maio 21, 2004

“Há erros em todas as guerras”

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Os norte-americanos confirmaram hoje (ontem) o ataque a uma aldeia iraquiana junto à fronteira da Síria, do qual resultaram 41 mortos. Os oficiais norte-americanos dizem que atiraram sobre uma casa suspeita que serviria de abrigo à guerrilha. No entanto, os iraquianos e cadeia televisiva Al Arabiya dizem que este ataque atingiu sim, civis que comemoravam um casamento.
Nesta estação árabe, um homem não identificado diz que “os aviões americanos lançaram mais de cem bombas sobre nós, destruindo a aldeia por inteiro.

O chefe da polícia de Ramadi, citado pela Associated Press, diz que dos 41 mortos, 15 são crianças e 10 são mulheres.

Perante as dúvidas, o general Mark Kimmit, porta-voz da coligação no Iraque, quando questionado se os tiros poderiam ser uma forma de festejo (hábito naquela região), respondeu que “Há erros em todas as guerras”.

E porque não dizer que a forma como foi conduzida toda esta guerra foi um erro! Que todos os argumentos mentirosos que levaram a esta guerra foram um erro, e que os seus responsáveis devem ser severamente punidos! Que todos os abusos perante civis, desrespeitos perante a comunidade internacional foram um erro! Que as penas de condenação por torturas são irreais e que carecem de alguns algarismos!
E porque não dizer, apenas e só, que “há erros em todas as guerras”, mas aqueles que as fazem, incentivam e perpetuam, é que são o erro!

Publicado por andre em maio 21, 2004 03:49 AM
Comentários

Eles estavam aos tiros para o ar, é porque são terroristas! Dah...

Afixado por: Morcego Vermelho em maio 21, 2004 10:30 AM

Guerra e terror, erros com tendências globais. Não são apenas as forças ocupantes no Iraque a cometerem erros de guerra. Haverá quem fale contra a intenção dos ataques terroristas procurarem, privilegiadamente, a matança do maior número possível de civis? Em 11 de Setembro como em 11 de Março. Actos de terror que depressa são confundidos como (con)sequências de guerra e morte. Não são um erro, são uma intenção procurada. Como não foi por engano que Saddam utilizou a guerra química contra populações indefesas, no Norte. Não foi um engano, foi um cálculo estratégico sobre a impassibilidade da comunidade internacional.

De que poderes reais dispõe a ONU para reforçar a legitimidade de um direito de ingerência? E em que circunstâncias, com base em que votação ou consenso ou estatuto de intervenção?

A cobertura portuguesa à guerra, fora de um acordo em sede da ONU, também não foi um erro: foi uma oportunidade de se procurar por via externa a angariação virtual de um apoio dos poderosos, quando a nível interno o governo perde credibilidade política. Não foi um erro, foi um passo mais em direcção à besta da guerra, à guerra das bestas.

Estaremos condenados ao sabor dos ódios religiosos (nenhum deus os suporta, e dizem que já morreram todos os deuses, de remorsos)? Estaremos condenados à volubilidade fascista que, em qualquer lado, grita «viva a morte!»?

(Sei que já não há ideologias, naquele sentido de apropriação dependente da soberania dos Estados-Nação, nem guerra civil «à espanhola», nem Lorca nem pelotão de fuzilamento, nem uma vaga astronomia de pistolas inconcretas, nem 25 de Abril e seus soldadinhos de chumbo, nem Mussolini em um outro Abril sangrento. Agora somos todos civilizados, discutimos política entre super-mercados e acompanhamos o mundo pela televisão. A internet serve para ampliar a nossa percepção da realidade que fazemos, e os blogs, os chats, os mails vão reconstruindo a volúpia perdida da subjectividade).

Que percurso para o movimento «anti-globalização»? (que não seja uma reedição empobrecida da era «love» dos anos 60 do século passado. Esses, são hoje governantes ou parlamentares, lembram-se?).

Como podemos escapar à História? (é certo que os Homens fazem a História! - mas não sabem a História que fazem, pois não?).

Não é qualquer sociedade fruto da guerra e da ocupação?

A civilização vem depois, com o apaziguamento dos ânimos e dos impulsos naturais, com a regulação dos instintos e das suas manifestações (Norbert Elias é brilhante na demonstração desta (re)evolução, mas quem o lê? Banido das academias, como o Bourdieu comprometido).

Como podemos conquistar a paz?


Afixado por: Craveiro em maio 21, 2004 03:27 PM

O desprezo pela vida dos iraquianos é gritante nestas declarações. Erros? O primeiro erro foi o início desta guerra e a vossa presença neste país.

Afixado por: Gato Gaspar em maio 21, 2004 07:59 PM

É interessante que até agora ninguém tenha reflectido no seguinte: suponhamos que o bombardeamento americano não foi um "erro", no sentido em que realmente naquela casa/aldeia estavam reunidos vários guerrilheiros/terroristas. Isso dá às tropas americanas o direito de bombardear aquela casa/aldeia sem tentar salvaguardar a vida dos inocentes presentes, nomeadamente crianças?...

Das duas uma, ou as tropas americanas não sabiam que as crianças estavam presentes, e tal só se pode dever a não terem tentado obter informação detalhada sobre quem estava na casa/aldeia, ou sabiam, e mesmo assim avançaram com o bombardeamento. Em qualquer dos casos, porquê? É simples. Para verificarem a presença de inocentes, ou confirmando a sua presença para embarcar numa operação de captura com tropas terrestres, as tropas americanas teriam que arriscar vidas americanas. E para as tropas americanas é obviamente muito mais valiosa a vida de 1 soldado americano do que a de 10, 20, ou 100 crianças iraquianas.... e depois dizem-se libertadores.

Afixado por: viana em maio 21, 2004 10:58 PM

Tentativas burguesas de canalização das lutas proletárias em escala internacional e a luta invariante pela ruptura proletária

CONTRA AS CÚPULAS E AS ANTICÚPULAS (1)

Características gerais das lutas da época atual


Em Comunismo nº 33, publicado em julho de 1993, apresentamos um balanço geral das lutas que caracterizam a fase atual do capitalismo, fazendo abstração dos elementos particulares de tal ou qual enfrentamento. Nada de importante mudou desde então nessa caracterização geral. Pelo contrário, vemos atualmente uma afirmação daqueles traços gerais com importantes tentativas internacionais de canalizar as revoltas proletárias e sinais evidentes de rupturas por toda parte, mas caracterizadas, ainda, do ponto de vista proletário, pelo mesmo tipo de forças e debilidades então analisadas. A catástrofe atual da sociedade capitalista, que continua se concretizando e se intensificando (2), e a tendência à radicalização das contradições e enfrentamentos voltam a por na ordem do dia a questão da direção revolucionária e da destruição da ditadura internacional capitalista. Frente à barbárie atual e como única alternativa, ressurge a questão do projeto social do proletariado, a revolução social, a destruição da sociedade mercantil.

Este texto, ao mesmo tempo que analisa brevemente o desenvolvimento da correlação de forças internacionais entre burguesia e proletariado, é uma arma de denúncia das ("novas") tentativas burguesas de canalizar a energia proletária, em particular mediante as cimeiras e anticimeiras, que parecem dominar a realidade internacional, assim como das diferentes ideologias pseudo-radicais que o enfrentamento vai determinando. Simultaneamente, é um produto das discussões atuais entre proletários que se colocam abertamente a questão internacional do poder, da destruição da ditadura internacional do capital e uma contribuição à luta do proletariado mundial por sua autonomia. É, pois, uma arma de luta para forjar uma direção própria em ruptura com todas as ideologias que pretendem nos manter acorrentados ao velho carro socialdemocrata, decorado para a ocasião com novos adornos. No artigo de 1993, já assinalávamos que as formas tradicionais de enquadramento burguês foram perdendo toda atração para o proletariado; e que as formas tradicionais de luta, tanto as "greves" organizadas pelos sindicatos, como as manifestações pacíficas, e o próprio sistema político nacional com seus circos eleitorais, não conseguiam nenhum entusiasmo. E sublinhávamos que "as velhas mediações estatais foram perdendo sua capacidade de válvula de escape, o proletariado, que alguns consideravam já morto e enterrado, quando reaparece, é com tudo: sem aceitar mediações, sem que se possa pará-lo com grevezinhas, manifestações pacíficas ou promessas de eleições".

