maio 29, 2004

Somos todos prisioneiros de Abu Ghraib!

Aqui fica um artigo enviado por Luis Garzon, sociólogo e membro da ATTAC – Brasil, denunciando a barbárie norte-americana no Iraque.

Somos todos prisioneiros de Abu Ghraib!

Luis Fernando Novoa Garzon

“O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava ali, sem diminuição de tamanho.”
Jorge Luis Borges

O Iraque montado e remontado, perfurado e sangrado é como um boneco vodu do mundo. A maligna acupuntura se estende aos corpos fazendo aflorar deles seus ímpetos mais destrutivos. A ferida mais aberta do presente é ao mesmo tempo a janela que escancara o futuro. Um país feito tela de cristal é a experiência limite de redução e síntese do espaço-tempo. Os choques e contra-choques dessa guerra virtual escapam a qualquer lógica militar por que são concebidos antes para exponenciar riscos sistêmicos e sinalizar terapêuticas correspondentes. O recorte do Ocidente é feito pelo seu inverso, o Oriente reinventado a partir de operações camufladas e atentados pirotécnicos. A morte violenta, abrupta e imprevisível é a única hipótese que pode abalar escravos do prazer e do conforto. Nada mais precisa ser evitado neste cínico mundo de hologramas em disputa por uma projeção que melhor os contemple.

A grande mídia, sob os auspícios do Pentágono, encarrega-se da construção da novela total, de seus personagens e do público, absorvido como figurante na tela onipresente. Entre câmeras, sensores e narrativas heróicas todos somos engolfados pela miragem do épico modelar dessa civilização, as Cruzadas. A nova missão civilizatória: exorcizar de todas as gentes a capacidade de transitar pela linha do tempo, de transversalizar e compartilhar sentimentos. Liberar as individualidades e as pulsões para serem devidamente domesticadas e parasitadas. Fustigar incessantemente a memória profunda para que as memórias instantâneas girem.

A governança que falta para mercadorizar o mundo em todas as suas possibilidades tangíveis e intangíveis só poderia ser construída sob a égide da mistificação e da força bruta. O espectro do inimigo apocalíptico se alonga por sobre as áreas de exclusão que se prolongam desde as periferias metropolitanas até as periferias mais distantes. Os excluídos são apresentados como merecedores de sua condição porque violentos e intratáveis. O mal radical corporificado no outro radical, tudo aquilo sem lugar na sociedade de consumo, o anacrônico, o fora do tempo, o não assimilável, o que perdeu. Justiça infinita! A generosidade é de quem oferece um “modo de vida superior” e a insanidade é de quem o recusa obstinadamente. Assim encobrem e estabilizam as contradições mais agudas do capitalismo global. Gigantescas lacunas inter-civilizacionais são cavadas para subsumir as insuportáveis lacunas econômicas, sociais e políticas da nossa própria civilização.

Amor incondicional exigem os criadores do universo da mercadoria a todas suas criaturas. Amar com todas as forças o capitalismo, sua estratificação social perversa e seu dinâmica irresponsável do ponto de vista ambiental. A verdade dos lucros incessantes não pode calar. Os limites do novo totalitarismo bélico-privado são indeterminados porque constantemente recriados em marcos abertos. O mundo feito nota camaleônica deve ser tingido com as cores apropriadas aos pregões de cada segundo. A atomização das relações e a plasticidade dos focos de referência tornou a história muito mais maleável. Pode-se carregá-la literalmente no bolso.

O Império de última geração nem se preocupa em sustentar a pose de superioridade. Zoom sobre o Presídio Abu Ghraib, zona oeste de Bagdá. O primeiro a tentar documentar esta maquete do inferno sem sabe-lo foi o cinegrafista Mazen Dana da Agência Reuters. No dia 17 de agosto de 2003, Dana filmava a parte externa do Presídio quando se aproximou um tanque norte-americano. Na derradeira gravação ouvem-se 6 tiros enquanto o céu dança no ar por alguns segundos antes de ficar completamente inerte. Os soldados alegaram que haviam confundido a câmera de Dana com um dispositivo lança-granadas!

As imagens de Abu Ghraib são realmente explosivas, sabemos hoje. O passar impune de meses de execuções e torturas, fez com que os registros começassem a brotar espontaneamente. Os sorrisos e piadinhas dos carrascos fardados durante as sessões são a marca registrada. Manter o bom humor enquanto se inflige os piores suplícios ao outro indefeso passou a ser nosso espírito de época. O zeitgeist de uma era que ousou ir além da indiferença para assumir a canibalização como prazer. Impressiona como o ato de degradar pessoas possa ser tão excitante para legítimos representantes do “Ocidente racional, democrático e cristão”. A submissão total da vítima proporciona uma sensação de onipotência ao que pode submete-la. A voracidade então cresce na ordem direta da diferença e da fragilidade. As fotos e gravações de Abu Ghraib comprovam mais uma vez a conhecida sentença de Henry Kissinger, o conselheiro-mor do Império: o poder é afrodisíaco.

Os soldados cumpriram prazeirosamente as ordens que receberam. Incapazes de transigir e de interagir, o único deleite que lhes resta é o estupro dissipador e anulador tanto do corpo quanto da identidade alheia. O único reparo é que não podem mais capturar as imagens desse alegre ofício. “Câmeras digitais, filmadoras e celulares com câmeras foram proibidos em bases militares no Iraque” determinou o Secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, logo após o escândalo. Apenas sete soldados irão à corte marcial assim isentando toda a hierarquia acima deles. Os que não se incriminarem patrioticamente terão um futuro incerto no Iraque. Baixas norte-americanas regulares são necessárias para que se justifique tanto a permanência quanto a ampliação da intervenção.

