setembro 08, 2004

Compreender antes de agitar (II)

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Excertos de artigo de José Milhazes, publicado na edição de hoje do jornal "Público".

«Ossétia do Norte»

«Formada em 1922 como República Autónoma Soviética Socialista, passou a 1991 a República da Ossétia do Norte-Alánia. Com uma área de oito mil quilómetros quadrados e uma população de 634 mil pessoas, é uma das pobres zonas da Federação da Rússia. Descendentes dos alanos - que também chegaram a Portugal no século IV e criaram aqui um reino, juntamente com vândalos e suevos -, os ossetas são o único povo cristão no Cáucaso russo. Divididos entre a Rússia e a Geórgia, os ossetas enfrentam graves problemas políticos. Na Ossétia do Sul, a máfia instalada no poder desfralda a bandeira da independência para não ceder os seus privilégios a Tbiliss, que tenta pôr ordem em casa. No Norte, os ossetas viram-se envolvidos num conflito que se alastra a toda a região e com condições imprevisíveis. Investigadores como Thomas de Waal, do Institute for War and Peace Reporting, em Londres (www.iwpr.net), crêem que a Ossétia do Norte foi agora atingida devido à sua tradicional lealdade a Moscovo. Uma lealdade que o drama de Beslan pode vir a pôr em causa. O facto de o Presidente Vladimir Putin não ter falado directamente com os familiares da escola ocupada por terroristas ter-se-á devido à revolta popular pelo modo como o Kremlin tratou este caso. Mais preocupante, segundo Waal, é a ameaça que paira sobre as relações entre ossetas e inguches. Os dois vizinhos estão envolvidos num conflito desde 1944 quando os inguches deportados por Estaline regressaram e começaram a reclamar a propriedade da pequena região de Prigorodni que antes lhes pertencia e foi transferida para a Ossétia do Norte. Em 1992, ambas as partes travaram uma breve mas suja guerra que resultou em 600 mortos. Desde então, os inguches têm vindo gradualmente a retornar a Prigorodni e as duas comunidades começavam a viver pacificamente. Agora, se for comprovada a participação de inguches no massacre de Beslan, a perspectiva de uma retaliação dos ossetas não pode ser excluída.»

«Tchetchénia»

«A Tchetchénia é o principal foco de tensão no Cáucaso do Norte. Depois de se separar da Inguchétia em 1991, os seus dirigentes enveredaram pela via da proclamação da independência em relação à Rússia. Arkadi Volski, um político russo que participou nas conversações com os tchetchenos nessa altura, assegura que o seu presidente, Djokhar Dudaev, aceitaria ficar na Federação da Rússia com uma grande autonomia, mas este foi assassinado por um míssil russo. Zona rica em petróleo e ponto nevrálgico de passagem de oleodutos entre os mares Cáspio e Negro, Moscovo trava na Tchetchénia, há mais de dez anos, uma guerra que já provocou centenas de milhars de mortos, feridos e refugiados. Não obstante o Kremlin ter anunciado várias vezes a derrota do separatismo armado e ter "oferecido" uma Constituição e presidentes aos tchetchenos, a guerrilha circula bem e ataca não só alvos na Tchetchénia, mas em território russo. Isto deve-se não só a uma gigantesca corrupção no aparelho policial e militar, mas também ao facto de os guerrilheiros gozarem de alguma simpatia entre a população local. O recém-eleito presidente pró-russo Alu Alkhanov, que substituiu o assassinado Akhmad Kadirov, prometeu paz e segurança se Moscovo deixar na Tchetchénia os lucros obtidos com o petróleo tchetcheno. A república está completamente em ruínas. Se o Kremlin, quiser ganhar o apoio da população local, deve pôr fim às actividades dos esquadrões da morte, garantir a segurança dos cidadãos e criar emprego para a população que está praticamente toda no desemprego. A aposta unicamente militar, advertem vários especialistas, apenas extrema o conflito.»

Versão integral.

Publicado por gustavosampaio em setembro 8, 2004 06:59 PM
Comentários

Fiz asneira....agitei! Abraço, WB

Afixado por: whiteball em setembro 8, 2004 08:05 PM

Ah, agora percebi algo sobre o conflito...
petróleo, oleodutos!
Tá tudo explicado, não é preciso dizer mais nada!
Deve ter estado no poder um regime execrável e o Putin quer reestablecer a soberania popular e a democracia.
É isto, não é ??????!!!!!!!

Afixado por: mfc em setembro 9, 2004 02:39 AM