Isso nos permitia constatar que os tipos de luta que caracterizam o período atual são explosões violentas e incontroladas do proletariado contra a propriedade privada e todas as forças sociais e políticas que a defendem. Essas explosões de raiva proletária contra o capital, caracterizadas pela ação "violenta e decidida do proletariado que ocupa a rua e enfrenta violentamente todos os aparatos do estado", continuaram se repetindo. O conjunto de países onde se produziu esse tipo de explosões - Iraque, Venezuela, Birmânia, Argélia, Marrocos, Romênia, Argentina, Estados Unidos (Los Angeles) - continua se ampliando: Albânia, Indonésia (várias cidades), Bangladesh, Equador, Argentina novamente (Santiago del Estero, Neuquén...), Bolívia, Argélia outra vez (Cabila).

Em todos esses casos, constatamos a mesma incapacidade da burguesia para dar um enquadramento às lutas: o enfrentamento violento contra tudo que representa a sociedade atual, incluindo sempre os partidos e os sindicatos da oposição democrática; a expropriação, mais ou menos organizada por grupos de vanguarda, da propriedade burguesa. "Varrendo preconceitos ancestrais, desafiando o terrorismo de estado, os proletários tomam o que necessitam, tentando destruir todas as mediações a que o capital os condena: dinheiro, salário, trabalho..."

Diante dessa tendência do ser humano de se reapropriar diretamente de sua própria vida, constatávamos, no texto de 1993, que a burguesia contra-ataca invariavelmente com "suborno, porrada e desinformação", com a manipulação informativa e o ocultamento sistemático do conteúdo universal de todas essas revoltas, apresentando as mesmas como "de estudantes", "de mineiros", "de palestinos", "dos curdos", "dos muçulmanos", "dos berberes"...(3). Víamos que o contra-ataque burguês se baseia em algumas concessões e em desenvolver uma repressão seletiva, mas que em todos os casos busca isolar o proletariado de seus elementos de vanguarda. Naquele texto, analisávamos também as debilidades das lutas proletárias atuais (curta duração das revoltas, derrota das mesmas, carência de associacionismo proletário permanente, ausência de imprensa operária, de memória histórica, desconhecimento do programa revolucionário...), assim como as necessidades e possibilidades de combater tais debilidades e de transformar esse processo descontínuo de revoltas e derrotas num processo ascendente para a revolução social (4).


A necessidade de reorganização da esquerda burguesa: tentativas de renovação


A esquerda burguesa atual tem o mesmo programa de sempre da socialdemocracia: mal menor, democratismo, populismo, parlamentarismo, sindicalismo, pacifismo, ajuda ao denominado "terceiro mundo"... Mas nesta sociedade onde a desvalorização do capital leva um ritmo desenfreado, onde as mercadorias devem trazer a etiqueta de novas para serem vendidas, onde a produção ideológica é parte da produção de mercadorias, as velhas idéias da classe dominante devem ser permanentemente recicladas para poder fazer seu papel de contenção social. A essa tendência obedecem, antes de tudo, as tentativas de renovação da esquerda burguesa, assim como a moda de usar "neo": "neo" esquerda, "neo" marxismo, anti "neo"liberalismo... (5).

No entanto, a razão imediata para tal renovação provém, além do mais, da necessidade geral do capital de responder a esse vazio sentido pela burguesia ante cada grande revolta proletária na qual os proletários atuam diretamente, fora dele e contra todas as mediações tradicionais de contenção da luta de classes. O terceiro elemento, decisivo para a obrigação da esquerda burguesa de se reciclar e assumir novos adornos para esconder seu corpo putrefato e assustador focinho, constitui a catástrofe socioeconômica dos países que a burguesia chamava de socialistas e a conseqüente deterioração geral de sua imagem: nem mesmo o apoio crítico típico do trotskismo e do maoismo radical ficou de pé. Tendo ficado tão em evidência que o sistema que tanto defenderam (criticamente ou não) tinha sido sempre a mais brutal exploração para o proletariado e sem que mediasse nenhuma revolução nem contra-revolução social - que tanto anunciavam! (6) - a mesma classe dominante declarava abertamente preferir "o capitalismo e a democracia", todo esquerdismo burguês internacional se viu obrigado a esquecer seus amores de sempre e teve de buscar outros versos para ser crível. Só algumas frações esquerdistas do espectro socialdemocrata (7) continuam maniacamente aferradas à defesa (crítica ou não) desse monstro stalinista que foi o "socialismo em um só país", mediante o apoio ao castrismo.

Mas a esquerda burguesa não tem nenhuma autonomia, nem sequer terminológica, com relação à direita, sempre vai na sua cola. Por isso, as vestimentas com que foi se cobrindo estavam determinadas, sem dúvida, pela evolução e as contradições do ciclo do capital mundial; inclusive quando parecem opostas não passam do mesmo, invertido. Com efeito, às ideologias gerais da burguesia mundial vencedora da segunda guerra mundial - democracia, direitos humanos, antiterrorismo, anti-autoritarismo, antifascismo... (8) -, as frações mais prejudicadas pelo livre mercado foram agregando diferentes ideologias que eram a negação simples do que a burguesia dominante e livre-mercantil internacional ia impondo. No mesmo ritmo que a clássica política liberal (que de "neo" não tem nada!) foi adotando uma terminologia diferente (mundialização, aldeia global, globalização...), a velha esquerda burguesa pseudo-antiimperialista foi se definindo com base no prefixo "anti": antineoliberalismo, antimundialização, antiglobalização... Os partidários de sempre da libertação nacional em todos os países, após os resultados catastróficos por toda parte e a caducidade de seu discurso burguês, se reciclam também, é claro, na "anti" globalização...

Na realidade não há nada de novo sob o sol do capitalismo. Tudo isso não passa de simples palavrório barato, ou melhor dizendo, terminologias inventadas pelo capital internacional, seguramente desenhadas por agências de publicidade, para melhorar a imagem do capital e, é óbvio, para impor seus objetivos atuais como algo novo. O capitalismo sempre foi mundial, sempre foi global; mais ainda, historicamente, o ponto de partida do capitalismo não é a nação (como disse Marx: o mercado mundial precede o nacional) mas a revolução do mercado mundial (que já existia muito tempo antes), operada em fins do século XV através da generalização do valor em escala mundial, que se conclui no século XVI, a impossibilidade de acumulação capitalista sem conquistar a produção, enfim, a subsunção histórica da humanidade ao capital. O global antecede sempre, na história do capital, o particular e local. O liberalismo é a política geral da fração hegemônica do capital desde antes da origem do mercado mundial, do dinheiro mundial, o que remonta há mais de mil anos, e tal política se contrapõe, necessariamente desde então, aos interesses das frações protecionistas. Portanto, o liberalismo e o antiliberalismo (tenham ou não o prefixo "neo"), o globalismo e o antiglobalismo, o mundialismo e o regionalismo... não são mais do que diferentes expressões da luta de sempre entre frações burguesas, umas interessadas em manter o protecionismo, fonte de sua acumulação, e outras, mais coerentes com a aplicação irrestrita da lei do valor a nível internacional, em quebrá-lo (9).

Se hoje se faz tanto ruído nos meios de fabricação da opinião pública internacional a respeito dessas tendências, tão bem e caricaturalmente representadas nas cimeiras internacionais e nas anticimeiras burguesas, é precisamente para ofuscar o proletariado com uma luta que não é sua e para responder a essas explosões de raiva proletária onde os explorados do mundo tentam retomar a luta num terreno de classe. A socialdemocracia, como partido histórico da contra-revolução para o proletariado, tenta voltar a tirá-lo da rua e da ação direta, e mantê-lo submetido a um conjunto de mediações que fazem dele uma massa de manobra e uma força de apoio da luta interburguesa (10).


Idéias e personagens da esquerda "neo"


Nos anos setenta e oitenta, eram chamados de "nova esquerda" e reagrupavam um amplo espectro de ideologias socialdemocratas que reclamavam mais democracia, mais socialismo, mais antiimperialismo, mas estatismo, mais populismo e que se queixavam das grandes empresas e monopólios... Agora se chamam antiglobalização, antineoliberais, antimundialização, anti Fundo Monetário Internacional, anti comércio mundial... Falam em nome da sociedade civil e da cidadania difusa e se definem pela luta contra o capital financeiro e multinacional, a maioria deles pela aplicação da "taxa Tobin"... Mas na realidade continuam sendo o mesmíssimo cachorro com uma coleira diferente.

Toda burguesia de esquerda constatava sua incapacidade para enquadrar o proletariado de cada país... mas como o lixo ecológico se recicla, como esse papel cinzento que nos propõem, incita a responder ao que chamam "globalização", "mundialização". Tentam focalizar tudo nas reuniões mais importantes do banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional, da Organização Mundial do Comércio, assim como de outras instâncias do estado mundial do capital.

