março 22, 2004

É o que dá a obsessão...

A Ministra das Finanças chegou a dizer que tinha uma obsessão pelo défice. Feitas as contas, chega-se à conclusão de que a obsessão sai cara.

Infelizmente, no caso do negócio com o Citigroup, a obsessão dela sai-nos mais cara a todos.

Segundo o antigo secretário de Estado do Tesouro, Manuel Pedro Baganha, o negócio com o Citigroup só veio piorar a situação geral das contas públicas.
Isto porque de facto o défice baixou para os 2,8% mas...devido ao custo de financiamento, ficou mais dispendiosa ao Estado português a opção pelo contracto com o Citigroup do que se tivesse emitido títulos de dívida pública.

"Do ponto de vista financeiro, o défice de 2,8% obtido à custa do negócio com o Citigroup saiu mais caro do que a emissão de dívida pública". Isto porque o Estado teria ganho mais com a diferença entre o que pagaria em juros pela emissão de dívida pública e as dívidas que conseguisse cobrar, do que com a receita extraordinária de 1,765 milhões de euros que recebeu do negócio com o Citigroup.
Assim sendo, os 1,4% do PIB ganhos com o negócio tiveram menos benefícios do que a situação inicial, em que se mantinha o défice acima dos 3% (neste caso ficaria em 4,2%) mas em que se garantiam mais receitas a longo prazo.
MP Baganha avança ainda que "Considerando as cobranças esperadas (...), o Estado deveria ter recebido 2.485 milhões de euros".


As consequências da procura em reduzir o défice por todos os meios e um Pacto de Estabilidade que se torna um colete de forças, tomaram dimensões bem claras neste caso: a exigência europeia de controle do défice fez com que na procura de soluções de curto prazo (como o foram também os valores das portagens, por exemplo), se tenham feito negócios financeiramente desvantajosos, em que o Estado recebe menos e quem sai beneficiado...são os do costume.

Desta vez foi um príncipe saudita chamado Bin Alsaud, e para a próxima?

Publicado por davidavila em março 22, 2004 03:15 AM
Comentários

Já tinha lido o artigo no Expresso. É uma diferença brutal. E como sempre só alguns ganham com estas transferências, e todos os outros é que perdem.

Afixado por: António em março 22, 2004 02:35 AM

Já aqui tinha feito esta pergunta:

Será que se conseguiria, mesmo a médio prazo, cobrar ou ter receitas a rondar os 2.485 milhões de euros?

Afixado por: Conservador em março 22, 2004 03:23 PM

Não conservador, acho sinceramente que não se conseguiria.
A questão aqui prende-se com a margem de retorno dessas dívidas, ou seja, qual a parte que se poderia esperar receber ou não. De 1.765 para 2.485 ainda vai um bom bocado...

Acho também que este tema se insere num sistema geral que visa vender patromonio a privados e interesses diversos, outra face das privatizações de sectores publicos.

Afixado por: david avila em março 22, 2004 11:03 PM

Estamos claramente de acordo nesse sentido.
Vamos fazer um exercício hipotético: caso se cobrasse, e a médio prazo, 2 milhões de euros. Caso não se cumprisse o PEC (e não tenho uma ideia formada se positiva ou negativa em relação a este) qual a quantia que não ganharíamos, ou que perderíamos? Compensaria, pergunto eu? O ideal era não recorrer a receitas extraordinárias, no entanto...

Afixado por: Conservador em março 23, 2004 12:49 AM

Para falarmos melhor sobre isto vamos contextualizar: considerando o PEC e os critérios de convergência europeus mais ou menos no mesmo saco, estes são por um lado uma forma de manter o défice sob um certo controle (o que em parte faz sentido), por outra de controlar certos indicadores monetarios: inflação.
Isto para mim tem dois problemas: por um lado a questão do défice nao pode ser absoluta, pois a despesa publica é uma das formas de relançar a economia, pelo que ao obrigar os governos a manterem-se abaixo de um determinado nivel, impede-os de combater orçamentalmente os seus problemas internos, para proteger a moeda e a estabilidade europeia. Ou seja, pode ser que certos problemas economicos internos sejam divergentes do interesse geral europeu, mas mesmo assim acho muito dificil relacionar directamente que o défice português seja um problema para a Bélgica ou para a Irlanda...

Por outro lado, a questão do controle da inflação é uma necessidade monetaria dos grande especuladores. A inflação varia geralmente (senao sempre) inversamente ao emprego, pelo o discurso do "desemprego minimo" e coisas do género servem só para legitimar que se tenha a inflação em mente, em vez de apontar para uma politica economica de pleno emprego.
Acho que o facto de haver mais inflação nao quer dizer que nao haja crescimento real.

E claro que as receitas extraordinarias nao sao mais do que um paliativo, nada mais. Se nao ha um politica estruturada os mesmos problemas voltaram para o ano.

Afixado por: david avila em março 23, 2004 01:55 AM

Caro David:

Entendo tudo o que disse, apenas temos diferentes pontos de vista. Saliento que em determinadas situações concordo inteiramente consigo.

Não me querendo meter na "vossa casa", acho que seria muito mais produtivo que desenvolvesse esses temas sob a forma de um artigo, do que discutindo nos comentários. O artigo que publicou diz muito pouco sobre o que pensa e quais as suas soluções. Penso que já tinha feito esse reparo a um colega vosso (Bernardino Aranda). Acho que podem criticar, apesar de eu divergir em muitos pontos de vista, no entanto porque não apresentam soluções para o mesmo problema (tal como fez neste comentário?). Não se ofenda! É só uma sugestão.
Cumprimentos

Afixado por: Conservador em março 23, 2004 07:53 PM

Obrigado pela sugestão, e claro que nao me ofendo.
tento escrever posts mais pessoais, mas o tempo nem sempre permite desnvolver os temas ao fundo.
de qq forma o debate aqui é o principal, de forma que lançar uma ideia e ter toda a gente a falar sobre isso é precisamente o que me move.

Afixado por: david avila em março 25, 2004 01:40 AM

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Afixado por: em dezembro 2, 2004 05:57 AM