Debaixo do silêncio cúmplice da ONU e dos países aliados e contando com a cobertura eficaz do oligopólio midiático, essas fábricas de cadáveres vivos continuarão produzindo intensivamente choque e pavor. O intuito é arrancar qualquer traço de dignidade de uma gente que precisa se encaixar no papel de monstros descartáveis. A imagem orwelliana do futuro da humanidade, representada por uma bota esmagando um rosto humano, parece inocente diante de Abu Ghaib e campos de concentração congêneres.

Publicado por andre em maio 29, 2004 02:10 AM
Comentários

infelizmente essa prisão não é pior de outras que ali existiram antes, pela mão do vil ditador de bigode, nem a tortura se resume ao exposto nem às milhentas prisões de que nunca se fala, nem o mal é o Ocidente nem o Oriente ou o Norte ou Sul, nem há boas lições de convivência a extrair destes povos dos 4 cantos do mundo.

Por que razão apontar apenas para o Ocidente (onde começa e acaba este?) uma vontade crítica (?) que anula qualquer capacidade séria de reflexão e análise sociológicas ou históricas?

Afixado por: dionisius em maio 31, 2004 03:05 PM

O "vil ditador" foi alimentado e sustentado por décadas pelo imperialismo norte-americano, o que agora faz questão de se intitular como o guardiào "dos valores e modo de vida ocidentais". O arbitrário recorte de Ocidente, emblematizado por Hustington, procura recobrir de culturalismo o transbordamento do econômico. É a mediação última de um regime globalitário incapaz de reproduzir mediações políticas e sociais. As fronteiras do "ocidente", meu caro, são portanto as indefiníveis fronteiras da mercadorização do mundo. Estou atacando as novas formas de legitimação do capitalismo global, baseadas em um terrorismo induzido e camuflado. O que se chama de "fundamentalismo islâmico" foi há muito tempo instrumentalizado e infiltrado pelos serviços de inteligência norte-americanos e israelenses. Conheça em detalhe a trajetória do Hamas. Historicize a formação do regime monocrático saudita. Percorra os passos iniciais da Al Qaida no Afeganistão de depois me diga o que é fundamentalismo como fenômeno político e organizativo, e não apenas, na forma de discursos e mensagens apocalípticas estampadas em mensagens eletrOnicas e duvidosos vídeos. Ou propaganda de guerra virou fonte de informação fidedigna? Quando falo de "Ocidente", estou falando de um capitalismo em crise estrutural, decrépito, senil e que por isso precisa de tal apelo ideológico. E não há "Oriente" para fazer média alguma, para que se lavem as "culpas". Não procuro médias sensatas. Eu tomo posição. E tomar posição não é pedir um "combate mais humano do terrorismo", uma "intervenção mais democrática sobre o Iraque", uma especíe de barbárie mais multilaterizada, que espirre menos sangue, mais limpinha... Isso é que merece realmente séria reflexão. Aqueles que quiserem preservar coerencias acadêmicas auto-referentes que continuem internados em suas torres de marfim.
Luis Fernando Novoa Garzon

Afixado por: em junho 3, 2004 02:44 PM

O "vil ditador" foi alimentado e sustentado por décadas pelo imperialismo norte-americano, o que agora faz questão de se intitular como o guardiào "dos valores e modo de vida ocidentais". O arbitrário recorte de Ocidente, emblematizado por Hustington, procura recobrir de culturalismo o transbordamento do econômico. É a mediação última de um regime globalitário incapaz de reproduzir mediações políticas e sociais. As fronteiras do "ocidente", meu caro, são portanto as indefiníveis fronteiras da mercadorização do mundo. Estou atacando as novas formas de legitimação do capitalismo global, baseadas em um terrorismo induzido e camuflado. O que se chama de "fundamentalismo islâmico" foi há muito tempo instrumentalizado e infiltrado pelos serviços de inteligência norte-americanos e israelenses. Conheça em detalhe a trajetória do Hamas. Historicize a formação do regime monocrático saudita. Percorra os passos iniciais da Al Qaida no Afeganistão de depois me diga o que é fundamentalismo como fenômeno político e organizativo, e não apenas, na forma de discursos e mensagens apocalípticas estampadas em mensagens eletrOnicas e duvidosos vídeos. Ou propaganda de guerra virou fonte de informação fidedigna? Quando falo de "Ocidente", estou falando de um capitalismo em crise estrutural, decrépito, senil e que por isso precisa de tal apelo ideológico. E não há "Oriente" para fazer média alguma, para que se lavem as "culpas". Não procuro médias sensatas. Eu tomo posição. E tomar posição não é pedir um "combate mais humano do terrorismo", uma "intervenção mais democrática sobre o Iraque", uma especíe de barbárie mais multilaterizada, que espirre menos sangue, mais limpinha... Isso é que merece realmente séria reflexão. Aqueles que quiserem preservar coerencias acadêmicas auto-referentes que continuem internados em suas torres de marfim.
Luis Fernando Novoa Garzon

Afixado por: Luis Fernando Novoa em junho 3, 2004 02:44 PM

uma estupidez não vem só, precisa de vir associada a paseudo-análises e pressupostos de veracidade apresentados apenas com o fundamento ideológico da própria origem: a estupidez.

Querem torre de marfim mais forte que isto?

Afixado por: dionisius em junho 9, 2004 02:41 PM

O sr. Dionisius carimba com o rótulo de estupidez aquilo que sequer consegue entender ou discutir. Além dos vitupérios, onde estão os argumentos? Onde está mesmo a estupidez?
Luis Fernando Novoa Garzon

Afixado por: Luis Fernando Novoa em junho 11, 2004 07:57 PM