setembro 08, 2004

Compreender antes de agitar (I)

CHECHENIA.jpg

Um artigo brilhante, pleno de lucidez, de Teresa de Sousa, publicado na edição de ontem do jornal "Público".

«O Medo e a 'Realpolitik'»

«1.'Mãe, eles não nos vão matar, pois não?'. O menino morreu. A mãe sobreviveu para viver e testemunhar a mais terrível das dores, que os terroristas de Beslan multiplicaram por mil, numa orgia de ódio e de violência que nunca conseguiremos explicar ou entender. É este o nosso mundo. Foi o maior atentado desde o 11 de Setembro. Nas margens da Europa, onde a Europa é mais vulnerável. Nas margens da democracia, onde a democracia é cada vez mais frágil. O novo terrorismo global só tem espaço para a violência cega, a mais incompreensível e inaceitável das violências. Não tem espaço para a negociação. Provavelmente, o sequestro da escola de Beslan terminaria com sangue, fossem quais fossem as circunstâncias. Mas, mesmo antes que o turbilhão de acontecimentos lançasse o caos e espalhasse a morte em Beslan, já toda a gente previa um banho de sangue. É esse o padrão de comportamento do regime russo de Putin. O Kremlin lida com o terrorismo controlando a informação e recorrendo à força bruta. Desde o 11 de Setembro, conta com a solidariedade incondicional das democracias ocidentais, que rapidamente esqueceram as causas mais profundas que alimentam o terrorismo tchetcheno.

Podem as democracias limitar-se à solidariedade? Estamos condenados a aceitar a força como o único instrumento e a única solução para combater o terrorismo? Fazendo tábua rasa das causas, aceitando todos os métodos, apoiando todos os regimes?

Poder-se-ia imaginar o que se passou em Beslan numa escola de Paris? São perguntas que nos deixam perplexos mas também que nos obrigam à racionalidade.

2. O massacre insuportável de Beslan é igual ao 11 de Setembro pela dimensão da matança e pela lógica do mal absoluto que comanda os terroristas. Putin foi, no entanto, mais longe, apressando-se a apontar o dedo à Al-Qaeda. Mas a última vaga de terror na Rússia tem provavelmente muito menos a ver com Bin Laden do que a desastrosa política de Moscovo na Tchetchénia.

Em 1999, quando chegou ao poder, o Presidente russo comprometeu-se a resolver o conflito tchetcheno. Fê-lo de três maneiras: enviando de novo o exército russo para reprimir a revolta pela força; recusando qualquer diálogo com vista a uma solução negociada, mesmo com as forças mais moderadas do separatismo tchetcheno, e criando um governo-fantoche na república rebelde; pensando que podia controlar e silenciar a comunicação social. As "viúvas negras" que espalham o terror em Beslan, nas ruas de Moscovo ou nos aviões da Aeroflot são o resultado directo desta política e a expressão do seu total fracasso.

O Kremlin pôde controlar a televisão durante algum tempo, pôde ameaçar jornalistas, mas não pode tudo todo o tempo na era da internet e da globalização da informação. Hoje, Putin encabeça um regime cada vez mais autoritário e a Rússia está, no entanto, mais frágil e mais vulnerável do que nunca. Uma solução política para o conflito tchetcheno, que teria sido possível há alguns anos, é hoje uma simples miragem.

As democracias ocidentais podem ignorar tudo isto em nome do combate ao terrorismo global?

3. Pouco antes do massacre de Beslan e um dia depois das eleições do novo presidente-fantoche na Tchetchénia, os líderes da França e da Alemanha, Jacques Chirac e Gerhard Schroeder, de visita a Putin na estância de veraneio de Sotchi, não hesitaram em manifestar-lhe o seu apoio total perante a vaga de atentados que assolava Moscovo

'Na Tchetchénia, uma solução política é essencial', disse o Presidente Chirac, ao lado do seu amigo Putin, parceiro inestimável da 'frente da paz' contra a guerra americana no Iraque. Para acrescentar de imediato: "É por isso que a Rússia está a lutar e que está - disse-o claramente - completamente aberta a qualquer discussão sobre uma solução política".

