Assistir a um congresso do Partido Social Democrata ou de qualquer outro partido político chega a ser penoso. Resume-se tudo a um desfile de vaidades, de ambições pessoais, de exibicionismos, de marketing político, de exploração da imagem televisiva. Os discursos são pautados pela mais pura demagogia, meros exercícios de retórica, entre o cinismo e a hipocrisia, com o único intuito de ludibriar o espectador, o público-alvo, a sondagem, o voto.
Nada disto é novidade. Para ninguém. Mas por vezes o cinismo é de tal forma gritante que se torna impossível não o denunciar. Desta feita, sublinhe-se o cinismo de Durão Barroso, primeiro-ministro de Portugal, no mais recente congresso do seu partido. Como poderia ter sido qualquer outro político, noutra altura, noutras circunstâncias, no congresso de qualquer outro partido.
Ao acusar o Governo Regional dos Açores, liderado pelo Partido Socialista, de perseguir funcionários públicos que participem em eventos organizados por outros partidos políticos, Durão Barroso ultrapassou os limites do admissível. Ao acusar o Governo Regional dos Açores de não permitir a liberdade de expressão no referido arquipélago, Durão Barroso perdeu toda a razoabilidade.
Mesmo que tais acusações tenham qualquer tipo de fundamento, vir a público no congresso do seu próprio partido lançar suspeitas para a comunicação social é verdadeiramente lamentável, sobretudo vindo de alguém com o cargo de primeiro-ministro de Portugal, com a obrigação de preservar algum sentido de Estado, para além das querelas partidárias. Ainda para mais perante tamanha proximidade com as eleições das regiões autónomas, o que só pode levar a crer que a intenção de Durão Barroso foi nada mais nada menos do que influenciar os resultados eleitorais. Um acto que faz lembrar o Partido Popular de José Maria Aznar, em Espanha, no seguimento ao 11 de Março e em vésperas de eleições legislativas. Espero que a população açoriana não se deixe ludibriar, seguindo o grande exemplo da população espanhola.
O mais escandaloso de tudo isto é o facto de as acusações partirem do líder do Partido Social Democrata, ao qual pertence o famoso Alberto João Jardim, líder da Região Autónoma da Madeira. Perseguição política? Instrumentalização do poder? Liberdade de expressão? Como é possível ser tão hipócrita ao ponto de vir a público fazer tais acusações quando se sabe perfeitamente o que se passa na Região Autónoma da Madeira, onde Alberto João Jardim até a RTP-Madeira instrumentaliza em seu favor? Será que o primeiro-ministro de Portugal toma o povo português em geral, e o açoriano em particular, por um grupo de ignorantes desinformados? Verdadeiramente insultuoso e reprovável, a todos os níveis!
É por isto que a política não presta. Os políticos não prestam. E as pessoas deixam de acreditar. Deixam de votar. As palavras de Saramago não são tão insensatas como podem parecer. Atenção!
Publicado por gustavosampaio em maio 23, 2004 01:52 AMGustavo, eu entendo quando te referes à política, estás a referir-te ao papel de Estado e ao estado actual da democracia representativa. Contudo, ao editares este post parece que inseres tudo no mesmo saco - fazer política. Penso que para bem, e para que se ilucide a tua opinião, deverias separar, ou dar a entender que existem diferentes formas de fazer política, e a qual te referes exactamente. Caso esteja a deturpar a tua opinião, então não concordarei com a parte final do teu post.
Abraço
Claro que me referia apenas ao último parágrafo. Xim?
André
caro andré, já é a segunda vez que me colocas esta questão, esta dúvida em relação a mim! e mais uma vez reitero que quando me refiro a "política" estou a referir-me ao sistema partidário tradicional, os partidos que se revezam na restrita esfera do poder. não sou anarquista. ou niilista. o que eu critico não é a "política" em si, no sentido abstracto, mas a "política" que se pratica, no sentido pragmático. e volto a repetir-me: o grande problema não são as ideologias, mas a sua aplicação pelos homens.
Afixado por: gustavosampaio em maio 23, 2004 02:46 AMobrigado, contudo, pelo reparo. pois o termo "política", inserido no título como "a política não presta", num sentido abstracto, generalizado, poderia dar azo a interpretações erróneas. fica a minha ressalva...
;)
Afixado por: gustavosampaio em maio 23, 2004 02:48 AMConcordo totalmente contigo, gustavo. Há que retirar a exclusividade do exercício da Política aos políticos (profissionais). Ou seja há que integrar elementos de Democracia Directa no nosso sistema político. Que tal uma segunda Câmara na Assembleia da Républica constituida por portugueses aleatoriamente escolhidos?...
Afixado por: viana em maio 23, 2004 01:13 PMmalta, para quando post sobre como é que correu o encontro nacional ???
Afixado por: leste em maio 23, 2004 02:43 PMCaro leste:
Será editado algo sobre o encontro nacional a seu tempo. Obrigado pela atenção. Em breve daremos notícias.
Abraço,
André