
1. a um nível mais pessoal, sublinho, julgo que o Presidente da República, Jorge Sampaio, foi um cobarde ao tomar a decisão de não convocar eleições antecipadas; como um fraco, escolheu a opção que lhe garantia a menor contestação possível, relegando para segundo plano os seus próprios princípios; ele sabe que a esquerda, a própria esquerda que o elegeu, não contestará tão fortemente esta decisão, mesmo tratando-se de uma traição, como o faria a direita, caso ele tivesse decidido dissolver o Parlamento; assim, beneficiou os intentos da direita, do poder, e conta utilizar a sua familiaridade para com a esquerda de forma a suster eventuais contingências;
2. ironicamente, no contexto da sua cobardia pessoal, Jorge Sampaio acabou por tomar uma decisão corajosa, uma vez que é contrária ao desejo da maioria dos portugueses, que de acordo com as mais recentes sondagens pretendia eleições antecipadas; no próprio Conselho de Estado reunido no dia da decisão, onde existe um certo equilíbrio de forças entre a esquerda e a direita, a opinião maioritária pendia para a convocação de eleições antecipadas;
3. compreendo hoje melhor a irritação de Jorge Sampaio no momento em que Durão Barroso deu a entender à comunicação social que tinha a garantia do Presidente da República de que o Parlamento não seria dissolvido; compreendo hoje melhor a segurança revelada pelos dirigentes do PSD e do CDS-PP ao longo de todo este processo; tenho o pressentimento de que a decisão já estava tomada à partida, que Durão Barroso só aceitou o convite para presidir à Comissão Europeia depois de estabelecer um acordo com Jorge Sampaio sobre a continuidade de um Governo de direita;
4. o principal argumento utilizado por Jorge Sampaio para justificar a sua decisão foi a preservação da estabilidade do país; a palavra “estabilidade” foi recorrentemente utilizada ao longo deste processo, como uma espécie de identidade abstracta, uma verdade absoluta, dogmática, mas ninguém foi capaz de a explicitar pragmaticamente; podemos facilmente estabelecer um paralelismo com os mitos da “competitividade” e da “produtividade”, do sistema económico ultraliberal, abordados por Viviane Forrester em “Uma Estranha Ditadura”;
5. pergunto se a dita “estabilidade” do país estará assegurada com um Governo liderado por Pedro Santana Lopes e Paulo Portas, dois políticos paradigmáticos da corrente mais populista e demagógica da política portuguesa; um Governo que foi estrondosamente derrotado nas últimas Eleições Europeias, o pior resultado eleitoral da direita desde o 25 de Abril de 1974; um Governo baseado numa Coligação partidária em ruptura, como se denotou nas reacções dos dois partidos, PSD e CDS-PP, aos desastrosos resultados das Eleições Europeias;
6. a decisão de Jorge Sampaio baseou-se igualmente na garantia de que as políticas essenciais do Governo liderado por Durão Barroso serão prosseguidas pelo novo Governo liderado por Pedro Santana Lopes; as mesmas políticas que foram rejeitadas pela maioria dos portugueses nas últimas Eleições Europeias e nas sucessivas sondagens de opinião; as mesmas políticas que eu, na minha perspectiva, considero erradas e nocivas para o país; o novo Governo estará limitado a esta obrigação, uma obrigação perversa de dar seguimento a políticas erradas, mesmo que discorde delas;
7. o ponto anterior não passa, contudo, de uma mera fundamentação académica, não só porque o que eu considero errado será provavelmente considerado acertado por parte do novo Governo liderado por Pedro Santana Lopes; mas também porque Jorge Sampaio já provou ser um Presidente fraco e, como tal, mesmo que Pedro Santana Lopes o desautorize optando por empreender políticas completamente distintas relativamente ao Governo anterior, temo que Jorge Sampaio não seja capaz de o impedir, em nome da “estabilidade” do país;
