
Excertos de "Marcos, A Dignidade Rebelde", entrevista de Ignacio Ramonet ao 'subcomandante' Marcos, chefe do Exército Zapatista de Libertação Nacional, do México.
«E o que é que pensa de um iniciativa como a Taxa Tobin?»
«É muito importante. Trata-se de outro tipo de resistência à globalização. Consiste em levantar barreiras para impedir a expansão da globalização de maneira a favorecer a reconstrução do colectivo e de um Estado mais solidário. É por isso que seguimos com muito interesse a iniciativa lançada pelo 'Le Monde Diplomatique' a favor da Taxa Tobin, sobretudo, defendida por uma organização como a ATTAC (Associação para a Tributação das Transacções Financeiras para Ajuda aos Cidadãos). Esta reivindicação está no cerne da questão. A lógica de uma Taxa Tobin, que seria exigida em cada transacção financeira, ataca a especulação financeira e atinge o centro do mecanismo da globalização. E, por ricochete, a TAxa Tobin atinge o centro do poder mundial contemporâneo, ou seja, o poder financeiro. O centro do poder mundial já não está na Casa Branca, em Washington, nem na sede da União Europeia, em Bruxelas. O verdadeiro poder está na posse do capital financeiro. Opor-se-lhe, como o fazem a Taxa Tobin e a organização ATTAC, é opor-se à pilhagem do mundo. Uma pilhagem a que nós, indígenas, estamos sujeitos no México, desde a conquista, em 1492, há mais de quinhentos anos. O mundo conhece hoje uma pilhagem semelhante por causa da globalização, pois significa a privatização de tudo o que é público e colectivo, assim como a privatização de bens comuns, como o saber e os conhecimentos. Esta privatização ameaça mesmo o futuro da humanidade desde a descodificação do genoma humano. Caminhamos para uma privatização da vida. Privatiza-se não só o que o mundo é actualmente, mas também o que poderá ser no futuro.»