Velhos sindicatos e partidos políticos burgueses, ecologistas e feministas queimados, economistas keynesianos, movimentos pela paz, libertários (11) de todos os tipos, filantropos, jornalistas, terceiromundistas e antiimperialistas, organizações não governamentais e estruturas humanistas, agricultores em falência e protetores de animais buscam na convocação desses protestos uma nova virgindade política. Os velhos e desacreditados personagens voltam a aparecer em público, convocando verdadeiras missas cidadãs em oposição às reuniões de cimeira que os representantes oficiais realizam. Verdadeiros cortejos carnavalescos pacíficos e submissos, enquadrados policial e sindicalmente (por exemplo, a Confederação Européia de Sindicatos), coloridos e folclóricos, com personagens tão díspares como os comitês de apoio à pseudoguerrilha de Marcos ou essa caricatura de cidadão radical chamado Bové, que já foi batizado como o Walesa do Roquefort (por ser coerente em seus objetivos burgueses), passando pelos velhos personagens da esquerda champagne, tentam assim constituir uma "opção global" que na realidade não tem nada de original com relação ao velho socialismo burguês do século XIX. É claro que tampouco falta o apoio à "antiglobalização" e à "antimundialização" efetuado por personagens e organizações abertamente de direita, nacionalistas, fascistas e pró-nazis como na França, o ex-ministro da repressão, Charles Pasqua, ou a juventude do partido de Le Pen, a Frente Nacional. O denominador comum de tudo isso é, obviamente, fazer o capitalismo supostamente "mais humano", mais democrático; aprofundar a dominação democrática e a cidadanização da espécie humana. As palavras de ordem contra a globalização, o FMI, o Banco Mundial e o neoliberalismo deixam abertamente em evidência que do que se trata não é destruir o capitalismo, mas perpetuá-lo.


Ideologia da antiglobalização


A Associação ATTAC (Ação por uma Taxa Tobin de Ajuda aos Cidadãos), cujo nome inteiro é já todo um programa, é a confluência de velhas estruturas e personagens socialdemocratas do mundo, a quem foram se juntando novas caras e constitui, sem dúvida, a instituição internacional mais importante da chamada antiglobalização. No entanto, existe outro conjunto de redes, federações e organizações no qual se misturam agrupações ideológicas, sindicatos, partidos políticos, sociedades caritativas, organizações religiosas e ONGs como o Centro Tri-Continental, a Marcha Mundial das Mulheres, o Jubileu 2000, o Jubileu Sul, a Aliança Social Continental, a Ação Global dos Povos, o jornal Le Monde Diplomatique, a "Associação Ya Basta", o Movimento de Resistência Global, Via Camponesa... (12).

Essas organizações, apesar de apresentar caras diferentes, plataformas formais distintas, resultam, como dissemos, da reciclagem da esquerda burguesa, que tenta por todos os meios recuperar algo da credibilidade perdida e apresentar, frente à catástrofe do capitalismo atual que o proletariado vive diariamente, uma alternativa reformista que responda às explosões cada vez mais incontroladas do proletariado internacional. Só para fixar idéias e mostrar até que ponto o programa de tais organizações é o velho programa reformista burguês de sempre, citamos alguns pontos básicos da plataforma constitutiva da Associação ATTAC, assim como também do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, por constituírem expressões bem representativas e gerais.

A ATTAC nem sequer pretende lutar contra o capitalismo, mas contra o que denomina de globalização financeira, e propõe como medida a Taxa Tobin e o impedimento da especulação. Tal plataforma começa assim: "A globalização financeira agrava a insegurança econômica e as desigualdades sociais. Menospreza as opiniões dos povos, as instituições democráticas e os estados soberanos encarregados de vigiar o interesse geral... e os substitui por uma lógica estritamente especulativa, expressando os interesses das empresas transnacionais e dos mercados financeiros".

A caracterização que tal organização faz do mundo se baseia no velho método social democrata de ver as conseqüências, negando-se a ver as causas determinantes, e analisar algumas manifestações particularmente nefastas e notórias do capitalismo, ignorando o fato de que as mesmas são o produto necessário e inevitável deste sistema social. Tal como a socialdemocracia baseou seu revisionismo na suposta novidade do imperialismo (13), ATTAC se baseia hoje na suposta novidade da globalização financeira. Tanto ontem como hoje, era preciso encontrar coisas novas para justificar uma política de reformas do capital. Em ambos os casos, do que se trata é de afastar o proletariado de sua luta contra os próprios fundamentos da sociedade capitalista.

A teoria socialdemocrata do imperialismo e ultraimperialismo (Kautsky) constituem sempre a chave dessa manobra. Tanto ontem como hoje, essa teoria imagina o capitalismo como tendo entrado numa fase diferente que faz com que varie sua própria natureza. Segundo ela, o capitalismo em sua fase imperialista se centraliza formalmente em um (ou vários em disputa) centros de decisão mundial sobre a base da concentração do capital financeiro (definido como a fusão do capital bancário e o capital industrial), as grandes empresas monopolistas internacionais, a exportação de capitais e a luta entre as empresas e os governos na repartição do mundo.

Tanto em princípios do século XX como hoje, o novo seria a dominação mundial por parte do capital financeiro e os monopólios, como teorizara então explicitamente o socialdemocrata de direita Rudolf Hilferding. Essa teoria foi mais tarde retomada totalmente por Lenin em seu conhecido panfleto sobre o imperialismo. Tanto nessa época como hoje, com a ATTAC e os outros grupos "antiglobalização", a socialdemocracia pretende se opor a esse capital financeiro reivindicando mais democracia e mais controle estatal do capital: "as opiniões dos povos, as instituições democráticas e os estados soberanos".

Como se pode verificar, atrás destas associações, dessas novas ou velhas caras, atrás dessas plataformas não há absolutamente nada de novo: a não ser o velho e putrefato programa da socialdemocracia, que sempre reivindicou um capitalismo "mais social" (sic), "mais humano" (sic), contra a desumanização notória produzida pelo próprio capitalismo. Também hoje, como ontem, são reivindicadas "as opiniões dos povos", isto é, o populismo contra o classismo proletário, "as instituições democráticas" contra a posição clássica de luta contra as mesmas para impor a ditadura do proletariado, enfim, "os estados soberanos encarregados de vigiar o interesse geral" contra a posição clássica dos revolucionários de destruir o estado burguês, de demoli-lo totalmente e, junto a ele, toda essa merda de soberania do estado (quanto mais soberano é o estado, mais oprimidos são seus súditos!, como disseram Marx e Bakunin), as fronteiras, as nações, as leis migratórias, os passaportes, as guerras...

A ATTAC é uma expressão socialdemocrata aberta que, como tal, denuncia o aumento da riqueza e da pobreza e pretende que a opinião cidadã e a pressão sobre os estados regule os excessos do capitalismo. Em sentido histórico, é uma expressão de direita da socialdemocracia porque não reivindica nenhuma oposição ao capitalismo mesmo, senão, pelo contrário, à liberdade que o capitalismo desenvolve para realizar seus objetivos. Patrocina o controle dessa liberdade (que nem sequer querem abolir!) por parte dos governos. Não critica em nada o capital produtivo, nem, é claro, a própria exploração capitalista (a extorsão de mais-valia é legitimada implicitamente) mas os lucros excessivos do capital, com relação ao aumento inocultável da miséria das massas, e a especulação não produtiva. Como se fosse possível, mais uma vez, atacar as conseqüências sem atacar as causas.

Sua plataforma constitutiva diz: "A liberdade total de circulação de capitais, os paraísos fiscais e a explosão do volume de transações especulativas arrastam os estados a uma corrida louca para conseguir favores dos grandes investidores... Este processo tem por conseqüência o crescimento permanente dos lucros do capital em detrimento dos trabalhadores, com a conseqüente generalização da precariedade e extensão da pobreza".

A ATTAC nem sequer oculta que seu grande temor seja a revolução social e que sua função seja evitá-la, ainda que o digam com sua terminologia na moda: "Responder ao duplo desafio de uma implosão social e de um sentimento de desesperança política exige um compromisso cívico e militante".