8. tanto o PSD como o CDS-PP demonstraram estar profundamente apegados ao poder, aos seus próprios interesses instalados; ambos demonstraram ter um enorme receio de ir a eleições neste momento, apesar do “bluff” de referirem que “provavelmente voltariam a ganhar”; ambos têm a noção de que, nesta altura, seriam estrondosamente derrotados nas urnas, na mesma linha das últimas Eleições Europeias; uma derrota provavelmente agravada por uma saída bastante duvidosa de Durão Barroso, na minha opinião mais motivada por interesses pessoais do que propriamente por desígnio nacional;
9. assim que surgiram os primeiros rumores de que Durão Barroso iria assumir a Presidência da Comissão Europeia e que era Pedro Santana Lopes quem lhe iria suceder na liderança do PSD e, consequentemente, do Governo nacional, apareceram de imediato os “amigos do costume”; os fiéis “amigos” de Pedro Santana Lopes que esperam agora beneficiar da sua repentina subida ao poder; refiro-me a personalidades tão duvidosas quanto as de Luís Filipe Menezes e Alberto João Jardim;
10. o futuro primeiro-ministro de Portugal, Pedro Santana Lopes, foi designado de forma dinástica por uma cúpula de dirigentes do PSD; não foi nomeado por um programa político, ou por um conjunto de princípios, mas tão somente por ser o vice-presidente do partido no momento em que Durão Barroso abandonou o cargo; mesmo no interior do próprio PSD não existe um consenso relativamente a Pedro Santana Lopes; diversos ministros do anterior Governo recusam-se a trabalhar com ele e figuras preponderantes do PSD, como Marques Mendes e Manuela Ferreira Leite, não se coibiram de o criticar publicamente, mesmo neste período tão delicado da vida do partido;
11. agora que o “fantasma” do “caso Moderna” se começa a dissipar definitivamente, Paulo Portas está pronto para assumir um maior protagonismo, contando com a característica fraca memória das pessoas; já não se contenta com o Ministério da Defesa, onde não consegue obter a visibilidade ambicionada, pelo que se começa a movimentar de forma a assumir uma nova pasta, nomeadamente a dos Negócios Estrangeiros; pressinto que vai ter mais poder e influência com Pedro Santana Lopes do que tinha com Durão Barroso;
12. o percurso errante de Pedro Santana Lopes conhece agora um novo episódio; a Câmara Municipal de Lisboa, para a qual foi democraticamente eleito, tendo ironicamente concorrido na altura contra Paulo Portas com quem agora partilhará a liderança do Governo nacional, foi abandonada; já se sabia que Lisboa constituía apenas um degrau na forçosa subida de Pedro Santana Lopes ao poder, a um poder maior, fosse em Belém ou em S.Bento; o mesmo já tinha sido feito anteriormente pelo actual grande arauto da “estabilidade”, Jorge Sampaio, o qual se candidatou a Presidente da República a meio do seu mandato na Câmara de Lisboa, sendo então sucedido por João Soares;
13. deve ser em nome dessa mesma “estabilidade” que Carmona Rodrigues, antigo vereador da Câmara de Lisboa que abandonou o cargo para integrar o Governo liderado por Durão Barroso, deverá agora regressar à Câmara Municipal, para suceder a Pedro Santana Lopes como Presidente da edilidade; na Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia também já se iniciaram as movimentações para a sucessão de Luís Filipe Menezes, um dos “amigos” de Pedro Santana Lopes com lugar reservado na restrita esfera do poder.
Publicado por gustavosampaio em julho 11, 2004 05:34 AMPor acaso acho que foi a decisão mais difícil para Jorge Sampaio, não a mais fácil. Se tivesse escolhido as eleições, seria contestado fortemente pela direita mas seria por pouco tempo. Se a direita ganhasse calar-se-ia, se perdesse faria o mesmo porque estaria ocupada nas suas lutas internas. Com esta decisão Sampaio escolheu a via que lhe vai provocar mais sacrifícios. Suicidou-se politicamente e sabe isso. Terá inclusivamente alienado amigos pessoais. Dizer-se que esta foi a decisão mais fácil para ele é não analisar bem a situação.
