em Porto Alegre. É o ano em que os Estados Unidos esperam ver a Alca efectivada. Muitos países têm-se mostrado resistentes e os EUA tem tido derrotas em várias cúpulas. O senhor acredita que essas resistências são ecos das pressões, vontades e expressões dos povos? Até que ponto o Fórum Social Mundial e seus eventos similares podem ser ouvidos?
Francisco Whitaker - Sem nenhuma dúvida essas dificuldades dos que querem efectivar a Alca a qualquer custo são devidas às acções de resistência e denúncia das organizações da sociedade civil. Ou seja, como já disse, o rolo compressor está sendo parado. Em problemas como esse é que se pode melhor entender o papel dos "espaços" que os Fóruns Sociais abrem, como incubadores de novas iniciativas. E o que está "saindo" deles, como novas alianças e articulações na luta contra a Alca, vai ganhar cada vez mais adesões. As pressões dos que consideram que a Alca é um crime vão aumentar ainda mais.
Adital - Com a volta do FSM para Porto Alegre, quais são os planos do comité internacional? Vai ser mantido o carácter itinerante do evento?
Francisco Whitaker - Quanto ao carácter itinerante, a ideia é a de repetir em outros continentes a experiência da Índia. Por exemplo, na África em 2006. Mas essa não é uma decisão que se tome de cima para baixo para que alguém a execute, como faz a empresa que organiza o Fórum de Davos. No caso do FSM, tudo depende de que no país ou continente cogitado exista uma sociedade civil e organizações sociais dispostas a enfrentar o desafio de organizar um Fórum Social Mundial. Os indianos foram consultados no final de 2001, e só em 2003 o Conselho Internacional recebeu uma resposta positiva. Vamos ver, agora, como o processo prossegue.
Adital - Passada esta edição do Fórum Social Mundial, qual foi o ponto fundamental, o que se pode ser enfocado por conta da mudança do evento do Brasil para a Índia? No Brasil, o relatório do Ibase apontou que a maioria do público era formada por jovens e universitários. A mudança para a Índia foi determinante?
Francisco Whitaker - O maior desafio da realização do IV FSM na Índia era a possibilidade da sua dinâmica não directiva e horizontalizada ser vivida num país tão dividido internamente, com castas hierarquizadas, religiões que se enfrentam, forças políticas com estruturas verticalizadas, grandes separações entre os diferentes tipos e áreas de actuação da sociedade organizada. Esse desafio foi vencido. Os organizadores indianos do FSM disseram que as experiências de cooperação que viveram durante dois anos, para realizar o Fórum, foi um passo histórico para a vida política do país – com naturais reflexos nos demais países da Ásia, presentes tanto na organização do Fórum como no próprio evento. A proposta do FSM, apresentada em sua Carta de Princípios, foi plenamente compreendida e assumida, como atesta um artigo escrito por dois desses organizadores (ver no site http://www.forumsocialmundial.org.br o texto: Adding to the Debate, de Amit Sen Gupta e Probir Purkayastha).
Esse artigo procurava exactamente explicar o sentido do FSM aos organizadores do "Mumbai Resistance", evento paralelo que o criticava. Mas havia também o desafio de realizar um evento desse tipo e desse porte em outro continente, com outra história e outra cultura. Esse desafio foi também vencido, e agora se pode dizer com tranquilidade que o processo FSM pode se estender pelo mundo afora. Mumbai também inovou, em vários aspectos. Um deles foi o referente aos seus participantes. Diferentemente do que vinha ocorrendo em Porto Alegre, foi marcante a presença de grupos organizados da população mais oprimida do país – entre os quais em torno de 20.000 dalits, os chamados "intocáveis", cujos representantes participaram inclusive do Comité de Organização do Fórum. Estes grupos desenvolveram durante o FSM diferentes tipos de actividades: de pequenas oficinas a grandes reuniões, assim como peças teatrais, danças, passeatas de denúncia, com tambores, faixas e slogans referentes às suas lutas. Revezando-se durante todo o dia nas vias de circulação da área do Fórum, criaram um clima militante que marcou o evento, e levantaram um novo desafio: o da participação desses tipos de grupos populares nos próximos eventos, em Porto Alegre ou em outras partes do mundo.
Adital - Ao que parece a grande media ainda não dá atenção, nem espaço para os Fóruns Sociais, de uma maneira geral. Este fato chega a ser um ponto negativo para o evento? O Fórum consegue ser compreendido sem o alcance mediático?