Aproveitemos, porque é também uma moda, para assinalar que em todos esses meios da atual socialdemocracia livre-pensadora, do movimento libertário, todos os conceitos foram revistos, reinterpretados e republicitados extraindo-lhes todo conteúdo classista. Por sua importância decisiva, sublinhemos a falsificação que se faz do próprio conceito de exploração, chave da constituição do proletariado como classe mundial homogênea. Assim, a exploração não seria, como para nós, a extorsão de mais-valia, que evidente e objetivamente unifica em sua desgraça toda a humanidade proletarizada e foi historicamente decisiva para o reconhecimento mundial do proletariado como classe, mas realmente qualquer coisa. Assim, dizem: "realmente me faziam trabalhar tanto que me exploravam", como se o trabalho não fosse sempre exploração! Assim nos dizem "os trabalhadores de tal país são explorados", como se os de todos os outros não fossem! Assim dizem: "as multinacionais são exploradoras", como se as empresas locais não fossem! Dizem: "os monopólios exploram e destroem os recursos da terra", como se não fosse o capital que tudo explora e destrói e como se ele mesmo não fosse o que dita a ação de todas as empresas! Dizem: "os imperialistas nos exploram", como se fosse possível haver burgueses não imperialistas ou patrões que não exploram!... Enfim, querem nos fazer crer que o que vivemos não é exploração, que a exploração não é a regra deste mundo, mas a exceção, o caso extremo, que em geral se encontra muito longe, pois quanto mais longe melhor para a socialdemocracia: "na campanha de um país do terceiro mundo". A receita correspondente é que se deve "solidarizar com sua miséria e ser mais austeros e protestar menos aqui". Desnecessário dizer que "solidarizar-se" não tem nada a ver com o conceito classista de luta, mas que, partindo do conceito judaico-cristão de culpa e pecado, pede-se um comportamento caridoso. Trata-se de toda uma visão do mundo típica da classe dominante e seu socialismo abertamente burguês.

É claro que tal falsificação determina muitas outras, como o próprio conceito de proletariado, que se faz tudo para não mencionar e quando é mencionado é para referir-se a uma mera categoria sociológica (os operários, como impôs o stalinismo), mas nunca o sujeito revolucionário em devir, o que lhes permite escamotear sua perspectiva revolucionária e o fato de que o mesmo contém o único projeto social alternativo ao mundo atual: o comunismo, a comunidade humana mundial.

Voltemos à ATTAC para constatar que as medidas propostas estão em total coerência com sua visão socialdemocrata do mundo: taxar o capital financeiro, maior controle estatal dos lucros e paraísos fiscais, mais democracia: "Com este propósito, os abaixo assinados se propõem criar a Associação ATTAC (Ação por uma Taxa Tobin de Ajuda aos Cidadãos)... com o fim de impedir a especulação internacional, taxar os rendimentos do capital, sancionar os paraísos fiscais, impedir a generalização dos fundos de pensão e, de uma maneira geral, reconquistar os espaços perdidos pela democracia em benefício da esfera financeira e se opor a todo novo abandono da soberania dos estados sob o pretexto do "direito" dos investidores e negociantes..."

O Fórum Social Mundial que se realizou em Porto Alegre em janeiro de 2001 e que, dado seu êxito, seus organizadores pretendem reeditar todos os anos é um verdadeiro exemplo de reunião de cúpula (paralela e exemplo por excelência de anticimeira) da esquerda burguesa internacional, uma expressão desenvolvida da velha ideologia socialdemocrata mas elegantemente vestida de acordo com a moda das cimeiras e anticimeiras. O programa do mesmo se parece como duas gotas d’água ao invariante programa burguês da esquerda: "demandando uma reforma agrária democrática com usufruto por parte do campesinato da terra, da água e das sementes, exigindo a anulação da dívida externa e a reparação das dívidas históricas, sociais e ecológicas que a dívida externa provoca, a eliminação dos paraísos fiscais, o cumprimento efetivo dos direitos humanos, a oposição a toda forma de privatização de recursos naturais e bens públicos, a exigência de soberania para os povos, um planeta desmilitarizado". (14)

O Pronunciamento dos movimentos sociais, que expressa o programa de todas as associações, redes, sindicatos, partidos... presentes em Porto Alegre está cheio de pérolas da burguesia onde se imagina um capitalismo sem as nefastas conseqüências inerentes ao mesmo, um capitalismo que não gere pobreza, nem miséria, nem desemprego; um capitalismo que não destrua a natureza, um capitalismo não excludente, nem patriarcal, um capitalismo sem racismo; em síntese, um capitalismo justo e equitativo no qual todo mundo viva bem. "Exigimos um sistema de comércio justo que garanta o pleno emprego, soberania alimentar, termos de intercâmbio equitatívos e bem estar." Ou seja, o discurso invariante dos burgueses segundo o qual o capitalismo, corrigindo alguns excessos ou injustiças, seria... uma sociedade de bem estar! Apologias tão descaradas da sociedade burguesa nem sequer faz hoje a direita, que diz abertamente que isso é impossível!

Outro dos pontos recorrentes de toda ideologia antiglobalização é o de aumentar a ajuda ao que eles denominam Terceiro Mundo e alguns falam de chegar a 7 por cento do PIB. O que obviamente ocultam os defensores desse programa é que tal ajuda ao desenvolvimento não vai para os hospitais, escolas e outros projetos empresariais do desenvolvimento do capitalismo, como a maior parte das pessoas crêm, senão que vai também (ou principalmente, como em certos países) financiar os exércitos locais (para que estes comprem armas nos países que dão tal ajuda), financiar a formação de oficiais de polícia anti-subversivos e antidistúrbios (assim se patrocinam os torturadores argentinos, congoleses, peruanos... que vão se formar na França, Bélgica, Argélia...), pagar a Shell pelos gás lacrimogêneo que fabrica com matérias primas do famoso "terceiro mundo"..., assegurar a realização de massacres ("genocídios", "holocaustos") como os de Burundi...

Esta é, em traços gerais, a ideologia da antiglobalização que a socialdemocracia desenvolve, ou melhor dizendo, a direita desse partido; pois existem expressões muito mais de esquerda que correspondem a outras frações desse partido histórico da burguesia para o proletariado. Com efeito, todo esquerdismo burguês que antes se definia pelo suposto socialismo de algum país, ou pela defesa de determinado "estado operário" por mais degenerado que se considerasse, agora, muito cauteloso, já não fala de tal ou qual país socialista de forma positiva, e muito menos de campo socialista, mas continua se definindo pelo anticapitalismo. Como analisamos ao longo deste texto, estes esquerdistas, junto com a extrema esquerda dos liberais, que hoje se denominam libertários, tratam de responder ao desenvolvimento mesmo das contradições de classe e, em particular, às tendências do proletariado para afirmar sua ruptura com toda sociedade burguesa. Voltemos então à análise dessas contradições para poder situar e compreender melhor essas expressões.

Cimeiras, anticimeiras e luta proletária

Sem dúvida se mistifica a importância das cimeiras e anticimeiras, pois o capital não necessita de conferências internacionais, nem reuniões de cúpula para funcionar como funciona. Pelo contrário, a chave da homogeneidade na tomada de decisões do capital apoia-se no fato de que a ditadura da taxa de lucro existe por toda parte, é a lei de todas as decisões, é a essência de toda e qualquer diretiva econômica, é a chave de toda vida (ou melhor, contra-vida humana) do capitalismo por toda parte. Não apenas o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, as multinacionais e os governos, os parlamentos e as prefeituras, os acordos entre estados e consórcios, os trustes e as pequenas empresas aplicam em suas decisões grandes, pequenas e médias o critério da rentabilidade do capital (próprio ou de seus administrados), mas desde o diretor e o gerente de uma empresa até o último trabalhador do planeta estão obrigados a aplicar tais critérios se querem permanecer em seus postos; ainda que alguém se contente e o outro sofra com a alienação de sua vida que isto implica. O capital se caracteriza precisamente por sua democracia, por cooptar entre seus súditos quem mais inescrupulosamente servir seus apetites de lucro, quem mais impiedosamente for capaz de impor seu despotismo: seja como diretores, seja como governantes, seja como funcionários internacionais, seja como administradores locais, seja como chefes sindicais ou como torturadores... Pense-se simplesmente em quantos dirigentes operários foram cooptados pelo governo do capital, de Noske a Lula, passando por Walesa. A outra cara dessa democracia pela qual se coopta os dirigentes operários para servir ao capital é evidentemente o despotismo cotidiano que impõe o valor em processo, contra a vida humana. Ditadura onipotente da taxa de lucro que, além do mais, desenvolve a concorrência entre os proletários e a luta de todos contra todos, sempre a serviço dessa imposição do maior ritmo de acumulação possível.