Creio que ele acabará sozinho, esquecido pela maioria e com desejos de ser esquecido pelos outros. Mas isso não invalida que ele tenha tomado a decisão mais difícil da política portuguesa dos últimos 20 anos. E fê-lo para responder a uma crise que não foi ele a criar. Querem um culpado? Apontem baterias a Durão Barroso, não a quem fez aquilo para que foi eleito.
Afixado por: João André em julho 11, 2004 10:53 PMem cheio. excelente.
Afixado por: jose antónio em julho 11, 2004 11:10 PMCoitado...agora que terminou o Euro resolvem todos "bater" no presidente...
Afixado por: Blueshell em julho 12, 2004 12:03 AMPorra, tinham de ser logo treze??? Azarento...
Pois acho que tens razão...mas prontossss...
não culpabilizei Jorge Sampaio relativamente à crise política que se instalou no país... apenas considerei a sua opção, e reafirmo a minha convicção, de não dissolver o Parlamento como uma demonstração da mais pura cobardia pessoal... e toda aquela retórica ilusória de "vigiar" o novo Governo não passa de um logro, pois Jorge Sampaio perde a capacidade de dissolver o Parlamento a 6 meses do termo do seu mandato, pelo que a partir de então Pedro Santana Lopes terá a liberdade de fazer o que bem entender... não foi Jorge Sampaio quem originou a presente crise política, mas foi ele quem a agudizou... foi ele que deu cobertura a uma nomeação dinástica, por uma cúpula de dirigentes do PSD, do próximo primeiro-ministro de Portugal... foi ele que impediu os portugueses de escolherem democraticamente o seu destino... e será responsabilizado por este acto infame, obviamente...
Afixado por: gustavosampaio em julho 12, 2004 12:10 AMConcordo que devemos carregar e direcionar baterias o mais depressa possível, não na luta contra Durão Barroso, mas contra a sua descendência na linha real, Pedro Santana Lopes.
O país real (o de todos nós, não o do feudo da descendência monárquica PSD) continua, há que continuar com as posições e formas políticas de acção que cada um encontrar, sendo claro que seguramente estas se terão que radicalizar, tal como se radicalizará a própria acção governativa com PSL, chegada à direita e recheada de populismo.
Não concordo, no entanto, que se deva simplificar a responsabilidade da decisão de Sampaio ao dizer que se limitou a fazer aquilo para que foi eleito. Qualquer governante faz aquilo para que é eleito: dirigir, decidir, escolher, desenvolver, seja o que for. Isso é por si só vazio e não pode ser argumento contra a critica sobre a forma e conteúdo da política feita.
Trocado por miúdos, Sampaio estava no seu direito de decidir seja o que for (ainda para mais numa escolha política extremamente individual), não está de forma nenhuma isento das consquências da sua decisão sobre a política nacional e sobre a sua própria carreira pólítica (fosse qual fosse o que ele ainda esperase conseguir).
não faz sentido a ideia que Sampaio fez passar do seu estatuto de vigia permanente das políticas do Governo: se este quiser mudar os seus objectivos e propósitos no dia a seguir a ser eleito é um aopção sua. Não seria a 1ª vez que um governo é acusado de não fazer o que promete.
Mas de certeza não será Sampaio a ter nem a capacidade politica depois da situação fragilizada com que sai desta questão, nem a capacidade legal para o concretizar.
O mais que poderia fazer era dar dores de cabeça ao Governo através de vetos e de uma análise politica contrária às questões. Não o tendo feito nestes dois anos, dificilmente o fará agora.
Afixado por: david avila em julho 12, 2004 12:20 AMuma das manchetes do jornal "Público" de Domingo: "PSD desvaloriza avisos de Sampaio". Mais: "Os sociais-democratas não estão preocupados com os avisos de vigilância feitos por Jorge Sampaio ao Governo de Santana Lopes". (...) "E que tudo não passa de uma 'figura de retórica' para tentar contentar o PS"...
