Por Nuno Ramos de Almeida, ATTAC, no Expresso
Há seis meses, o jornal norte-americano «USA Today» revelou um memorando interno do secretário da Defesa dos Estados Unidos da América (RUA), Donald Rumsfeld. Neste texto de duas páginas, Rumsfeld perguntava se «estamos a ganhar a guerra ao terrorismo», para logo concluir que «não há grandes progressos». Estes últimos meses devem-lhe ter revelado o que já muitos sabiam: o mundo está pior.
Os senhores da guerra da Administração dos EUA que pregam a engenharia das bombas e pretendem modelar o planeta a golpes de mísseis, só nos levaram a uma escalada de bombardeamentos e atentados terroristas. Neste processo, em que as vítimas inocentes se amontoam, os que parecem sofrer menos são Bush e Bin Laden. É cada vez mais verdade a frase que percorria Madrid, dois dias depois do sangrento atentado: «As vossas guerras são os nossos mortos».
No dia 15 de Fevereiro de 2003 mais de 30 milhões de pessoas saíram à rua para dizer que a guerra que se planeava no Iraque era um erro trágico: não estava provado que havia armas de destruição em massa, não existia nenhuma ligação entre o atentado do 11 de Setembro e a ditadura iraquiana e o desrespeito pelo Direito Internacional só nos levaria ao caos e a mais terrorismo. Milhares de mortos depois, tínhamos, todos os que nos manifestámos, infelizmente razão: não havia armas de destruição maciça, a guerra continua no Iraque e a região mergulhou ainda mais no caos – e, claro, há muito mais terrorismo.
Os figurões da Cimeira da Guerra, nos Açores, Bush, Blair, Aznar e o diligente Durão obrigaram-nos a participar numa guerra cega, que tinha o desacordo da maioria do planeta. Prometeram a pacificação do mundo, e só obtiveram mais paz dos cemitérios.
Agora prometem-nos mais do mesmo. Garantem-nos que só mais guerra pode acabar com o terrorismo, Estamos em tempo de sacrifícios, devemos abster-nos de criticar e até acabar com algumas liberdades. Fazem tudo isso sem perceber que estão a construir a vitória do terrorismo e da injustiça. Como escreve o sociólogo alemão Ulrich Beck: «se nos confrontarmos com a escolha entre a liberdade e a sobrevivência será demasiado tarde, pois a maioria das pessoas escolherá situar-se contra a liberdade».
Para combater o terrorismo é preciso perceber aquilo que alimenta os atentados e permite que o terrorismo se multiplique. Ao contrário do que afirmam algumas criaturas bem pensantes, que citam a despropósito os acordos de Munique e Chamberlain, não se trata de capitular, mas de manter vivo o planeta. Perceber o que alimenta o mal não significa aceitá-lo. Para «liquidar» o terrorismo é preciso respeitar o Direito Internacional, acabar a ocupação estrangeira do Iraque e resolver com justiça, para israelitas e palestinianos, a situação no Médio-Oriente. E, claro, apanhar e condenar em tribunal os autores de actos terroristas e crimes de guerra contra as populações indefesas. Só assim será possível «secar» a Al-Qaeda.
Foi também isso que disseram os espanhóis quando mandaram embora o Governo de Aznar, que baseou a entrada na guerra e a reacção ao feroz atentado de Madrid em mentiras e verdades instrumentais. As pessoas não toleraram que se usasse os mortos e o horror para alimentar oportunismos eleitorais.
Não é o medo que move quem condena esta escalada cega, é a certeza de que, para acabar com o terrorismo e condenar os autores da chacina de Madrid, é preciso uma outra política.
Hoje, sábado, 20 de Março, vão realizar-se manifestações um pouco por todo o planeta. Nas ruas de muitas cidades vão estar aqueles que se opõem à globalização da guerra e do terrorismo. São os da outra globalização, os que querem uma democracia planetária e uma cidadania global. Serão milhares a dizer que não querem nem guerra nem terrorismo.
Em Lisboa e no Porto, convocada por meios tradicionais, misturados com os novos meios «globais» da internet e mensagens de telemóveis, vão estar na rua muitos milhares de pessoas. Temos, no entanto, a consciência de que somos muito poucos, e que, como diziam os manifestantes em Madrid, «faltam-nos 200 pessoas».
Que argumentos tão fracos e confusos. Por isso a manifestação foi o fiasco que foi!
Afixado por: Zé-Ninguém em março 22, 2004 05:39 PMLIBERDADE PARA AS MULHERES:::PALESTENIANAS E MULCULMANAS.....ABAIXO O FANATISMO
Afixado por: saridon em março 22, 2004 08:45 PM