setembro 20, 2004

Kerry, em certa medida, não é mais do mesmo

kerry

John Kerry demarca-se da política externa seguida pela Administração liderada por George W. Bush, nomeadamente em relação ao conflito no Iraque. "Invadir o Iraque provocou uma crise de dimensão histórica e, se não alterarmos a actual política, enfrentamos a perspectiva de uma guerra sem fim à vista", afirmou o candidato democrata às próximas eleições presidenciais norte-americanas, criticando ferozmente as opções tomadas pelo actual presidente.

Artigo do "New York Times".
Artigo do "Público.pt".

Publicado por gustavosampaio em setembro 20, 2004 09:53 PM
Comentários

Na política, como em tudo na vida, parece-me avisado não tomarmos a parte pelo todo; a aparência pela essência... é que esse é o melhor caminho para que nos venhamos a sentir enganados e quando o constatarmos será demasiado tarde.
J. Kerry, enquanto senador e em circunstâncias que lhe permitiriam expressar livremente a sua "verdadeira" opinião, votou a favor da guerra do Iraque e votou, também, a favor do Patriotic Act; ainda agora, em plena campanha, foi incapaz de estabelecer um prazo para a retirada das tropas americanas do Iraque ou de atacar o orçamento militar americano.

A diferença é apenas retórica.

Um abraço
o uno e o multiplo

Afixado por: o uno e o múltiplo em setembro 21, 2004 12:12 AM

Convenhamos que não será por isso que concluo que o senhor é perspicaz, todavia, é melhor que nada.

Afixado por: mfc em setembro 21, 2004 01:18 AM

john kerry votou no senado a favor da intervenção militar norte-americana no iraque numa altura em que a administração liderada por george w. bush garantia de todas as formas que o regime de saddam hussein detinha armas de destruição maciça e tinha clara intenção de as utilizar...

john kerry foi um decidido activista contra a guerra do vietname, na qual participou activamente, enquanto soldado (ao contrário de george w. bush, que usou a influência da família para ficar no seu país), o que comprova que ao apoiar inicialmente a intervenção militar no iraque, não o fazia com consciência da sua ilegalidade e ilegitimidade, mas tão só com base em sentimentos patrióticos naturais e compreensíveis...

john kerry é um ser humano e comete erros e engana-se, pelo que o seu apoio à guerra do iraque é desculpável, sobretudo quando ele próprio admite esse erro, e demonstra predisposição para o reparar da melhor maneira possível...

john kerry poderá representar uma viragem fundamental na política externa norte-americana, renegando o uso desmesurado da força, preferindo utilizar a diplomacia, as conversações, as negociações, a dissuasão em vez da coacção, com base numa postura de multilateralismo, com o apoio expresso dos seus aliados tradicionais, reforçando os laços transatlânticos e contribuindo decisivamente para a pacificação do mundo...

Afixado por: gustavosampaio em setembro 21, 2004 01:57 PM

john kerry votou no senado a favor da intervenção militar norte-americana no iraque numa altura em que a administração liderada por george w. bush garantia de todas as formas que o regime de saddam hussein detinha armas de destruição maciça e tinha clara intenção de as utilizar...

john kerry foi um decidido activista contra a guerra do vietname, na qual participou activamente, enquanto soldado (ao contrário de george w. bush, que usou a influência da família para ficar no seu país), o que comprova que ao apoiar inicialmente a intervenção militar no iraque, não o fazia com consciência da sua ilegalidade e ilegitimidade, mas tão só com base em sentimentos patrióticos naturais e compreensíveis...

john kerry é um ser humano e comete erros e engana-se, pelo que o seu apoio à guerra do iraque é desculpável, sobretudo quando ele próprio admite esse erro, e demonstra predisposição para o reparar da melhor maneira possível...

john kerry poderá representar uma viragem fundamental na política externa norte-americana, renegando o uso desmesurado da força, preferindo utilizar a diplomacia, as conversações, as negociações, a dissuasão em vez da coacção, com base numa postura de multilateralismo, com o apoio expresso dos seus aliados tradicionais, reforçando os laços transatlânticos e contribuindo decisivamente para a pacificação do mundo...

Afixado por: gustavosampaio em setembro 21, 2004 02:00 PM

Resumindo e concluindo; Kerry é um mal menor.
No que toca ás politicas de fundo sobre o papel dos EUA no mundo, os objectivos são os mesmos é só uma questão de método, o que nos dias que correm já não é nada mau...

Afixado por: Raspoutine em setembro 21, 2004 03:52 PM

Eles no fundo são todos iguais!

Afixado por: publicus em setembro 21, 2004 08:12 PM

Gustavo Sampaio:

Desculpe, mas pensei que ambos não acreditassemos já na existência do pai Natal...

Respondendo-lhe ponto por ponto à sua contra-argumentação poderia dizer-lhe que:

1º Os E.U. convenciam o país e o mundo "que o regime de saddam hussein detinha armas de destruição maciça e tinha clara intenção de as utilizar..." mas como deve saber NÃO FALTARAM vozes avisadas como os inspectores da ONU, ou como Scott Ritter (por acaso até do próprio partido republicano), inspector no Iraque, que demonstraram a falsidade dos relatórios e das provas apresentadas pela administração Bush afirmando claramente a NÃO existência de tais armas... Nós soubemo-lo; quer o Gustavo convencer-me que J.Kerry não??? Especialmente quando certa esquerda americana se fartou de proclamar, alto e bom som, a falsidade de tais argumentos???

Além disso, a motivação para a guerra era bem outra, isso já na altura, antes da invasão era conhecido, e estava agendada pelo "neo cons" americanos há já bastante tempo!

Os democratas sabiam tudo isso e muito mais melhor que eu, amigo.

