abril 29, 2004

Liberdade e democracia

Excerto da Declaração da Independência dos Estados Unidos da América, por Thomas Jefferson.

«Tomamos como verdades evidentes que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo seu criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais a vida, a liberdade e a procura da felicidade. Que para garantir estes direitos, são instituídos entre os homens Governos cujos poderes derivam do consentimento dos governados. Que sempre que qualquer forma de Governo se torne contrária a estes fins, tem o Povo o direito de a alterar ou abolir, e de instituir novo Governo...»

Publicado por gustavosampaio em abril 29, 2004 02:32 AM
Comentários

Deviam enviar uma cópia a todos os cidadãos dos EUA com a seguinte mensagem: para reflectir e actuar em conformidade. Aos Iraquianos não é necessário, pois já estão a agir em conformidade com a sua Declaração de Independência, afinal sempre a mesma em todo o lado.

Afixado por: viana em abril 29, 2004 12:03 PM

Não me parece que os iraquianos estejam a "agir em conformidade com a sua Declaração de Independência". Aliás, eu não consigo classificar o povo iraquiano como um todo, mas fragmentado em diversas etnias, profundamente distintas. O Iraque é um dos mais aberrantes resultados do colonialismo britânico, a par de Israel. No final do colonialismo decidiram traçar fronteiras a régua e esquadro, sem ter em conta as diferentes etnias e culturas. Tal como em África não se importaram com a questão tribal e traçaram fronteiras e fundaram países de acordo com os interesses económicos, com o resultado que todos conhecemos: miséria total, genocídios e guerras constantes. O "povo iraquiano" não existe! E a rebelião a que se assiste em território iraquiano não provém da população civil, mas de grupos de mercenários e terroristas, muitos deles oriundos de outros países do Médio-Oriente.

Afixado por: gustavosampaio em abril 29, 2004 01:33 PM

Transcrevi esta passagem da Declaração da Independência dos Estados Unidos da América simplesmente por me ter agradado o teor idealista e democrático do texto. Não é qualquer tipo de propaganda à democracia norte-americana, a qual é bastante criticável a vários níveis (a começar pelo financiamento das campanhas presidenciais por empresas que depois são claramente beneficiadas pelo Presidente que ajudaram a eleger). Nem mesmo um elogio ao execrável Thomas Jefferson, o qual defendia publicamente que se deveria abolir a escravatura mas que mantinha encarcerados centenas de escravos nas suas quintas.

Afixado por: gustavosampaio em abril 29, 2004 01:38 PM

"(...) O "povo iraquiano" não existe! (...)"

A sociedade iraquiana é muito mais coesa do que se propagandeia no Ocidente. A distinção entre Sunitas e Shiitas não é maior do que a entre católicos, ortodoxos ou protestantes. Quer os Shiitas quer os Sunitas Iraquianos são etnicamente indistinguíveis, partilhando a mesma cultura. São todos árabes, falam a mesma língua. Os únicos que são etnicamente distintos no Iraque são os Curdos, apesar de também serem muçulmanos (sunitas). Donde que dizer que o povo iraquiano não existe é tão verdade como dizer o mesmo para praticamente todos os outros países no mundo: o povo mexicano não existe; o povo norte-americano não existe; o povo espanhol não existe; o povo turco não existe; o povo australiano não existe; o povo chinês não existe; etc. Em quase todos os países do mundo vivem minorias étnicas (têm uma primeira língua diferente, por exemplo). Por isso, afirmar que o povo iraquiano não existe tentar negar que aqueles que hoje habitam o Iraque podem concordar em viver juntos e a partilhar decisões. Acho que os únicos que têm legitimidade para afirmar que o povo iraquiano existe ou não são os próprios quando forem livres para o fazer (e que ainda estão muito longe de ser).

Quanto a

"(...) E a rebelião a que se assiste em território iraquiano não provém da população civil, mas de grupos de mercenários e terroristas, muitos deles oriundos de outros países do Médio-Oriente. (...)"

