
O Afeganistão está ocupado há três anos por uma coligação entre tropas norte-americanas e exércitos dos senhores da guerra - desta e de todas as guerras que ali se travaram nos últimos 25 anos. O poder do governo-fantoche de Hamid Karzai não vai muito além das fronteiras de Cabul e quando os governantes se aventuram em visitas longe da capital, acontece-lhes como ao malogrado ministro da aviação, morto por um rocket disparado contra o automóvel em que viajava no passado domingo em Herat, a oeste de Cabul. Mirwas Sadiq entrou no governo para o lugar de Abdul Rahman, após este ter sido espancado até à morte no aeroporto da capital em Fevereiro de 2002.
Em resultado da morte de Sadiq, o governador de Herat (um dos senhores da guerra mais poderosos do país e pai do ministro assassinado) responsabilizaram o comandante mlitar pelo sucedido. Nos confrontos entre tropas nos dias que se seguiram, há notícia de 13 mortos e 200 presos.
É neste contexto que os EUA lançaram a operação "Tempestade na Montanha" (já começam a faltar ideias para dar títulos sugestivos a tanta operação de carnificina...), que mais não é que a enésima ofensiva, agora aparentemente facilitada pela chegada da primavera, para apanhar talibãs e a corte de Bin Laden nas grutas. São mais de 12 mil soldados no terreno, a que se juntam agora mais dois mil marines vindos dos navios estacionados no Golfo Pérsico. E do lado paquistanês, há 7.500 militares envolvidos na caça aos talibãs junto da fronteira.
Entretanto, as Nações Unidas prosseguem os preparativos para realizar eleições. A missão de Karzai, como tinha prometido ainda na semana passada a Colin Powell, era fazê-las até Junho, mas os acontecimentos de Herat vieram complicar o calendário. E os números avançados pela ONU também não ajudam: até agora, só 1,5 milhões de pessoas estão inscritas nos cadernos, num universo total de 10,5 milhões de eleitores. Karzai deseja eleições rápidas, já que a Constituição aprovada na "loya jirga" de Janeiro - em que o peso dos religiosos conservadores tornou o Afeganistão "libertado" numa "república islâmica" - concentra o poder nas mãos do presidente.
A "transição afegã" é um embuste: a prometida reconstrução não existe - a não ser a da rentável cultura do ópio e do negócio do narcotráfico - e o anseio dos afegãos a uma vida melhor e em liberdade sem talibãs foi traído. Para além da ausência de segurança, o compromisso entre norte-americanos e fundamentalistas religiosos que permitiu aquela Constituição ditará, hoje e no futuro, a opressão de boa parte da sociedade. A revista Economist publicou há dias este artigo sobre o crescimento alarmante do número de suicidas por imolação. A maior parte são mulheres com formação superior, professoras, enfermeiras ou ex-refugiadas vindas do Irão. Há três anos foram um símbolo de propaganda dirigida a todo o mundo, quando os marines entraram para" libertar" Cabul. Hoje são o símbolo da esperança perdida.
Publicado por luisbranco em março 26, 2004 07:44 PMÉ o que George W. Bush provocou... e muito ainda está para acontecer. Depois das suas acções, o Iraque como o Afeganistão, estão em estado de caos, com enormes problemas. A transição não se adivinha fácil, bem pelo contrário, e Durão o seguidista, continua este tipo de discursos.
Afixado por: Mário Reis em março 26, 2004 08:31 PM