Por CARLOS BRITO
A meu ver o mais espantoso da revolução do 25 de Abril de 1974 foi transformar, em escassos dias, um país dominado pelo medo e pela opressão, taciturno e sucumbido, num pais aberto às liberdades, à alegria, à esperança e confiante em si mesmo.
E não se tratou de um momentâneo equívoco, como tem acontecido tantas vezes, noutras revoluções, noutros países.
Aqui a alegria persistiu e as liberdades tornaram-se cada vez mais consistentes nos dias que se seguiram, as esperanças fizeram-se energia tomando forma em projectos de transformação política, económica, social e de solução para o problema colonial.
O mérito deste milagre transformador coube, em primeiro lugar, ao MFA que assestou o golpe de misericórdia numa ditadura decrépita, mas só se tornou possível porque ao longo de muitos anos, de difícil e abnegada resistência, as forças antifascistas (comunistas, socialistas, republicanos, católicos progressistas e esquerdistas) tinham criado uma aguerrida opinião democrática que saltou para a rua, aos primeiros acordes da acção militar, abrindo caminho a que a maior parte do povo português nas mais variadas formas de manifestação, como as que se verificaram no 1º de Maio de 1974, proclamasse o seu inequívoco apoio ao MFA e festejasse o derrubamento da ditadura.
Foi esta aguerrida opinião democrática, já liderada pelos respectivos partidos, e em grande sintonia com a parte mais dinâmica do MFA, que puxou a seguir o processo de democratização, impondo a liquidação das bases essenciais do aparelho de Estado fascista, a oficialização das liberdades políticas, a instituição de importantes direitos e conquistas sociais para os trabalhadores, o cessar-fogo nas guerras coloniais.
A reacção manteve, no entanto, fortes posições e iria demonstrá-lo em várias tentativas de bloqueamento e recuperação da democratização do país que, sendo derrotadas, acabaram por se traduzir em avanços do processo revolucionário, traduzidos nas chamadas conquistas da revolução, com destaque para as nacionalizações, a reforma agrária, o controlo de gestão.
É neste ponto, que a oposição entre os diferentes projectos e modelos mais avançados ou mais moderados de transformação da sociedade portuguesa, que já se desenhavam de trás, (sempre acirrados pela reacção) entram em confronto cada vez mais violento, dividindo profundamente MFA e as principais forças políticas (nomeadamente com a ruptura entre comunistas e socialistas) dando origem a choques e convulsões, nas ruas e nos quartéis, e à confrontação militar do 25 de Novembro, que deu a vitória aos moderados.
O processo revolucionário terminou aqui. No entanto, a Constituição da República aprovada cinco meses depois ainda acolheu alguns dos seus rasgos principais e instituiu, sobretudo, o projecto de uma democracia política, económica, social e cultural. Este é, a meu ver, o grande legado do 25 de Abril de que a acção governativa de sucessivas maiorias nos tem afastado. Mas ele continua actual e válido a desafiar as alternativas políticas que sejam capazes de o pôr, de novo, em marcha.
Publicado por andre em abril 23, 2004 05:45 AM Chamar moderados ao Soares- personagem apoiada pela CIA e que se aliou à extrema direita só pode ser considerado um eufemismo.
O PS nunca foi necessário à revolução e se quisermos ter respeito pela história do nosso país temos de reconhecer que a revolução não avançou um só milimetro devido à sua acção.
Ao contrário de outros partidos socialistas na Europa, o nosso nada teve de esquerda ou sequer de reformista.
O que falhou na nossa revolução? Quanto a mim o principal falhanço materializou-se na permeabilidade de grande parte do MFA às manobras do PS e dos esquerdistas. Se Otelo, Melo Antunes e Vasco Lourenço se tivessem mantido ao lado de Vasco Gonçalves e do PCP, juntos teriam tido força para ganhar o proletariado do norte e não haveria reacção que parasse o processo revolucionário.
Quanto à participação dos socialistas no combate à ditadura, creio que o Sr Brito omite que em vésperas do 25 de Abril o Soares num rasgo de anti-fascismo propôs ao PCP que diminuisse a acção política de modo a facilitar as suas importantes negociações com o desacreditado Marcelo Caetano.
Será que podemos considerar o PS e os reviralhos socialistas que lhe serviram de berço, um partido anti-fascista? Bem sei que é preciso uma aliança de esquerda, mas não é preciso pormo-nos de cócoras e rever a história. Esse não é um bom contributo nem para a necessária mudança de rumo no país nem para as comemorações do 25 de Abril.
De facto, é preciso estar-se muito "revirado do miolo" para afirmar que o PS e Soares são moderados e que a sua política é pró-25 de Abril!
Será que este senhor (Carlos Brito) já se esqueceu da política de Soares e PS enquanto governo? Será que este senhor conhece o verdadeiro significado de Socialismo ou será que para ele Socialismo é a mesma coisa que Partido Socialista? Não nos devemos deixar levar em cantigas. O simples facto de um partido se denominar Socialista não quer dizer que o seja, pois o PS é tudo menos socialista ou de esquerda.