
Excertos de "Marcos, A Dignidade Rebelde", entrevista de Ignacio Ramonet ao 'subcomandante' Marcos, chefe do Exército Zapatista de Libertação Nacional, do México.
«Com a queda do muro de Berlim em 1989 e o desaparecimento da União Soviética em 1991, acabou o antigo mundo bipolar e o poder deslocou-se novamente. Deixou de ser uma potência imperialista, no sentido clássico do termo, que domina o resto do mundo, para ser um novo poder, extranacional, do capital financeiro que se impôs.
Este novo superpoder não cessa de se desenvolver, estimulado pelas políticas neoliberais. Os grandes vencedores da Guerra Fria - conflito que se pode designar por "terceira guerra mundial" - são os Estados Unidos. Acima desta potência hegemónica começa a surgir o que se poderá designar por um superpoder financeiro que dá directivas a todo o mundo. Tal produz o que, em traços largos, chamamos globalização e que se fundamenta, do ponto de vista ideológico, filosófico e teórico, na doutrina do neoliberalismo.
À escala mundial a grande batalha que se trava actualmente - e que se poderá chamar, efectivamente, a "quarta guerra mundial" - opõe os adeptos da globalização a todos os que, de uma maneira ou de outra, se lhe opõem. Todos os obstáculos e resistências que impeçam a globalização de se expandir estão, a partir de agora, ameaçados de destruição.»
(...)
«O principal inimigo da globalização é o Estado-nação. E, designadamente, todas as decisões do Estado-nação que possam criar obstáculos ou barreiras impedindo a livre circulação do dinheiro. Não estou a falar apenas nos direitos alfandegários, mas em medidas que limitem os fluxos financeiros, como o controlo de divisas ou as medidas de carácter proteccionista para preservar a indústria e as empresas nacionais. O inimigo principal da globalização é tudo o que impede os capitais de circularem sem entraves, de proliferarem e de atingirem o seu próprio ideal.»
(...)
«O ideal da globalização é um mundo transformado numa grande empresa e gerida por um conselho de administração constituído pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), o Banco Mundial, a OCDE (Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico), a OMC (Organização Mundial do Comércio) e o Presidente dos Estados Unidos. Neste contexto, os governantes de cada Estado serão apenas representantes do conselho de administração, uma espécie de gerentes locais. Não defendem os interesses dos cidadãos, mas os interesses e valores deste conselho de administração mundial. É o que definiu no "Monde Diplomatique" e no seu livro "Geopolítica do Caos", como o "pensamento único", encarregado de fornecer o elo ideológico para convencer os cidadãos, com a ajuda dos "media", de que a globalização é irremediável, benéfica mesmo, e que qualquer outro propósito seria, não só uma quimera utópica e irrealista mas, sobretudo, terrivelmente perigosa.»
Publicado por gustavosampaio em setembro 8, 2004 01:44 PMA afirmação de Marcos "O principal inimigo da globalização é o Estado-nação" é realmente verdade. Aliás, generalizando, o principal inimigo da globalização são todos os movimentos identitários, todas as comunidades que resistem contra o infraquecimento da sua coesão interna. Essas comunidades podem ter como cimento aglutinador a geografia, a etnicidade, a cultura, a religião, um conjunto de valores comuns. Para o mercado interessa que o seu público alvo seja o mais homogénio possível, pois isso torna-o mais previsível, controlável, e menos capaz de se opôr a medidas que contrariem a sede de lucro das empresas. Aliás, os (verdadeiros) neoliberais, no seu extremo anarco-capitalistas, são de um individualismo extremo mesmo no que se refere a questões sociais (sendo por exemplo pró-ivg e legalização de drogas). A razão porque esta Direita neoliberal não é muito vocal nestas questões é porque eles precisam da Direita conservadora para obter o poder.
Dito isto, e apesar de os movimentos de cariz comunitário serem os mais fortes opositores da globalização neoliberal, não quer dizer que quem seja contra esta globalização neoliberal deva apoiar esses movimentos comunitários. Muitos deles são extremamente reacionários (no extremo, a Al-Qaeda é um caso), perconizando o esmagamento da liberdade pessoal em nome da coesão da sua comunidade. A construção de uma alter-globalização tem de se basear no respeito estrito pelas liberdades pessoais e na criação de comunidades abertas, plurais, solidárias, democracias participativas criadas com base no consenso e no diálogo. A guerra pelo poder entre os neoliberais e todos os movimentos comunitários de cariz reacionário (alguns apelando ao estado-nação) não tem a ver connosco, e devemos sempre relembrar que existe a "nossa alternativa" em contraponto àquelas que os media tanto gostam de mostrar como as únicas existentes.
Afixado por: viana em setembro 8, 2004 03:27 PMIsto vêm onde?
No Monde Diplomatique deste mêS?
Mas na versão portuguesa?
É que gostava de ler na íntegra.
Abraços
livro da "campo da comunicação", editado em 2001...
Afixado por: gustavosampaio em setembro 9, 2004 12:30 PM