George W. Bush, que fez do medo ao terror o grande trunfo para a sua reeleição, também não regateia ao seu homólogo russo um apoio "de qualquer espécie e em todas as circunstâncias".

A presidência holandesa da União Europeia viu-se obrigada a meter os pés pelas mãos, depois de ter descoberto até que ponto estava isolada, quando se lembrou, com todo o direito e toda a legitimidade, de pedir a Moscovo algumas explicações sobre o que se passou na escola de Beslan. "Infâmia", gritou o Kremlin. Silêncio, gritaram os líderes das principais potências europeias, amigos de Putin em todas as horas mesmo que críticos virulentos de Bush em certas horas.

Em que mundo vivemos? Certamente e cada vez mais na "república do medo". Que há-de garantir provavelmente mais quatro anos de Casa Branca a George W. Bush, mau grado o fracasso do Iraque, que é hoje, como a Tchetchénia, um alfobre de terroristas. Que coloca "Chirac contra Chirac", como escrevia o "Monde" em recente editorial, denunciando a esquizofrenia da diplomacia francesa - um dia disposta a negociar por todos os meios e vias possíveis a vida de dois jornalistas franceses reféns de um grupo terrorista no Iraque, no outro abençoando os métodos brutais de Putin na Tchetchénia e em Beslan.

Chirac, como escreve o "Monde", não hesitou em denunciar o aventureirismo americano no Iraque. Não diz nada sobre a brutalidade russa na Tchetchénia. Como se o facto de Putin intervir no que considera a sua "zona de soberania" justificasse o seu sinistro desprezo pela vida humana.

Entre a defesa dos seus belos princípios democráticos e a gelada "realpolitik", as democracias arriscam-se a perder a alma e a racionalidade.

4. Não há bom nem mau terrorismo, nem há justificação para ele em nenhuma circunstância. Mas não querer olhar as suas causas é condenarmo-nos a ficar à sua mercê. É preciso libertarmo-nos da retórica da "guerra ao terror" de George W. Bush ou da fria "realpolitik" de Jacques Chirac. É preciso examinar tanto as causas como os efeitos do terror global. Perceber que isso não é desculpá-lo mas um passo fundamental para combatê-lo. O caminho errado é aceitar tudo em nome desse combate.

"A vitória [sobre o terrorismo] dependerá do valor, da decisão e do empenho em defendermos aquilo que é valioso para nós e os EUA fazem bem em recordá-lo", escrevia há dias no "Guardian" o historiador britânico Timothy Garton-Ash, a propósito da importância para o mundo da vitória de John Kerry em Novembro. E acrescentava: "Isso dependerá de serviços secretos eficientes e de duro trabalho policial. Mas sobretudo, de que se enfrentem as causas políticas e económicas do terrorismo, para poder secar os pântanos em que se criam os mosquitos da Al-Qaeda." E também da nossa capacidade em mostrar as vantagens das nossa sociedades livres. No Iraque como na Tchetchénia.»

Publicado por gustavosampaio em setembro 8, 2004 02:33 PM
Comentários

Na escola Ossétia do Norte


Na escola (qual é o seu nome? Ossétia do Norte?) ainda ecoam os nossos mortos, crianças sem nome e sem futuro.

Salvem, para nossa esperança, algum sorriso!

(Amanhã iremos à procura destes filhos perdidos).

As bestas terroristas exigiram uma greve da fome aos familiares das crianças-reféns, pela independênca chechena. Mas qual independência? Estas bestas não têm causas, apenas desespero. Desespero? Obedecem cegamente a uma ordem soberana ditada por algum chefe idiota, demonstram estratégia e uma cadeia hierárquica de acção. São criminosos comuns e assim devem ser considerados. Organizações responsáveis do mundo islâmico ou de uma qualquer organização de natureza religiosa, chefes separatistas e representantes de minorias devem clamar contra estas bestas do terror que invocam causas alheias. Estes terroristas pedem, conforme as ocasiões «idealistas», a independência desta ou daquela região, a alteração de leis sobre a ostentação de símbolos religiosos em França ou que um povo se manifeste em relação a isto ou aquilo. Julgam transferir, para o exterior do seu pequeno grupo, a obediência cega que os une num propósito de morte. Nem reflectem que, pelo menos, entre o interior do seu grupo de terror e o exterior há uma mudança assinalável de escala, de diversidade ideológica, social, e de massa crítica (para além da incomensurável diferença de liberdade e de azáfama humanas entre a gente comum, vítima de todos os fanatismos e poderes, e esta escumalha fardada do terror).