Mas quais são as suas fontes de informação? As conferências de imprensa do pentágono?! Quantos mercenários e terroristas estrangeiros é que o pentágono alguma vez exibiu para a imprensa? E olhe que tal era um grande golpe publicitário para a tese em que parece acreditar. O pentágono não hesitaria em fazer tal se tivesse mesmo que apenas alguns prisioneiros não-iraquianos. Aconselho-o a ler o blog de Juan Cole, Professor de Historia na Universidade de Michigan, EUA, enormemente respeitado, de tal modo que recentemente foi chamado a depôr perante o Comité para as Relações Externas do Senado Americano para ajudar a esclarecer os senadores sobre o que se passa no Iraque e possíveis soluções para a situação. Informe-se melhor sobre o que se passa no Iraque em

www.juancole.com

E se se quiser informar sobre o que realmente pensam os iraquianos e o apoio que a população civil dá aos "mercenários e terroristas" leia

http://riverbendblog.blogspot.com/
http://blog.newstandardnews.net/iraqdispatches/
http://www.empirenotes.org/
http://www.occupationwatch.org/

e sobre o que muitos americanos pensam

http://www.antiwar.com/

Afixado por: viana em abril 29, 2004 03:07 PM

O curioso é que a própria constituição dos EUA não proíbe a escravatura, admitindo-a enquanto pena de acordo com a Lei...
Bonito não é?
Daí o invetsimento de muitas corporações multinacionais na mão de obra presidiária: sem direitos, sem sindicatos, sem quixumes e, a cereja no topo do bolo: com remunerações inferiores às asiáticas...
Para eles: Viva o Lucro, o Deus Supremo.
Para Nós: Deus está Morto.

abraços

Afixado por: Marco Saias em abril 29, 2004 04:26 PM

O que o "viana" omite quanto à questão do "povo iraquiano" é que os curdos, uma das etnias referidas, foram sucessivamente massacrados pelos seus "concidadãos" iraquianos. Genocídio atrás de genocídio, repressão violenta atrás de repressão violenta! O regime de Saddam Hussein chegou a utilizar armas químicas e biológicas para os massacrar! Tal como na Turquia o "povo turco" fez o mesmo relativamente aos milhões de curdos que habitam no seu território. Quanto ao "povo australiano", como o "viana" refere, o que dizer da repressão brutal com que foram sempre tratados os aborígenes, verdadeiros detentores por direito daquele continente? Povo coeso e unido? Etnias indistinguíveis? Os sunitas representam apenas 25% da população iraquiana e controlaram durante décadas todas as esferas de poder do país, em detrimento dos maioritários xiitas que foram sempre discriminados a todos os níveis.

Afixado por: gustavosampaio em abril 29, 2004 04:50 PM

O que o "viana" omite quanto à questão do "povo iraquiano" é que os curdos, uma das etnias referidas, foram sucessivamente massacrados pelos seus "concidadãos" iraquianos. Genocídio atrás de genocídio, repressão violenta atrás de repressão violenta! O regime de Saddam Hussein chegou a utilizar armas químicas e biológicas para os massacrar! Tal como na Turquia o "povo turco" fez o mesmo relativamente aos milhões de curdos que habitam no seu território. Quanto ao "povo australiano", como o "viana" refere, o que dizer da repressão brutal com que foram sempre tratados os aborígenes, verdadeiros detentores por direito daquele continente? Povo coeso e unido? Etnias indistinguíveis? Os sunitas representam apenas 25% da população iraquiana e controlaram durante décadas todas as esferas de poder do país, em detrimento dos maioritários xiitas que foram sempre discriminados a todos os níveis.

