setembro 19, 2004

O Iraque de hoje - após a intervenção "humanitária" dos EUA e respectivos aliados

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«Quando Começa a Guerra Civil?»

«As soluções militares falharam mas é nelas que se continua a apostar. O ciclo vicioso está instalado e já não há cenários optimistas que resistam

«O Presidente do governo interino iraquiano, Ghazi al-Yawer, defendeu há dias não haver qualquer possibilidade de o caos em que hoje se vive no Iraque desembocar em guerra civil. "A situação não é uma guerra entre facções", sustentou durante uma viagem a Bruxelas, onde foi pedir apoios para as eleições de Janeiro.

Terça-feira, Bagdad foi cenário do mais mortífero ataque em seis meses. Alvo: um centro de recruta das forças de segurança. A Guarda Nacional de Kirkuk e um liceu de Baquba estiveram entre os alvos de ontem. No terreno, escrevia esta semana o correspondente do diário britânico "The Guardian", a situação "começa a parecer e a ser sentida como uma guerra civil".

Entre os vários grupos responsáveis pelos vários níveis de violência que devastam o Iraque desde a invasão anglo-americana de Março do ano passado, existem estrangeiros e membros de organizações que terão laços a grupos terroristas internacionais. Existem mas não são a fatia significativa: a grande maioria dos que combatem as forças estrangeiras, colocam bombas em estradas e carros são, pelo que é possível apurar, iraquianos nacionalistas que advogam a oposição violenta contra a ocupação.

Os primeiros meses depois da queda de Saddam Hussein foram marcados por ataques às forças estrangeiras - principalmente americanas e concentrados nas zonas sunitas a oeste e norte de Bagdad - e, a partir de Julho, atentados (contra a embaixada da Jordânia, contra a ONU). Alguns ataques que pareceram visar representantes da comunidade xiita podem ter sido levados a cabo por estrangeiros, mas também é possível que tenham sido motivados pela luta de poder interna em curso na comunidade religiosa da maioria iraquiana.

Nos últimos meses de 2003 começaram a suceder-se os ataques contra iraquianos. Os grandes alvos eram, e ainda são, a polícia. Pelo menos cinco grandes ataques já visaram centros como o atingido pelo de terça-feira (mais de 50 mortos), em Bagdad, mas também em Baquba (sul) ou Kirkuk (norte).

Nos meses mais recentes, e especialmente desde a transferência formal de poderes dos americanos para as autoridades interinas, no fim de Junho, a resistência concentrou os seus esforços no assassínio de iraquianos que colaboram com a ocupação. Polícias, mas também tradutores ou políticos.

"Há um risco de uma situação como a da Somália. Cada partido político tem a sua própria milícia, o país está nas mãos de gangs", defendeu em declarações ao "Middle East Online" Hasni Abidi, analista argelino que acaba de regressar do Iraque, onde esteve numa missão do Centro de Estudo e Pesquisa para o Mundo Árabe e Mediterrâneo.

500 mortos em Setembro

Desde o início do mês já morreram quase 500 pessoas no país, perto de 100 entre sexta-feira e sábado. Segundo o primeiro-ministro, Iyad Allawi, os atentados dos últimos meses fizeram mais de três mil mortos e 12 mil feridos. Pelo menos desde Abril, quando ao cerco americano à cidade de Falluja, bastião da resistência sunita, a oeste de Bagdad, se juntou a revolta promovida pelo líder radical xiita, Moqtada al-Sadr, há a sensação de um crescente de violência, provavelmente porque esta se generalizou a zonas onde não se sentia até então.

Daniel Neep, analista do Royal United Services Institute for Defence and Security Studies, argumenta que a situação tem sido mais ou menos constante. "Sempre que alguma coisa acontece no Iraque a reacção imediata é dizer-se que a situação está a piorar. De facto, a situação é sempre terrível, com pequenas variações [de intensidade]".

Para agravar a situação, diz Neep, os Estados Unidos tentam impor uma solução rápida, a tempo das suas próprias eleições presidenciais, em Novembro. "Uma das razões pelas quais as coisas estão a correr tão mal é o facto de os americanos estarem a tentar impor um calendário que não dá nenhuma relevância ao que acontece no terreno", sustenta.

Esta semana a Administração do Presidente George W. Bush pediu ao Congresso para transferir cerca de 3.5 milhões de dólares de ajuda à reconstrução para despesas ligadas à segurança. O objectivo é apressar o recrutamento e formação de polícias e militares. Dos 18 mil milhões de dólares aprovados há dez meses pelo Congresso para o esforço de reconstrução, apenas mil milhões foram de facto disponibilizados.

A totalidade dos 500 milhões destinados pelo Banco para o Desenvolvimento Islâmico espera ainda pelo abrandamento da insurreição e dos raptos. Reconstrução e economia têm sido tratadas como problemas secundários quando são as maiores preocupações dos iraquianos e o principal factor a influenciar a crescente descontentamento.

Sem reconstrução e criação de emprego, o ciclo vicioso mantém-se. "Dificuldades económicas e violência alimentam-se mutuamente", lembrou no seu último relatório sobre o Iraque o International Crisis Group, um "think tank" sedeado em Bruxelas. E assim pode estar a caminhar-se para o pior dos cenários previsto num relatório confidencial dos serviços secretos americanos que a imprensa americana divulgou esta semana. Preparado em Julho pelos para o Presidente George W. Bush, o melhor dos cenários previsto no relatório descreve um Iraque instável do ponto de vista político, económico e de segurança no fim de 2005. Pela mesma altura, e na pior de três hipóteses, o termo a usar para o caos terá de ser guerra civil.»

Análise de Sofia Lorena.
Edição de hoje do Jornal "Público".
(mais informação)

Publicado por gustavosampaio em setembro 19, 2004 10:07 PM
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