Se continuar a escrever transformo-me num monstro igual. Sem remorso mataria estas bestas encapotadas, esmigalhava estes cérebros onde a merda fede e seguiria adiante como se tivesse dado, simplesmente, uma sapatada num insecto.

De qualquer modo, não podemos ignorar que o mundo se tornou mais inseguro e o carácter global e errático do terror traz de volta esse grito fascista da grande besta de sangue: «viva a morte!».

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«Vem, Mão de Lume!

Estoira os vidros da janela,

agarra-me pelos cabelos

e deixa-me sozinho,

ah!, e deixa-me sozinho e nu aos gritos pela rua,

a pedir às estrelas

que me vistam de fogo».

(JOSÉ GOMES FERREIRA)

Afixado por: willnow em setembro 8, 2004 03:08 PM

Caro "willnow"
É compreensivel toda a revolta que esta situação levanta mas se queremos que não se repita devemos também tentar compreende-la.
Foi sem dúvida um acto criminoso mas perante isso não chega dizer que são "criminosos comuns e assim devem ser tratados", dirigindo-lhes toda a nossa revolta/agressividade. Não se trata obviamente de desculpabilizar ninguém, mas esses criminosos (como outros) são também "produto" da sociedade repressiva e militarista em que cada vez mais vivemos e é também isso que temos que inverter!
Depois dos horrores que vimos é concerteza dificil mas também necessário tentar compreender o que levou aqueles homens a chegar aquele ponto.

Quanto ao post considero-o bastante interessante e deve merecer a nossa reflexão e discussão.
Júlio Santos

Afixado por: Júlio Santos em setembro 8, 2004 03:39 PM

... ainda tentando compreender (não confundir com justificar!!) a "perda de humanidade" por parte dos terroristas...
Que dizer de uma mãe de um jovem árabe que aceita o eventual sacrificio do seu filho como mártire, ou de uma mãe judia que decide viver numa zona de conflito sabendo que com isso coloca em risco a vida dos seus filhos, "apenas" pela força do ódio que sente e fanatismo religioso...
Há muitos actos incompreensiveis e serão sempre assim enquanto não compreendermos as vidas que os antecedem...

Afixado por: Júlio Santos em setembro 8, 2004 03:50 PM

toda esta procura das razões estruturais, como se elas fossem 'exteriores' aos indivíduos, é muito bonita e fica bem ao raciocínio sobre a hiper-modernidade que vivemos. Mas (ainda) acredito em valores universais, que trespassam culturas e clãs familiares: agarrem é num filhinho de terrorista e sequestrem-no ou façam degolar uma esposa de um terrorista (querem crer que ele não achava graça alguma e não via justificação nisso?). Mas eu teria uma 'justificação': é que esses sequestrados ou degolados pertenceriam a um 'povo' diferente, a uma religião diferente e eram, por isso, inimigos da minha 'grande causa'. Vamos lá ver: as justificações para o crime podem residir mais na sociedade (logo, o criminoso segue 'impulsos' ditados estruturalmente por desigualdades sociais e combater o crime é combater as desigualdades) ou no indivíduo (e aqui entram as visões totalitárias da psicologia e da biologia). Mas como qualquer sociedade assenta na diferenciação e na estratificação de estatutos, a solução 'estrutural' não é solução. Também a psicologia e a biologia nunca poderão anular a liberdade de acção humana. De qualquer maneira, a solução fácil parece ser de ordem securitária: 'de que liberdade estamos dispostos a abdicar para conseguir maior segurança?'. E, assim, seremos filmados dezenas de vezes diariamente, o nosso ADN registado à nascença, as mobilidades registadas como todas as regularidades comportamentais da nossa dimensão espaço-tempo, como os livros que encomendamos ou compramos, os artigos que escrevemos e a música que ouvimos.

Afixado por: willnow em setembro 8, 2004 05:45 PM