
Num dos seus vários púlpitos televisivos, Pacheco Pereira pediu prisão perpétua para Clare Short. Mais comedido, em editorial do "Público", José Manuel Fernandes derramou uma lágrima "pelos agentes que arriscam a vida ao serviço de Sua Majestade", aparentemente desmascarados pelas declarações da ex-ministra de Tony Blair. A salvo da perseguição dos luso-guerreiros, a opinião pública britânica quer saber toda a verdade sobre as razões que levaram o país a uma guerra que já matou mais de dez mil civis.
O escândalo das escutas que abalou a semana política inglesa continua a surpreender os que acreditavam na legalidade do processo de entrada do país no conflito do Iraque. Na sequência do "caso Gun", os movimentos anti-guerra, encabeçados pelo Greenpeace, puseram acções na justiça para conhecer o teor de um primeiro parecer do Procurador-Geral Lord Goldsmith sobre a legalidade da intervenção britânica numa eventual guerra ao Iraque. Este documento foi entregue a Tony Blair no fim de 2003 e que nunca chegou ao conhecimento público.
Um outro parecer do Procurador sobre o mesmo assunto, feito em vésperas dos bombardeamentos, foi essencial para assegurar aos militares a luz verde legal para avançar nas operações de guerra. Soube-se agora, pela voz de Clare Short, que dez dias antes do início da guerra, os chefes militares ingleses - já com as tropas estacionadas no Kuwait - se recusaram a invadir o Iraque sem garantias jurídicas sólidas de que nenhum soldado seria posteriormente julgado por essa acção, independentemente da vontade de Tony Blair.
O caso ganha nova projecção à medida que aumentam as suspeitas de que Goldsmith cedeu a pressões do governo, se ficar provado que o seu parecer tornado público a 17 de Março - que deu cobertura legal à intervenção - contraria um outro, também da autoria do Procurador-Geral e entregue ao governo alguns meses antes. É este primeiro parecer que governo e Goldsmith querem manter no segredo dos deuses. Mas o jornal "Independent" revela hoje que nesse documento, com data de Novembro passado, Goldsmith defendia a necessidade de uma resolução específica da ONU autorizando o uso da força contra o Iraque.
Uma coisa é certa: Tony Blair continuará debaixo da pressão da opinião pública para revelar os contornos obscuros de toda a operação-Iraque, e os próximos episódios podem seguir no sistema judicial, já que vários activistas anti-guerra - que vão ser julgados na sequência de manifestações junto a bases militares - pediram o acesso a esse documento para ajudar na sua defesa.
No que respeita às escutas anglo-americanas nas Nações Unidas, veio a público outro testemunho do ex-inspector Hans Blix – que lançará em breve o livro “Disarming Iraq: the Search for Weapons of Mass Destruction”, a prometer algumas surpresas. Blix diz ter plena consciência de que foi escutado em casa e no escritório da ONU. E para o provar lembra um encontro com John Wolf, alto-funcionário da admnistração norte-americana, em que este lhe mostrou fotografias que só poderiam ter sido tiradas no seu próprio escritório. Como Wolf não lhe quis dizer como as conseguiu, Blix queixou-se que esperava ser espiado pelos iraquianos, mas achava revoltante que os seus aliados o tratassem da mesma forma.
Tanto Blix como um ex-inspector, Richard Butler, admitem que tinham as conversas mais sensíveis fora das instalações da ONU, e de preferência ao ar livre.
Shame on YOU, mr. Fernandes. Claire Short não fez mais do que denunciar uma situação vergonhosa e anti-ética. Com que então é uma "boa" espiar funcionários das Nações Unidas? E vir um director de um jornal português falar de prática corrente? E por ser corrente, é defensável? Ela fez foi muito bem...
Já agora, pedia-vos que alterassem o link para o Pagan Days para http://www.pagandays.weblog.com.pt dado que me mudei para o bairro. Obrigado.
A imprensa inglesa e a opinião pública britânicas são bem diferentes da americana. Apesar da situação pré-eleitoral nos EUA, é impressionante como no Reino Unido Blair continua sujeito a uma pressão enorme, enquanto que nos states Bush continua com espaço para poder fazer todos os jogos de equilíbrio eleitoralista tão típicos da época: ora anuncia legalização de imigrantes para agradar à "esquerda", ora se pronuncia contra os casamentos entre homossexuais para agradar à "direita".
COntinuo ansioso por ver chegar o dia 20 e ver como reagem as opiniões públicas em alguns dos países que apoiaram esta guerra: UK, EUA, Estado Espanhol e Portugal.
O Pacheco disse mesmo isso? Está pior...
Afixado por: Morcego Vermelho em março 1, 2004 05:37 PMFoi logo a abrir o "flashback" reciclado na sic-notícias.
JPP pôs um ar grave e defendeu a punição exemplar da ex-ministra, ao abrigo da lei inglesa. O Carlos Andrade lembrou-lhe que isso podia significar a prisão perpétua. E o novo justiceiro nem pestanejou...
O que Luís Branco diz é puramente verdade. Foi isso que aconteceu.
Afixado por: Mário Reis em março 2, 2004 12:06 AMQuando li este artigo, pensei exactamente o que o David Ávila referiu. A diferença no tratamento desta questão entre a opinião pública e imprensa norte-americana e inglesa. Cá por Portugal, a opinião pública e a imprensa parecem-se mais com os norte-americanos. A imprensa totalmente muda, portanto, coadunante com a política desta coligação, e uma opinião pública perfeitamente adormecida. Também tem-se de dizer que esta última vive uma crise social, que há muito não vivia. Mas a actuação da imprensa portuguesa é inaceitável.
Afixado por: João Córsega em março 2, 2004 12:12 AM