Afixado por: gustavosampaio em abril 29, 2004 04:50 PM

Quanto às minhas fontes, passam pelos meios de comunicação oficiais, dos jornais diários às cadeias de televisão mundiais, dos relatórios de Estado aos documentos oficiais disponibilizados. Penso que têm tanta ou maior fiabilidade do que "blogs" ou "sítios" na internet. Mas não renego nenhum tipo de fonte ou informação, pelo que prometo que vou dar uma vista de olhos aos endereços recomendados. Quanto mais diversificadas forem as fontes, mais próxima da verdade se torna a opinião final. O problema é que as verdades absolutas não existem...

Afixado por: gustavosampaio em abril 29, 2004 05:02 PM

Gustavo,

Eu sou totalmente a favor da (ou do grau de) independência que qualquer comunidade quiser ter, livremente informada e decidida em referendo. Por mim é perfeitamente válido que, por exemplo, Silves decida ser independente de Portugal (e do resto do Mundo). Quanto mais poder for devolvido ao mais baixo nível possível, melhor. Sou totalmente a favor da auto-determinação, da subsidiariedade, da descentralização. E em particular, sou a favor da independência dos curdos, na Turquia, no Iraque, no Irão, na Siria, tal como dos Bascos, comunidades hispânicas nos EUa, aborígenes na Austrália, etc. Digo-o honestamente.

O que eu queria chamar a atenção é que quando vamos analisar a "unicidade" étnica de um país, ou povo, em geral ela não existe. Tal como no Iraque. Portanto, povo não pode nunca ser utilizado como sinónimo de uma população étnicamente homogénea. Senão por exemplo os portugueses de ascendência africana nunca poderiam pertencer ao "povo português". É isso que queremos, "povos" etnicamente puros? Para mim povo é o conjunto das pessoas, dos cidadãos que habitam num dado território (por exemplo, o iraquiano), independente da sua côr, etnia, sexo, etc. Em particular, povo muitas vezes é utilizado para significar a maioria da população, quase sempre explorada e manipulada por elites. No Iraque não foram os sunitas que massacraram os curdos ou os shiitas, foi o regime de Saddam Hussein, que tinha o apoio de muitos sunitas, é verdade, mas em grande parte porque estes foram enganados e manipulados. Acusar os sunitas de massacrar os curdos ou os shiitas é o mesmo que acusar os portugueses de massacrar os angolanos durante a sua guerra pela independência. Não acho que a grande maioria dos portugueses se tivesse sabido durante a ditadura salazarista dos massacres nas colónias africanas teria concordado com eles, e muito menos os teria levado (pessoalmente) a cabo.

Quanto às fontes de informação sobre o Iraque, desculpe-me, mas para quem está associado a um site da ATTAC, uma associação que procura imprimir um rumo alternativo à globalização, tirando-a das garras das multinacionais, parece-me um pouco ingénuo acreditar que existe mais informação verdadeira nas fontes "oficiais" do que em algumas "alternativas", principalmente num assunto como o Iraque onde essas multinacionais tanto têm em jogo, directamente através de contratos, e indirectamente através dos governos de Direita que apoiam. Finalmente, eu para me informar sobre o que realmente se passa nos EUA consulto www.alternet.org . Excelente! Espreite.

Afixado por: viana em abril 29, 2004 09:30 PM

Caro Viana:

Só um reparo: por mais que o blog seja um veículo de informação e de discussão sobre alguns temas que a attac se debata, ele não alberga consensos, tal como na própria attac. Além do mais, este não é um local que seja porta-voz das posições da attac. É importante salientar isto. Os posts são apenas da responsabilidade dos autores em causa. A opinião do Gustavo, da qual não concordo inteiramente, é dele e não da attac.
Abraço

Afixado por: André Luz em abril 29, 2004 09:52 PM

É curioso como um texto inicial bem exposto e bastante claro na sua intenção,leva a uma discussão(ou várias discussões)completamente diferente.Assim é a natureza da retórica.Esse texto de Jefferson é bastante elucidativo,pois fala de uma democracia que o não é na práctica,e que nós hoje deviamos lembrar como um príncipio a discutir,já que está em causa a democracia do século XXI.

Afixado por: Afonso em maio 3, 2004 11:06 AM