
«E aqui estou, de calças arregaçadas, metido no riacho, pensando, e quando ouço o tiroteio largo as latas e desato a correr pela savana para o 'Camino Real'. Dizem-me que Baptista morreu, junto à entrada da quinta. Passamos pelos quatro caminhos, onde encontramos o primeiro grupo de rebeldes. Vêm a pé desde Velasco, disparando para o ar e gritando 'Viva Cuba, porra!' E mil outras coisas. Entre eles estás tu; grito o teu nome a plenos pulmões e ao veres-me deixas o grupo, corres para mim, pões-me o braço no ombro e começas a falar. Bandeiras e mais bandeiras, à frente e atrás, acima e em baixo, em arcadas de repente improvisadas nas ruas, nos postes telegráficos da primeira avenida, penduradas na orla das portas e das janelas de todas as casas, dispersas pelo chão, amarradas a fiadas de cordéis, agitadas pelo vento; bandeiras, milhares delas, penduradas urgentemente nos mais ínfimos recantos, trapos vermelhos e negros, papéis coloridos e mais papéis, trapos, visto já entrarmos em Holguín, todos nós debaixo das bandeiras, gritando, soltando vivas, cantando, à frente de bandeiras amarradas a paus de vassouras, de esfregões, de tudo o que o vento agite. E os carros buzinando sem parar e os miúdos das colinas vendo-nos passar, dos passeios. Alguém grita, 'são os rebeldes! Olhem os rebeldes!' E todos te rodeiam, as putas chegam-se a ti sem vergonha, uma delas toca-te a cara, 'Mas que jovem ele é - diz - nem ainda tem barba'. E tu olhas para elas e desmanchas-te a rir. Bandeiras, bandeiras...»
Reynaldo Arenas, poeta cubano. Excerto do filme "Before Night Falls", realizado por Julian Schnabel, baseado na obra literária auto-biográfica de Arenas.
Publicado por gustavosampaio em maio 18, 2004 04:47 AMbonito
Afixado por: baya em maio 18, 2004 09:21 PM