
Excertos de "Marcos, A Dignidade Rebelde", entrevista de Ignacio Ramonet ao 'subcomandante' Marcos, chefe do Exército Zapatista de Libertação Nacional, do México.
«Acompanhamos com grande esperança, o que se passa actualmente. Depois do marasmo, temporário, das forças progressistas mundiais, que se sucedeu à queda do muro de Berlim em 1989 e, depois do domínio do grande poder financeiro, nota-se agora uma espécie de longo despertar colectivo. Sem dúvida que contribuímos para esse despertar geral e que, ao mesmo tempo, nos surpreendeu. Circunstâncias fortuitas, ou não, apresentaram-nos como o início de qualquer coisa. Mas achamos que o início ainda está por construir e tem, sobretudo, a ver com Seattle, com o Fórum Social Mundial de Porto Alegre e com as várias iniciativas de resistência na Europa, na Ásia, em África, etc.
Tudo isto oferece uma alternativa a outra resistência que irá surgir. Uma resistência do tipo fundamentalista, religiosa ou ultranacionalista. Estas resistências também se opõem à mundialização, mas inspiram-se em bases étnicas, culturais, linguísticas ou religiosas. Este tipo de fundamentalismo pretende também construir um mundo, mas composto por pequenas ilhas, um arquipélago, onde cada senhor local seja um cacique, o rei de tudo. Refiro-me concretamente aos movimentos fundamentalistas religiosos que anteriormente estavam confinados à Ásia, ao Próximo Oriente e agora se estendem à Europa e aos Estados Unidos. Nestes movimentos há ultranacionalistas fanáticos, capazes de cometer atentados em nome dos seus valores, que propõem uma resposta absurda, dogmática e irracional à globalização. Dizem estes fanáticos que aqui, nesta pequena ilha do arquipélago mundial, só podem viver os que são como eu. Este 'que são como eu' significa muitas coisas, não se trata apenas de uma alusão aos traços físicos, inalteráveis, como a cor da pele, dos olhos ou dos cabelos, mas também à origem étnica, linguística, religiosa, etc. Este dogmatismo religioso ou nacionalista tem, por vezes, a pretensão de ser uma forma de resistência à globalização, mas, na realidade, trata-se apenas de uma manifestação de intolerância, de obscurantismo e de sectarismo.»
Publicado por gustavosampaio em setembro 8, 2004 06:26 PM'Intolerância, obscurantismo e sectarismo' [sobre o dogmatismo religioso, bem como sobre as reivindicações de base étnica ou ultra-nacionalista com o objectivo de territorializar o poder de um grupo e de uma uniformidade cultural]. O Sub-Comandante Marcos (anteriormente, já o tinha utilizado para as minhas aulas sobre globalização e desenvolvimento) continua a surpreender por uma coerência que se mantém lúcida e atenta aos novos fenómenos do terror.
Afixado por: willnow em setembro 9, 2004 03:12 PM