Mas, além da mistificação que se faz sobre a importância do centralismo formal que o capital pode conseguir, é claro que o capitalismo tem centros de decisão (reuniões, instâncias, lugares, organismos, pessoas...) que, num dado momento, centralizam certas decisões globais que obedecem a essa ditadura onipresente da taxa de lucro. Neles se anunciam em geral medidas que atacam o nível de vida dos proletários, ao passo que se fixam acordos entre as frações mais importantes e decisivas da burguesia. Tais reuniões são anunciadas publicamente em todos os meios de difusão porque buscam conquistar certa adesão da população a esses dirigentes do capital e às medidas que surgirem dessas reuniões no topo do poder do capital. E além do mais, nos dizem: "aplaudam que nos reunamos, pois normalmente vos mandamos para a guerra". Claro que essas reuniões obedecem também a negociações entre diferentes frações do capital e à necessidade de constituir constelações ou organismos que melhorem sua correlação de forças frente a outras frações, como é o caso dos mercados comuns regionais. Ou seja, que essas cimeiras e anticimeiras têm por função, além do mais, a de por em cena e espetacularizar a importância das polarizações burguesas, que o capital necessita para canalizar o protesto proletário. Portanto, ainda que se mistifique a importância decisória dessas cimeiras, ainda que a espetacularização das mesmas e de sua pseudocontestação constitua uma necessidade da reprodução da dominação burguesa, é normal que o proletariado tenha sempre considerado as reuniões de cúpula dos burgueses como um ataque contra sua própria vida, tanto se essas reuniões são num país como se são entre burguesias de diferentes países, se são governamentais, de partidos políticos, de sindicatos ou de estruturação dessas forças em escala internacional. Por isso, em todas as épocas e em todos os países, essas reuniões suscitaram grandes protestos, manifestações violentas, lutas na rua, explosões de bombas, enfrentamentos violentos, muitas vezes armados. Contra o mito de que os atuais enfrentamentos suscitados por reuniões de cúpula seriam novos (a fabricação da opinião pública requer sempre a apresentação como "novo" de velhas coisas) poderíamos citar inumeráveis exemplos em todos os continentes, há muitos anos, mas para o presente texto basta recordar as grandes batalhas de rua que o proletariado na América levou adiante nas décadas de sessenta e setenta contra as diferentes cimeiras internacionais nesse continente contra as reuniões da OEA, contra as da Aliança para o Progresso, contra as do Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e as do GATT, contra as Conferências de presidentes... incendiando empresas, ocupando fábricas e centros de estudo, fazendo manifestações violentas, pondo bombas em locais estatais, declarando greves, enfrentando a polícia, os corpos especiais de repressão e, em muitos países, o exército...

Na atualidade, uma vez mais, esse enfrentamento de classe se faz patente. Davos, Seatle, Niza, Praga... são expressões do mesmo. Mais uma vez, até aí onde as distintas frações do capital internacional vão cozinhar os proletários do planeta, o proletariado reemerge. Por um lado, as cimeiras oficiais e as anticimeiras socialdemocratas, isto é, o pseudoprotesto oficial. Por outro, o proletariado, ultrapassando todos os rebanhos, tratando de impor sua ação direta (15), rompendo vitrines e expropriando o que puder, atacando locais oficiais e a propriedade burguesa em geral, incendiando tudo que parecer estatal, criticando e denunciando a viva voz e por meio de volantes, panfletos e revistas as ONGs, a ATTAC, os partidos e sindicatos.

Isto é, que inclusive nesses antros de burgueses, apesar de todas as forças recuperadoras presentes, se enfrentam também as duas classes da sociedade, a burguesia e o proletariado, a conservação da ordem social burguesa e seu questionamento generalizado. Da direita à esquerda, podem fazer todos os espetáculos de luta havidos e por haver, todos os meios de difusão se encarregam de validar as opções "mundialização" e "antimundialização", mas inevitavelmente a crítica do capitalismo que os proletários presentes portam os impulsiona a romper o enquadramento e ressurgem os dois projetos sociais antagônicos de sempre: a continuidade da catástrofe capitalista ou a revolução social.

Independentemente da discussão que existe hoje no seio de nossa classe sobre como se deve situar o proletariado e que iremos abordando no desenvolvimento do texto, sobre se devemos participar ou não em determinado tipo de cortejo, sobre qual é o significado da palavra-de-ordem de se situar fora e contra essas conferências e anticonferências (que é a nossa posição!), sobre se essa é a ação direta que unifica e desenvolve sua força internacional contra o capital ou, pelo contrário, se isso o leva a se submeter a um espetáculo que o distancia de sua verdadeira ação direta, não pode caber dúvidas de que essas explosões expressam a raiva de nossa classe contra os burgueses reunidos e "decidindo o destino do planeta" (16). Neste sentido resulta sumamente encorajante o processo de autonomização proletária que nossa classe começa a manifestar durante as cimeiras e anticimeiras, e que se concretiza na ruptura do enquadramento sindicalista proposto, nas importantes expressões de violência contra as mesmas, contra a propriedade privada, contra as diferentes estruturas estatais. O mesmo deixou cada vez mais em evidência que a verdadeira contraposição não é entre Davos e Porto Alegre, entre a Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a ATTAC... senão, como sempre, entre o capital (com sua direita e sua esquerda) e o proletariado.

Apesar de que, como explicaremos mais adiante, a autonomia do proletariado nessas lutas é ainda muito relativa, essas expressões da guerra de classes nas quais se expressa o antagonismo sempre crescente entre a humanidade e o capitalismo voltaram a colocar na comunidade de luta que foi se desenvolvendo, em particular, entre as minorias de vanguarda, algumas questões centrais como a do internacionalismo proletário, a necessidade internacional de se autoconstituir em força, a questão da luta internacional contra o poder do capital e o estado mundiais. Ainda que, como veremos, se esteja longe socialmente de encontrar as soluções, é sumamente animador que milhares de militantes através do mundo voltem a se colocar e a discutir questões centrais da revolução social. É evidente que esse fato, somado à continuidade das explosões repetidas em diversas partes do mundo constitui um passo importante do movimento revolucionário.

Canalização burguesa, espetacularização e falsificação

É claro que jamais os meios de informação apresentarão as coisas com base na polarização real burguesia-proletariado. Sua função é, pelo contrário, a de dissimular os antagonismos de classe, canalizá-los em contradições interburguesas, espetacularizar essas oposições para esconder os verdadeiros antagonismos, transformar a massa do proletariado mundial em espectadores passivos das conferências e anticonferências, e os setores mais decididos do mesmo em espectadores ativos que aplaudem e vaiam segundo a ocasião. Estes últimos são autorizados e também incentivados (para dar maior credibilidade ao espetáculo) a gritar palavras de ordem e realizar ações mais ou menos violentas, sem, é claro, colocar em questão nem o próprio espetáculo, nem seu papel de palhaço de um circo que os utiliza. Para os meios de falsificação da informação só existem as conferências oficiais e a contestação dirigida pela ATTAC e seus asseclas, além de obviamente alguns exaltados que expressam a mesma contestação que a ATTAC mas de forma mais violenta. Para eles, a oposição só existe entre cimeira e anticimeira, por exemplo, entre Seattle e Porto Alegre, ainda que estejam forçados a mostrar também imagens dos revoltados e inconformados.

Recordemos entretanto que nem sequer esse espetáculo de cimeiras e anticimeiras é novo. Por exemplo, durante os preparativos das duas guerras denominadas primeira e segunda guerras mundiais, as negociações de paz entre as potências mundiais que conduziam inevitavelmente à guerra, eram pautadas por congressos mais ou menos paralelos de pacifistas e socialdemocratas, que já tinham o mesmo papel de hoje de espetáculo e ofuscamento generalizado para tirar o proletariado da ação direta. De quinze anos para cá, o ritmo desse espetáculo de reuniões de cimeiras e anticimeiras foi se fazendo cada vez mais frenético: reunião no Rio sobre o porvir do planeta com anti-reunião paralela, celebrações e anticelebrações pelos quinhentos anos de descobrimento da América, novas conferências sobre a destruição do planeta e anticonferências ecológicas nos cinco continentes...