Afixado por: gustavosampaio em julho 12, 2004 02:37 AMPenso que Jorge Sampaio fez um favor a um certo PS. Ao PS "terceira via", guterrista, "moderado", market-friendly que estava incomodado com a liderança "esquerdista" de Ferro Rodrigues. O que é irónico é que seja Sampaio, ex MES e conotado com o PS de esquerda que volta e meia tirava uma das páginas do socialismo enfiado na gaveta, a destruir esta direcção. E Ferro Rodrigues sai porque já queria sair há muito tempo, porque não o fez depois das Europeias, porque está desgastado com os ataques que foram movidos contra ele ao longo destes dois anos e porque sem eleições antecipadas, as freguesias guterristas estariam a preparar um ataque forte no próximo congresso. Agora já não têm o empecilho de Ferro, um líder que conseguiu um resultado histórico nas Europeias. Agora vamos ter Vitorino, Sócrates ou Coelho. Gente que pode recentrar o PS, como partido com um discurso inócuo do ponto de vista ideológico. É o fim da história, ou ainda há muita história para contar?
P.S. Só um alerta. As expectativas criadas em volta de Santana são tão baixas que o homem ainda vai surpreender muita dona de casa, jovens e povão que é do chamado centrão e que decide sempre quem ganha as legislativas. Esperemos que não, que o Santana seja um troca tintas, que gaste e desgaste as contas públicas e que com Portas governe ainda mais à direita, ainda com mais arrogância e desprezo pelas classes trabalhadoras e classes médias em vias de proletarização.,Assim talvez a esquerda ou quem fala em nome dela volte ao poder.
Também eu estou indignado com o presidente Sampaio.
Se fosse ao contrário, um presidente de direita, jamais entregaria o poder, de mão beijada, à esquerda, como o fez Jorge Sampaio!
É a psicose da esquerda.
A direita não tem pudor, instalam-se e é um problema para os sacar do poder e agora com esta ajuda de Sampaio, é o fim.
Poderemos estar a caminhar para uma coisa muito feia!
Há coragem e dignidade em um homem-só. Na solidão há coragem e dignidade. Na solidão de Jorge Sampaio, confinada à esfera do seu poder pessoal, fica o essencial do que de mais pobre existe em termos de espírito e de vontade de viver: fica apenas, para Sampaio, a solidão ou o seu reduto de poder, sem coragem e sem dignidade algumas.
Afixado por: willnow em julho 12, 2004 02:41 PMSuprema ironia!
O político que mais discursa a favor da credibilização do sistema democrático dá-lhe a maior facada que há memória.
Eleito pela maioria de esquerda deixa passar o novo código do trabalho e agora entrega o poder a Santana Lopes,obscuro político sem carreira profissional que se especializou em declarações bombásticas para a comunicação social.
Populismo puro no poder sem idiologia defenida a não ser o culto do liberalismo económico.
Grandes desafios se colocam aos verdadeiros democratas.
Que ninguém se remeta ao silêncio.
QUEM CALA CONSENTE
Escrevo para haver treze comentários às Treze considerações.
Afixado por: Andreia em julho 12, 2004 07:28 PM1.Esta moça, a Andreia, tem mesmo muita piada. Que tal um fim de semana, para trocarmos umas ideias sobre a situação política...
2.O Luis Rebelo tem razão. Sampaio deu boas razões para uma cidadã - ou cidadão - decidir hoje deixar de vez de ligar à política e aos políticos. "Só querem é poleiro" já dizia a minha avó.
3. Se o Freitas se candidatar vou pôr pendões. E olhem que só conheço 2 pessoas que me levam a melhor nessa merda... Old school...
Afixado por: Bernardino em julho 12, 2004 07:41 PMApesar de esperada, a decisão foi uma marretada. E lá se foi o respeito pelo Sampaio ... Porque isto de transformar uma pop star em um 1.º MIRNistro é mesmo muito grave.
Afixado por: António Augusto em julho 14, 2004 03:41 AM