maio 24, 2004

Política editorial

O editorial da última edição do jornal "Expresso" (22 de Maio 2004) defendia que independentemente de todas as precauções tomadas pelos serviços secretos, do reforço de vigilância nas fronteiras, da observação e controlo das comunidades islâmicas e dos movimentos da ETA, entre muitas outras medidas de segurança, o casamento real em Espanha estaria "à mercê dos terroristas", só não ocorrendo um atentado terrorista em Espanha "se os terroristas não quiserem".

Mais, o editorial amplificava a ameaça, generalizando-a a "todos os grandes acontecimentos no Ocidente, todas as concentrações de massas, todos os lugares onde acorrem multidões". Consolidando a ideia com duas frases lapidares: "A ocorrência ou não de atentados já não depende de nós - depende deles, do que eles quiserem"; "(...) quando nada de mal acontece, não é por nos termos protegido bem: é porque eles, simplesmente, não quiseram".

Não deixa de ser irónico que esta ideia absolutamente derrotista parta de um órgão de comunicação social que insistentemente acusou de capitulacionistas todos quantos se opuseram à intervenção militar no Iraque. De um órgão de comunicação social que insistentemente acusa de capitulacionistas todos quantos defendem a retirada das forças militares estrangeiras actualmente presentes no Iraque. De um órgão de comunicação social que ridicularizou a proposta de Mário Soares de tentar encetar negociações com as células terroristas. Nesta linha de argumentação, a ideia agora defendida, segundo a qual o Ocidente estará "à mercê dos terroristas" e pouco ou nada poderá fazer, é de uma incoerência gritante.

Incoerente mas não inocente. Pois tem um objectivo dissimulado. O de fomentar uma cultura do medo, do receio. Incutir o medo nas pessoas de forma a obter uma reacção agressiva. De forma a incentivar um sentimento de raiva. Propícia à cultura da guerra, da agressão, do não-diálogo, fomentada pelos defensores da ilegal e imoral intervenção militar no Iraque. O mesmo tipo de sentimento, intrinsecamente negativo, que provoca situações como os casos de tortura e maus tratos infligidos contra prisioneiros por parte de soldados norte-americanos, no Iraque, no Afeganistão, em Guantanamo...

No mesmo jornal, na mesma edição, José António Saraiva refere que foi "dos que não participaram no coro norte-americano aquando da invasão do Iraque, por três razões fundamentais". Como primeira razão: "porque os americanos tinham sido brutalmente atacados no 11 de Setembro - e não era possível exigir-se-lhes que ficassem de braços cruzados à espera de novo ataque". A conexão do ataque de 11 de Setembro de 2001 com a intervenção militar no Iraque chega a ser insultuosa! Pergunto se os ataques de 11 de Setembro terão sido reivindicado pelo regime de Saddam Hussein sem que eu tivesse dado conta! Ou se as conexões desse mesmo regime com células terroristas terão sido alguma vez comprovadas! Aliás, as próprias agências de segurança norte-americanas sempre consideraram inválida esta última hipótese.

A política editorial do jornal "Expresso" consiste em seguir a linha de pensamento belicista, invertendo factos, deturpando argumentos, iludindo os leitores com opiniões parciais e obrigatoriamente alinhadas com a política seguida pelo Governo português, por sua vez obrigatoriamente alinhada com a política seguida pelo Governo norte-americano. Um meio de comunicação social instrumentalizado para difundir uma visão conveniente dos acontecimentos. Dos factos. Prejudicando claramente os seus princípios fundadores. Os princípios jornalísticos de pluralismo e imparcialidade.

Publicado por gustavosampaio em maio 24, 2004 07:14 PM
Comentários

Concordo inteiramente consigo, caro Gustavo. A manipulação da opinião pública feita pelos orgãos de imprensa e de comunicação social é brutal. As políticas editoriais são erradas, e possivelmente manipuladas politicamente. No entanto, não é só o Expresso que pratica tais actos; a maior parte dos jornais têm estas políticas editoriais. O que deve ser discutido é a forma de alterar a manipulação dos medis (se é que é possível) e que a informação, dita "alternativa", imponha-se como forma de elucidar a opinião pública, e faça uma discussão política aberta e plural sob os temas em questão.

Afixado por: Mário Reis em maio 26, 2004 04:59 AM