junho 01, 2004

A censura moderna

«A mudança mais radical radica na transformação da censura pela escassez, que se operava pelo 'corte' do lápiz azul, à censura da abundância, que se baseia na permanente difusão de fluxos informativos, em que se confundem informação e ruído, notícias relevantes e eventos de reduzido significado. O controlo dos fluxos noticiosos deixou de se operar pela rarefacção. Passou a processar-se através de uma estratégia de abundância. A dificuldade do cidadão comum residirá em separar a informação do ruído ou em construir a sua própria agenda pessoal por entre a torrente informativa quotidiana, veiculada pela agências noticiosas, televisão, rádios, jornais e sítios da Internet. Como dizia José Augusto Seabra, as formas e os tipos de censura são 'capilares', renovam-se e modernizam-se. Mais informação - ao contrário do que julgávamos, noutros tempos - não é automaticamente sinónimo de melhor informação ou de eliminação do boato.»

Parágrafo final de artigo de opinião (intitulado «Da censura pela escassez à censura da abundânca») da autoria de Mário Mesquita, publicado no jornal "Público", edição do dia 30 de Maio de 2004. (artigo completo)

* sobre esta temática aconselha-se vivamente a leitura de "A tirania da comunicação", de Ignacio Ramonet (actual director do jornal "Le Monde Diplomatique"), uma obra de referência no campo da comunicação.

Publicado por gustavosampaio em junho 1, 2004 03:23 AM
Comentários

O Mário Mesquita faz, normalmente, artigos muito bons. Bem melhores que os institucionais Provedores de Leitores que apelam à deontologia mas não metem o dedo na ferida. Recordo-me do artigo do Mário Mesquita sobre o António Champalimaud, que falava da santificação post mortem da personagem sinistra pelos jornalistas menos críticos (quase todos os que falaram do dito senhor).

No entanto, esta ideia da racionalidade do espectador tem muito que se lhe diga, porque (e já não me lembro quem disse, mas o Ramonet cita) "o melhor espectador do mundo não pode interpretar senão aquilo que recebe".
A construção da agenda do espectador/leitor/consumidor de media é sempre construída pelos próprios media. Um exemplo: nas nossas conversas diárias falamos mais do processo "Casa Pia" ou da situação no Lesoto?
Nós nem sabemos qual é a situação no Lesoto... Tomara sabermos onde fica o Lesoto.

Afixado por: Andreia Cunha em junho 1, 2004 12:27 PM

O Lesoto é uma espécie de país-enclave, de reduzidas dimensões, no interior da África do Sul (à semelhança da Suazilândia). A capital do Lesoto é Maseru.

Afixado por: gustavosampaio em junho 1, 2004 04:17 PM

Quanto à citação "o melhor espectador do mundo não pode interpretar senão aquilo que recebe", respondo com uma outra citação, de Noam Chomsky: "informar-se cansa".

Afixado por: gustavosampaio em junho 1, 2004 04:18 PM

Curioso... Peguei exactamente no mesmo trecho de Mário Mesquita como ponto de partida para uma entrada sobre blogs e censura, disponível em http://reciclemos.weblog.com.pt/arquivo/114939.html.

Afixado por: Luís Humberto Teixeira em junho 1, 2004 05:44 PM