O Fórum Social de Porto Alegre em janeiro de 2001 é o exemplo supremo de espetáculo mediático montado pelo capital para representar todas as oposições havidas e por haver como uma simples questão interburguesa. Segundo os fabricantes da opinião autorizada, o Fórum de Porto Alegre seria a verdadeira resposta a Davos e, para lhe dar toda "realidade" que o espetáculo é capaz de produzir (que, como esses sabões com cheiro de maçã que têm mais cheiro de maçã que as maçãs, sempre parece mais verdadeiro que o que realmente está se passando!) vai até o extremo de construir o que seus fabricantes denominaram um "cenário simbólico da paixão" com base num debate direto "mediante teleconferência entre a fria Davos e a quente Porto Alegre"... (17)

"A equipe de Davos, encabeçada pelo financista e especulador Georges Soros, trajes escuros, gel e gravatas, seriedade e silêncio. Do lado de Porto Alegre, um leque de raças, vestimentas coloridas, idiomas, vozes e público. A discussão durou quarenta minutos, ao longo dos quais centenas de pessoas agrupadas diante dos televisores rompiam em aplausos ou vaias, riam ou gritavam palavras de ordem. Soros e sua equipe (formada por Mark Malloch, consultor das Nações Unidas; John Ruggie, também consultor da ONU e Bjorn Edlud, presidente de uma multinacional suíça) se esforçaram em manter uma calma desenhada por algum assessor de imagem, enquanto afirmavam estar preocupados com a pobreza e assinalavam que já antes da atual globalização e da dívida externa as crianças morriam de fome na África. De Porto Alegre, Bernard Cassen (ATTAC) respondia com precisão exigindo a taxa Tobin sobre as operações financeiras e especulativas e o cancelamento da dívida externa. Rafael Alegria (Via Camponesa) falou dos efeitos da globalização sobre a desarticulação dos serviços estatais, do aumento do desemprego e do impossível acesso dos camponeses à terra. Mas a paixão se desatou em dois minutos mágicos: Hebe Bonafini (18), das Madres de Plaza de Mayo, disse com voz entrecortada mas firme: "Senhores, vocês estão lutando contra nós. São hipócritas suas respostas. Respondam! Quantas crianças vocês matam por dia?" Do lado de Davos, Georges Soros esboçou um sorriso e ficou assim, em silêncio. Então Hebe Bonafini gritou: "Senhor Soros: está morrendo de risos diante da morte de milhares de crianças?" Diante dos televisores, a gente de Porto Alegre batia palmas em honra das Mães de Maio. Soros continuava com sua contorção facial apresentando-se como um cartaz satelital."

Todos os meios de difusão trabalham para fazer assim desaparecer o proletariado e a luta contra a sociedade capitalista atrás desse espetáculo entre Soros e a esquerda, entre o FMI e a ATTAC, entre "mundialização e antimundialização". Assim, por exemplo, na cimeira de Nice, como disse muito corretamente um volante que circulou internacionalmente: "A imprensa burguesa mentiu. Mentiu descaradamente. Segundo ela, os manifestantes contra a globalização capitalista haviam se unido ao cortejo cidadão convocado pela Confederação Européia de Sindicatos (CES). O que mais queriam os capitalistas e seus governantes, seus porta-vozes e lacaios, do que ver se unir a juventude proletária que luta contra o capitalismo com os embusteiros desfiles organizados pela leal oposição ao sistema burguês. Na realidade, nas ruas de Niza, se distinguiram dois movimentos diferentes, opostos... Dois movimentos assim, em cena. O primeiro, burguês (ainda que arrebanhe muitos proletários enganados) conduzido para o reforço do estado capitalista pelos dirigentes reformistas a serviço deste. O segundo, proletário, denunciando, com voz em grito, o capitalismo e atacando seus interesses."(19)

É sumamente importante realçar a contraposição entre o movimento do proletariado e todas as anticimeiras e missas cidadãs organizadas pela ATTAC e companhia como fizeram muitos companheiros e grupos contra-a-corrente. No entanto, pretender que as duas manifestações diferentes coincidam com os dois movimentos sociais diferentes, uma reformista e outra anticapitalista como se diz logo depois nesse mesmo volante, é ver as coisas em forma demasiado pura e pouco dialética. Com efeito, apesar das grandes diferenças, ambas contém contradições de classe. A manifestação socialdemocrata enquadra os proletários como cordeirinhos. A outra (que em Niza, em vez de sair às 14 horas como a que foi organizada pela socialdemocracia saiu às 17 horas), com palavras de ordem radicais, tende para a ruptura proletária mas contém em seu seio um conjunto de posições e ideologias centristas da mesmíssima socialdemocracia que analisaremos mais adiante. A mesma se concretiza, por exemplo, no fato de que a imensa maioria desses manifestantes crêem poder enfrentar o capitalismo sem enfrentar (da mesma maneira) a socialdemocracia (que é também o capitalismo) e no fato de que sabem se organizar fora da socialdemocracia mas tem muito maior dificuldade em se organizar contra ela.

A febre das cimeiras (oficiais e paralelas) e a mentira dos projetos burgueses alternativos

Não há dúvida, entretanto, de que no último período (há dois anos, mais ou menos) a moda das cimeiras e anticimeiras deu um salto qualitativo, no mesmo ritmo que se radicalizam os protestos proletários contra as mesmas. Cada cimeira não pode mais prever apenas a organização das reuniões gerais e as comissões, o alojamento dos congressistas e anticongressistas, as missas oficiais ou as missas dos cidadãos democratas organizados pela "antiglobalização", mas deve prever também as ultrapassagens e rupturas proletárias com tudo isso e, portanto, prever forças repressivas especiais, fortalecimento de controles nas fronteiras, concentração de corpos de choque, equipes especiais de filmagem, fichamento e difusão, grupos de extermínio e serviços especiais de pistoleiros para os congressistas e anticongressistas, veículos para o transporte de tropas, tanques, alambrados para bloquear as manifestações, pré-instalação de serviços de inteligência de polícias de todo o mundo, meios para permitir a chegada dos congressistas ou evacuá-los caso os ataques cheguem até os centros oficiais, mobilização especial dos serviços de saúde pública e atendimento a feridos, armas, gases, máscaras, assim como a preparação de calabouços e centros de reclusão para receber um grande número de presos. Só a título de exemplo, o Congresso do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial em Praga deixou 170 policiais feridos, 123 manifestantes feridos e uns 900 detidos, e os danos materiais à propriedade privada foram estimados em um milhão de dólares, o que evidentemente é insignificante com relação ao quanto custa a mais cada reuniãozinha dessas, onde se diz que está prevista até a evacuação por helicóptero das personalidades, defesa aérea e antimísseis (20). Obviamente, tudo isso (com as deformações e falsificações de sempre) repercute no mundo todo, dando a impressão de que efetivamente estamos diante de um enfrentamento histórico de suma importância que, segundo alguns, seria entre globalização e antiglobalização, entre neoliberalismo e antineoliberalismo, e, segundo outros, entre capitalismo e anticapitalismo, entre a internacional do capital e a internacional da revolução.

Embora esses enfrentamentos sejam parte dos confrontos históricos de sempre, entre a preservação do mundo da propriedade privada e a luta proletária pela revolução social:

imaginar que agora está se impondo uma correlação de forças para impedir a política internacional atual do capital mundial é desconhecer totalmente o próprio funcionamento do capitalismo;
imaginar que há um verdadeiro enfrentamento entre projetos diferentes (neoliberalismo e antineoliberalismo; globalização e antiglobalização) e que a esquerda burguesa realmente tem um projeto capitalista diferente é também desconhecer a essência mesma da formação social burguesa e não entender a própria função desse conglomerado de frações capitalistas;
enfim, imaginar que o proletariado finalmente descobriu mediante o que se chama "ação direta", durante essas cimeiras e anticimeiras, a via atual do internacionalismo proletário, ou que temos entrado, com base nessas ações, como já dizem alguns grupos, num enfrentamento direto entre a internacional capitalista e a internacional revolucionária é não só desconhecer o funcionamento do capitalismo, mas desconhecer, deformar e falsificar o próprio programa da revolução, a estratégia revolucionária, e conduz inevitavelmente a fazer confusão desempenhando um papel centrista (impedir a ruptura necessária) no movimento proletário.
Explicamos os dois primeiros pontos de imediato. O último, que pertence muito mais ao desenvolvimento próprio do proletariado e à sua afirmação revolucionária, trataremos nos capítulos seguintes.

