março 28, 2004

Ainda se lembram da "globalização feliz"?

Génova 2001, G-8 e Annan

Foi na cimeira do G-8 em Génova que os protagonistas da globalização neo-liberal enfrentaram a maior oposição nas ruas ao seu projecto de privatização das riquezas e socialização da miséria. Para tentar minorar os danos à sua imagem - à dimensão gigantesca das manifestações, Berlusconi respondeu com ordens para pôr a cidade a ferro e fogo, culminando no assassínio de Carlo Giuliani pela polícia - o G-8 trouxe Kofi Annan ao encerramento da cimeira para felicitar aqueles generosos doadores para o Fundo Mundial para o Combate à Sida.

Três anos depois, o balanço é desastroso. Apesar da sucessivas promesssas de ajuda aos países mais pobres, os medicamentos antiretrovirais não chegam nem a 5% de quem deles precisa. Os países ricos conseguiram estabilizar o número de infectados e diminuir bastante as mortes associadas no seu território, mas a falta de investimento vai comprometer a meta fixada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em Dezembro passado: ter três milhões de infectados nos países pobres em tratamento até 2005. Já para não falar no objectivo da Declaração do Milénio aprovada pela ONU: inverter a progressão da doença em 2015.

Para além de todos os presentes em Génova terem faltado ao prometido quando chegou a hora de avançar com o dinheiro, a outra causa deste fracasso prende-se com a dificuldade de acesso aos genéricos já aprovados pela OMS. O poder exercido pelas multinacionais farmacêuticas sobre os governos resulta em situações de rejeição dos genéricos, contornando as recomendações da OMS para o uso destes medicamentos, que chegam a custar metade do preço.

Nos EUA, alguns senadores, como o republicano John McCain e o democrata Edward Kennedy, quiseram saber as razões desta rejeição e acabaram por escrever na sexta-feira uma carta a George Bush, responsabilizando a admnistração pelo atraso na entrega dos medicamentos. Graças à pressão de companhias como a GlaxoSmithKline, a Bristol-Myers Squibb ou a Boehringer-Ingelheim, os EUA preparam-se para criar uma nova comissão para instituir mais regras para o fabrico dos genéricos, ignorando as directivas da OMS a esse respeito. Dizem os senadores a Bush: "Make no mistake, delays will cost lives". Têm razão, mas deviam saber que a cotação da vida humana continua em queda livre para os investidores da Casa Branca.

Publicado por luisbranco em março 28, 2004 04:25 PM
Comentários

Realmente é incrível... Estes EUA...

Afixado por: Zé em março 28, 2004 07:06 PM

Viva a Casa Branca, viva a Globalização, viva esta merda toda... Ou não!
É pena que as vidas humanas valham tão pouco, quando convertidas em capital... E isso é notório para aqueles lados!

Afixado por: Pintelho em março 28, 2004 09:22 PM

Por aqui se pode medir o irrealismo e a ingenuidade patético-benevolente dessas ideias, que parece estarem na moda, que perconizam uma uma espécie de revolução pacífica, impulsionada pela boa vontade dos donos do mundo (entenda-se dos grandes grupos económicos mundiais) que traria o bem estar e o desenvolvimento a toda a humanidade. Nada mais errado! Desenganem-se quanto à suavidade dos métodos da burguesia! Quando se tratar de defender a sua riqueza o seu capital acumulado, os seus pervilégios, mostrarão a sua verdadeira face de cães raivosos, tornando claro que a falta de vergonha pela responsabilidade dos milhões de miseráveis que morrem no planeta, é apenas a ponta do iceberg. A revolução é parideira da história, e neste caso não haverá epidural: ou a lógica capitalista neoliberal continua a escravizar a humanidade ou, du cume de uma dor e vontades sobrehumanas, sem paralelo na história... o bébé nasce.

Afixado por: Francisco Manuel em março 28, 2004 09:57 PM

Realmente é a globalização dos pobres pela opressão dos globalmente ricos. E por cá o efeito "espelho" funciona perfeitamente.

Afixado por: vmar em março 29, 2004 12:51 AM

O que é que vocês têm contra a globalização. Não será justa, mas não será admissivel tantos ataques, atendendo a que já pensaram no que consomem diariamente, por exemplo, um café que vem do brasil, em que operários são mal pagos ou escravizados, de facto economicamente para ser aumentado o bem-estar de uma pessoa o de outra terá que diminuir. Podem pensar que reforça a vossa teoria, e até é verdade, mas a forma como criticam a globalização atendendo a que vivem no 1º mundo (talvez tendo portugal como excepção) estão a possuir bem estar que será diminuido a 5/6 da humanidade.
Pensem nisto antes de exagerarem nas críticas porque fazem tanto parte dele como daqueles que criticam, tendo ainda assim alguma razão.

Já agora segundo o livro negro do comunismo estão estimados em 100 milhões de mortos causados pelo comunismo na ex-URSS, senão me falha a memória.

Afixado por: Leonid Brejnev em março 31, 2004 08:05 PM