Francisco Whitaker - É muito variada a atenção dada aos Fóruns Sociais pela grande média, inclusive aqui no Brasil. Ela percebe que estamos contra a corrente da ideologia dominante, mas tem dificuldade em cobrir esses eventos porque não consegue entender muito bem o próprio carácter do FSM – esse espaço sem dirigentes, nem porta-vozes, nem documentos finais, no qual uma das regras de ouro é o respeito à diversidade. Mas a atenção dada pela média – e sua compreensão dessas nossas opções - é visivelmente crescente. O "alcance mediático", como você diz, seria importante para que mais gente percebesse mais rapidamente que todos precisamos participar da luta a que o Fórum Social Mundial nos convida, numa experiência nova de acção política. Mas não dependemos da média para avançar. O caminho para superar preconceitos e mostrar que estamos resistindo e buscando alternativas é o da multiplicação de Fóruns, a todos os níveis, num processo contínuo de articulação em rede de todos os que querem construir esse mundo que consideramos possível, necessário e urgente. A média que quiser ser independente dos donos do dinheiro acabará engrossando nossas fileiras.
Adital - O Fórum Social Mundial vai para sua quinta edição. Nesses quatro anos o que se tem conseguido de concreto diante das demandas que originaram o surgimento de um evento deste porte social?
Francisco Whitaker - Conseguiu-se já de inicio – e isso explica a alegria que marca os Fóruns – resgatar a nossa utopia de um mundo justo. E isso foi muito importante, num momento em que estávamos ainda meio perplexos com os acontecimentos da última década, embora já estivéssemos conseguindo começar a protestar contra as imposições neoliberais. O método do Fórum possibilitou em seguida, pouco a pouco, o surgimento de novas articulações e iniciativas visando problemas específicos, com os quais já se está conseguindo diminuir um pouco a velocidade de avanço do rolo compressor do neoliberalismo – veja-se o caso da Alca e da OMC em Cancun. Descobrimos que nossa luta pode ser de fato planetária. Descobrimos que é possível superar as limitações dos partidos políticos, fazendo emergir a sociedade civil como um novo actor político de peso, numa actuação política horizontalizada, em rede, que pode ser muito eficaz – como ficou demonstrado pela dimensão das manifestações contra a guerra em 15 de Fevereiro do ano passado.
Na perspectiva propositiva que o Fórum assumiu quando foi criado, descobrimos que existem alternativas concretas para solucionar problemas da humanidade, como será o caso da reforma da ONU, e estamos começando a elaborar essas propostas alternativas. Estamos construindo uma nova cultura política, baseada na co-responsabilidade, na cooperação, na horizontalidade das relações, que já está começando a penetrar até em partidos políticos. E as iniciativas e actividades extremamente diversificadas das organizações participantes dos Fóruns, a partir do que elas intercambiam, aprendem e se articulam antes, durante e depois dos eventos, já conhecem sucessos crescentes, mudando a sociedade de baixo para cima e de dentro para fora. Os efeitos disso tudo logo surpreenderão muita gente.
Adital - Levando em consideração de que uma das propostas do Fórum é reunir pessoas em torno da consciência de que um outro mundo é possível, pode-se afirmar que a sociedade civil está mais atenta, está mais comprometida com essa causa? O Fórum, de alguma forma, chega a ser um divisor de águas nesse sentido?
Francisco Whitaker - Mais do que um divisor de águas, o Fórum é uma nova corrente de optimismo que começa a se espraiar em cada vez mais países do mundo. O que o Fórum faz, dentro da sociedade civil, é romper as barreiras que tradicionalmente separam e dividem os diferentes tipos de actuação e de temáticas de luta. Por exemplo, as barreiras entre sindicatos, movimentos populares, organizações não governamentais, ou entre os movimentos de mulheres, de jovens, de ecologistas, e tantos outros. Nos Fóruns todos se encontram, se reconhecem e se respeitam mutuamente, superam preconceitos, se informam, passam a se ajudar e a se articular para iniciativas conjuntas, fazem novas alianças. Este processo faz crescer a capacidade de actuação de todos, e seu comprometimento com a causa geral de outro mundo possível.
Adital - Diante das propostas do FSM, é possível conciliar os interesses da Sociedade Civil e os interesses do Estado num processo geral de mudança social, já que se estabeleceu uma relação sociedade civil versus estado?
Francisco Whitaker - A relação que tende a se estabelecer com o processo do Fórum não é de confrontação mas de maior controle do estado pelos cidadãos, para que ele cumpra efectivamente o que tem a fazer em todos os campos, assim como de maior resistência sempre que a actuação do estado prejudica a sociedade. O Estado tem interesses próprios? Se ele não está a serviço de minorias dominantes, seus interesses não devem ser outros senão os interesses da sociedade como um todo, que ele deve servir.
Ganhe dinheiro na net de forma credível e fiável.
Este sistema permite que com um investimento inicial de 20 euros se possa obter um retorno de até 55000 Euros.
Parece impossível mas não é. Com algum trabalho a partir do e-mail e de um pagina que vamos criar para si é perfeitamente possível.
Consulte o nosso site em http://www.sapix.co.pt/money e fique a conhecer o sistema e a equipa que o vai ajudar a ganhar bastante dinheiro.