A política internacional que hoje se chama neoliberal ou o que se denomina globalização não tem alternativas válidas, a longo prazo, pois obedece às próprias leis do sistema que desde que existe é mundial, global e funciona fundamentalmente sobre a base da famosa mão invisível do mercado, isto é, a lei do valor. Contrariamente ao que se diz, isto não é "uma" política do capital entre muitas outras, é pelo contrário o funcionamento "natural" para o qual tende sempre o capital, a lei que em última instância se impõe. As diferentes políticas econômicas só podem limitar ou corrigir de forma muito parcial sua aplicação (na realidade, a da lei do valor) muito restrita no tempo e/ou no espaço. Os populismos de todo tipo (de Getúlio Vargas a Perón; de Cárdenas a Nasser), os chamados países socialistas, assim como o fascismo, o nazismo, o franquismo... foram as expressões mais duráveis nesse sentido. Todas essas tentativas históricas de desenvolver projetos diversos de desenvolvimento capitalista a longo prazo (limitando a aplicação da lei do valor, baseando-se no protecionismo) tiveram uma duração limitada, além da qual o fracasso era inevitável.

Da mesma maneira e pelas mesmas razões não se pode fazer "mais humano" um sistema que não o é. Tampouco é possível fazer um capitalismo que proteja a natureza ou um capitalismo sem guerras. O que se fez com a tomada de consciência burguesa da "ecologia", por exemplo, nunca foi o melhoramento da produção capitalista em geral para proteger a natureza, senão, pelo contrário, a transformação do "verde" e do "natural" em mercadoria. A busca constante da máxima rentabilidade coexiste com a crescente adaptação das empresas para vender qualquer coisa com imagem ecológica (21), o que obviamente intensifica a ditadura capitalista contra a natureza, ameaçando todas as espécies e, em particular, a espécie humana. Da mesma forma, não se pode pacificar o mundo capitalista - todas as políticas pacifistas do capital só servem unicamente para utilizar a paz como arma de guerra.

Hoje tudo isso fica cada vez mais difícil de esconder. Além do mais, a catástrofe real do capital é de tal magnitude que inclusive as margens de manobra que ele tinha no passado para realizar políticas econômicas um pouco diferentes se reduziu muito: o capitalismo tende hoje mundial e irreversivelmente a unificar sua política, a esquerda e a direita mostram cada vez mais que hoje só existe uma política capitalista possível (e não faltam declarações de esquerdistas que chegaram ao poder neste sentido!). Assim, os "antineoliberais e antiglobalização" de oposição, na medida em que são cooptados para participar nas decisões, se tornam inevitavelmente "neoliberais", "pró-globalização" e se sentem forçados a aplicar o contrário do que disseram. Não, não é que sejam apenas e voluntariamente cínicos e mentirosos, mas é verdade que o capital os força a realizar sua política muito mais do que esses esquerdistas poderiam imaginar antes. A capacidade de restringir a aplicação regional da lei do valor internacional se fez, com o próprio desenvolvimento do capital, cada vez menor, tanto no tempo quanto no espaço. Hoje seria inconcebível o funcionamento do capitalismo ultraprotecionista como funcionou, durante décadas, na Rússia, China, Albânia... e o regime capitalista cubano e os reacionários líderes castristas tem seus dias contados. O stalinismo, como modelo ultra-reacionário (no sentido de fechar as fronteiras para tentar se opor ao progresso no desenvolvimento das forças produtivas para o qual tende normal e internacionalmente o capital, segundo a lei do valor) de desenvolvimento do capital, não foi varrido da face da terra por uma questão de idéias democráticas ou por haver utilizado massivamente os campos de concentração (o capitalismo os empregou sempre!) mas sim pela inviabilidade de impedir a aplicação irrestrita da lei do valor eternamente. Com efeito, quanto maior for a defasagem entre, por um lado, o desenvolvimento das forças produtivas em escala mundial e a desvalorização internacional que isso provoca e, por outro, a restrição protecionista a tal desvalorização num espaço produtivo dado (ou um setor determinado), mais rapidamente ocorre em tal espaço a catástrofe e a implosão econômico-social do tipo que ocorreu no leste europeu.

Tudo isso permanece se acelerando com o desenvolvimento das contradições do capital e resulta cada vez mais difícil manter subsidiados economias ou setores inteiros. Do ponto de vista dos governantes locais, cuja missão é invariavelmente celebrar a melhor taxa de lucro para atrair capitais (política negociada sempre com os organismos de crédito internacionais, particularmente com o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial) isto não só quer dizer aumentar a taxa de exploração ao máximo possível, mas além disso não taxar os setores rentáveis para (redistribuição de mais-valia) financiar os setores não rentáveis. É esse processo inevitável que explica a tendência à homogeneização da política burguesa a longo prazo. Por isso, embora os diferentes políticos burgueses ainda façam um discurso um pouco distinto (e cada vez menos!), quando de governar se trata todos terminam aplicando com maiores ou menores matizes a mesma política do Fundo Monetário Internacional. Essa é uma das razões que levam à suposta "traição" de todos os esquerdistas no governo, que terminam fazendo o que se considera "a política da direita", ou dos ecologistas que terminam patrocinando até o esforço de guerra nacional e internacional (e até da OTAN), e, em geral, a destruição da terra e da vida humana. Se fazem a política da direita, é porque do ponto de vista do capital, não há outra política (22) que a de ser rentável, que a de atrair capitais sobre a base da rentabilidade. Se continua havendo diferenças no discurso não é então por representar políticas econômicas diferentes, senão porque diante do proletariado, em determinadas ocasiões, só podem tornar aceitáveis as medidas de austeridade quando são apresentadas em nome da esquerda ou da ecologia. Por esta razão, nem sequer do ponto de vista capitalista se pode esperar nada extraordinariamente diferente desse conglomerado de frações capitalistas que no discurso se opõe à política do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Só constituem frações burguesas diferentes na forma como pretendem canalizar os proletários, que se encontram agredidos por todo progresso do capital, e por sentirem nostalgia de um mundo "menos agressivo e destrutivo", que, no entanto, se foi para nunca mais voltar (23). Expressam assim essa nostalgia imbecil da proteção da produção local sem o domínio das gigantescas empresas mundiais que não se preocupam com destruir tudo em nome do capital. Não é outro projeto senão a utópica lamentação de impotência da gestão local e "mais ecológica". Um volante da CNT espanhola de Barcelona, em 23 de setembro de 2000, terminava precisamente com esta palavra de ordem que expressa bem essa reivindicação ideológica, utópica e reacionária do conglomerado de frações burguesas que se definem "contra a globalização": "Apoia a economia local, ecológica e autogerida".

É claro que, além do mais, o desenvolvimento desses pseudoprojetos constitui a expressão ideológica de diversos interesses protecionistas de diferentes frações burguesas particulares e localistas, que, como tais, incentivam a luta (e as guerras) imperialista. Do que se trata não é então de realizar um capitalismo mais humano (apesar de ser isso que declaram), porque o capitalismo sempre foi desumano e o antagonismo entre capitalismo e humanidade tem necessariamente que se agravar, senão que buscam enquadrar o proletariado com essas utopias reacionárias para empurrá-lo a defender os interesses burgueses, e seguir a reboque de seus interesses locais, regionais, nacionalistas... e, por isso, não causa surpresa que em muitos países a extrema direita também se manifeste pela "antiglobalização". Seu verdadeiro projeto social não é portanto o que dizem, mas recredibilizar-se frente aos explorados para dirigir e canalizar a inevitável e sempre crescente raiva proletária, contra tudo o que se passa neste mundo, para a luta entre frações burguesas e para a guerra imperialista.

O papel do proletariado no palco das cimeiras e derivados: a questão da autonomia proletária

Todo o palco está montado para apresentar os protestos em Seattle, Davos, Praga... como a verdadeira alternativa ao mundo atual. Inclusive, além das frações abertamente socialdemocratas, esses encontros de cimeira, essas batalhas de rua, são considerados como a essência mesma da luta que se contraporia ao desenvolvimento atual do capitalismo, como a quintessência do internacionalismo proletário enfim descoberta. Concentremo-nos, portanto, neste capítulo, no papel que se atribui atualmente à ação do proletariado nessas cimeiras, para determinar nossos interesses e definir a política proletária frente a tais armações.

Para aprofundar a questão é indispensável se perguntar: qual é a diferença entre esse tipo de expressão da luta de nossa classe contra as cimeiras e anticimeiras e as lutas proletárias que na atualidade se caracterizam, como dissemos, por seus saltos de qualidade fulgurantes (ainda que os mesmos se produzam de forma esporádica e sem continuidade) concretizados em lutas sumamente violentas, que atacam todo o espectro político e que se desenvolvem se opondo a toda mediação, como as que ocorreram nas últimas décadas por exemplo, na Romênia, Venezuela, Albânia, Argélia... e, mais recentemente, na Indonésia, Equador...? Qual é a interação entre os dois tipos de luta ou formas de expressão proletárias?

A título de exemplo, e para facilitar a compreensão geral, comparemos as lutas que ocorreram em Seattle com as que se produziram em princípios de 2000 no Equador (24). Em ambos os casos, frações do proletariado se chocam contra o capital, milhares de proletários enfrentam diferentes estruturas nacionais e internacionais do estado capitalista mundial. Em ambos os casos se chocam contra os corpos repressivos que protegem a propriedade privada e os centros de decisão do capital. Em ambos os casos enfrentam tanto os dirigentes locais do capital quanto os dirigentes internacionais deste.

Sigamos agora as diferenças (25). Ainda que façamos esta comparação para combater concepções mais sutis, comecemos por colocar em evidência os preconceitos mais grosseiros, derivados da ideologia dominante socialdemocrata. Segundo a visão da ATTAC e companhia, as lutas em cada país não podem ir muito longe porque o centro de decisões do capital, ou melhor dizendo, do capital financeiro, são o Banco Mundial e o FMI, e nessas cimeiras se decide o destino do planeta. É óbvio que eles não reconhecem que o movimento proletário em Seattle é o mesmo que no Equador, mas se o aceitassem diriam que o de Seattle é internacional e decisivo, e o outro, local, indígena, economicista e sem maior importância. Concretamente diriam que graças aos protestos em Davos, Seattle, Washington... onde se enfrenta o centro do sistema, fica cada vez mais difícil para o capitalismo impor as medidas preconizadas pelo banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.

Respondemos: na luta no Equador, os proletários enfrentam não só a burguesia local, mas também a burguesia internacional. O proletariado com sua ação se contrapôs a todos os planos de austeridade patrocinados pelas famosas instituições Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial. A generalização desse movimento imporia uma correlação internacional de forças que poria em questão todo aumento da taxa de exploração e com seu desenvolvimento qualitativo, a própria exploração. Em troca, o movimento proletário contra as cimeiras e anticimeiras, o máximo a que consegue aspirar, contra os planos daqueles organismos, é impedir que tais reuniões se realizem, aterrorizar os congressistas ou, em geral, quem representa o capitalismo mundial em sua tomada de decisões, mas não se poderá impedir que as decisões sejam tomadas de qualquer forma; com segurança, com menos estardalhaço, a portas fechadas, em contatos interburgueses secretos... Por mais limitada geograficamente que pareça, a outra ação é capaz de impor uma relação de forças (talvez não seja o caso do Equador mas sim de muitos outros exemplos históricos) internacional contra o capital que bloqueie todas as medidas de ataque contra o proletariado (como aconteceu recentemente na Bolívia na questão da água, que o capital internacional e nacional quis impor). Em troca, a ação de Seattle, por mais geral e espetacular que seja, é difícil que se traduza numa relação de forças que, por exemplo, impeça um aumento da taxa de exploração.

Nos últimos dias foi suspensa a reunião do Banco Mundial prevista em Barcelona para o mês próximo (junho de 2001) e nossos inimigos falarão em triunfo. Para nós, mesmo que se chegasse a varrer essas conferências da Terra, ou se chegasse a destruir todos os edifícios de reunião dos organismos internacionais, não se poderia assim impedir que as medidas continuassem se aplicando país por país. É evidente que é preciso deixar isso claro contra o mito inverso. Mas isso não desmerece em absoluto a luta dos proletários que, quando são previstas conferências e anticonferências, lutam contra elas e inspiram um pânico cada vez maior nos congressistas, milicos, governantes e socialdemocratas em toda parte. Ainda mais, como iremos vendo no que se segue, estes setores poderiam chegar a ser decisivos na generalização da luta, na consciência e na direção internacional.

Continuemos, então, com a comparação. No Equador, esse movimento é o resultado de um conjunto de lutas parciais de diferentes setores proletários que defendem seus interesses e enfrentam "seus próprios" burgueses, "seus próprios" sindicalistas, "seus próprios" partidos socialdemocratas... e que, no início, exigem diferentes reivindicações e/ou medidas, até que o descontentamento é tão generalizado que a luta proletária toma a rua, todas as exigências particulares se generalizam (26) e os centros de decisão do estado nesse país são atacados: parlamento, poder judicial, presidência, locais dos partidos políticos...

Em Seattle, o movimento está constituído por quem quer atacar o que considera os centros decisórios do capital e do estado mundial. Isso é válido tanto para os proletários que marcham como cordeirinhos nos desfiles socialdemocratas como para os que os ultrapassam e que enfrentam também a socialdemocracia e se organizam fora e muitas vezes contra ela. O ponto de partida dos que vão a Seattle é aparentemente mais global, mais politizado (27) e mais determinado pela vontade política do que pelo interesse imediato, do que pelo interesse social. Os que vão partem de suas posições, de suas idéias revolucionárias, ainda que, é claro, as mesmas sejam também, por sua vez, o resultado da consciência dos interesses imediatos generalizados do proletariado.

O movimento do Equador, como produto social dos interesses proletários que vão se generalizando, ao se contrapor às expressões do capital e do estado que encontra a sua frente, contém, representa e assume diretamente os interesses do proletariado internacional contra o capital e o estado mundiais. A luta conseqüente por seus interesses leva os proletários a uma contraposição prática às tentativas de enquadramento socialdemocrata, independentemente das idéias dos protagonistas. No Equador, o movimento proletário é impulsionado, por seus interesses surgidos e desenvolvidos nesse movimento, à ruptura com todo tipo de enquadramento socialdemocrata. Em Seattle, pelo contrário, só as posições políticas e a clareza programática permitem desdobrar e aprofundar a ruptura com a socialdemocrata.

No Equador, o proletariado só pode defender os interesses pelos quais desencadeou o movimento rompendo o enquadramento socialdemocrata, assumindo sua autonomia de classe; neste sentido está forçado a fazê-lo. Quando decide ir ao que considera o centro de decisões do capital, a Quito, é porque não agüenta mais, porque quer arrebentar os que estão o esfomeando. Já é um ataque! Porque então todos aconselham a calma e o "retorno a seus lares". Não só ninguém o convocou a Quito, como também não há nenhuma cimeira ou anticimeira para "acolhê-lo". Só o esperam as forças repressivas; farão o possível para que ele não chegue. E apesar disso, o proletariado impõe sua determinação. O enquadramento sindical e da esquerda burguesa evidentemente que vai atrás, para não perder o trem, mas segue o movimento para enquadrá-lo.

Em Seattle, pelo contrário, a razão inicial são as cimeiras e elas determinam os lugares, as datas. Não é a organização da força proletária que decide ir a Seattle, mas são as convocatórias ao proletariado para desfilar como rebanho que o convidam a ir. E só ao lado e, em alguma medida fora e contra, vão grupos de proletários pelejar também contra esse enquadramento.

É óbvio que estes é que não são convocados e que são temidos. É contra estes que as forças repressivas se organizam. É contra estes que são feitos controles nas fronteiras. Estas frações proletárias em ruptura vão a Seattle por suas posições programáticas, vão para ressaltar e desenvolver essa ruptura com todo capital. Só a percepção dos interesses do proletariado internacional transformados em consciência de classe e em posições (e, em todo caso, filtrados pela ideologia burguesa, ainda que se lute contra) permitirá se contrapor à socialdemocracia e desenvolver a autonomia proletária. Mais ainda, a maioria dos proletários que vão a Seattle desenvolver a luta proletária pertence a alguma organização, a alguma rede (como está na moda dizer hoje), algum movimento, algum grupo, ou são considerados por estes como formando parte de sua periferia organizada.

É uma diferença importante. A ruptura no Equador está determinada pelo desenvolvimento inevitável dos interesses antagônicos; em Seattle, depende quase exclusivamente dos progra

Afixado por: comunismo em maio 22, 2004 01:50 AM

O maior erro de todos é mesmo existirem guerras. Contudo, já que não podemos mudar o curso da História, lutemos contra aqueles que as fazem, por "erro".
Quanto tempo mais vamos deixar os EUA fazer o que querem?

Afixado por: Pintelho em maio 22, 2004 07:26 PM

ahhh comunismo, tantos chavões e palavras caras, era difícil utilizar a palavra pessoas?... seres humanos?.... nada aprendido com a história?.... que a melhor política é aquela que torna o meu vizinho feliz?.... e que os fins, por mais nobres que sejam, nunca, nunca podem servir de justificação dos meios usados?....

Afixado por: viana em maio 22, 2004 08:03 PM

Quem recomendará, ainda, uma democracia imposta à bomba?

Afixado por: Rio Ave em maio 22, 2004 10:50 PM