A este nível da esfera política não há lugar para PRESUNÇÕES DE INOCÊNCIA meu caro... a ignorância e a omissão de informações está relegada para o "homem de rua".

Quanto ao facto de todos cometermos erros....bem, das duas uma: ou cometemos erros por ignorância e então somos incompetentes, irresponsáveis e inconsequentes - porque a este nível, e tendo em conta a gravidade de tais decisões políticas (os milhões de vidas humanas em jogo, por exemplo), não se podem substimar todas as informações disponíveis - ou cometemo-los por interesse....e então somos hipócritas...não agimos em conformidade com as nossas convicções (com as tais informações disponíveis) mas sim de acordo com um dado interesse paricular (pessoal ou partidário).

Quanto a J.Kerry reparar os erros da melhor forma possível....bem, eu ainda não o vi a anunciar planos concretos nem a agendar datas para a resolução do problema...veremos se o desfecho dessas suas "soluções" não serão uns floreados paradigmáticos do NIM a que muitos políticos nos vêm acostumando.

Quanto à "viragem fundamental na política externa norte-americana", desculpe, mas não posso deixar de me rir...viragem??? Fundamental????
Meu caro, mudará a aparência da coisa (afinal o Kerry não é tão burro como Bush e alguma coisa terá aprendido com esta última administração); optará por um discurso menos maniqueista, menos conservador na forma, menos belicista....mas acredita que Kerry porá em risco a economia (militarista) americana? Que porá em risco o grande Império??? A dominação será a mesma, agora com uma capa de virtuosismo democrático.

Para terminar:

A única coisa que poderá distinguir Kerry de Bush nesta campanha (porque essencialmente defendem a mesma política externa, económica, etc....veja-se o reinado de Clinton) é a guerra do Iraque.
A retórica de Kerry em relação ao Iraque é a única arma que possui para poder ganhar as eleições.

A pacificação do mundo não se fará nunca enquanto a dominação mundial americana assentar na sua "economia da guerra" (e kerry ainda não proferiu uma palavra a esse respeito), com um orçamento de estado a financiar escandalosamente a industria de armamento (que serve para alimentar todo o tipo de conflitos mundiais)... etc, etc, etc

Isto já vai muito longo. Desculpem.

Mas por favor, não substimem as nossas inteligências...para isso já cá temos o agente Delgado.

Um abraço
o uno e o múltiplo

Afixado por: o uno e o múltiplo em setembro 22, 2004 05:01 PM

Se não se importam, para concluir.

Kerry será não um mal menor mas um mal seguramente mais inteligente (o que não é difícil)...

Afixado por: o uno e o multiplo em setembro 22, 2004 05:09 PM

Caríssimo “o uno e o múltiplo”…

Acho que deveríamos deixar o Pai Natal descansado no seu lugar, algures no Pólo Norte, e basearmo-nos apenas em actores essenciais da actual cena política mundial, casos de George W. Bush (actor principal desde 2001) e John Kerry (candidato a ocupar o seu lugar)...

Devo dizer-lhe que nunca acreditei na existência de armas de destruição maciça no Iraque e que me opus desde o início à intervenção militar norte-americana naquele país. Mais por intuição pessoal do que por qualquer tipo de prova material. E considero desonesta a sua afirmação sobre uma alegada demonstração da “falsidade dos relatórios e das provas apresentadas pela Administração Bush”, uma vez que tal não foi provado antes do eclodir da guerra, apenas posteriormente.

Tanto mais não foi provado como a decisão de intervir militarmente no Iraque foi aprovada por maioria no Senado norte-americano, com o apoio de uma parte considerável do Partido Democrata, a “esquerda” a que se refere (eu prefiro chamar-lhe “centro-direita”, relegando o Partido Republicano para a “direita” mais conservadora e fundamentalista).

Obviamente que as motivações da guerra foram outras, obviamente que fazia tudo parte de uma agenda previamente planeada pela classe “neoconservadora” norte-americana, que tem tido uma influência decisiva na política externa da Administração Bush. Obviamente que uma parte considerável do Partido Democrata tinha uma clara noção sobre a situação, ou julgava ter. Tudo isto parece hoje evidente, embora na altura não fosse assim tão clarividente.

Posto isto, considero um erro lamentável o voto favorável de John Kerry quanto à intervenção militar no Iraque. Mas acredito que o seu arrependimento se estenda para além de interesses eleitorais imediatos. Acredito na sua sinceridade. Não se trata de uma “presunção de inocência”, pois eu condeno a posição tomada por Kerry naquela altura, mas tão só um sentimento de esperança no futuro, com este “mal menor” que representariam Kerry e o Partido Democrata na liderança dos Estados Unidos da Améria, a “hiperpotência” mundial.

Quanto ao seu discurso arrogante/elitista sobre a “ignorância” do denominado “homem de rua” (o povo comum?), prefiro não tecer grandes comentários. Compreendo que se trate de um “tique” marxista-leninista que é difícil contrariar, tão impregnado que está na sua mentalidade ortodoxa e muito pouco aberta.

Torna-se assim irónico perceber que essa “ignorância” (“incompetência”, “irresponsabilidade”, “inconsequência”?) também o atinge a si próprio, talvez o genuíno “homem de rua”, utilizando a expressão que tanto gozo lhe deu utilizar, uma vez que “ainda não viu” John Kerry “a anunciar planos concretos nem a agendar datas para a resolução do problema” (sugiro-lhe que dê uma vista de olhos na imprensa norte-americana da passada terça-feira, disponível a qualquer comum “homem de rua” minimamente interessado em fundamentar o que ousa opinar).

Outra questão. O que permitiu a George W. Bush ser eleito presidente em 2001, para além de uma mais do que provável fraude eleitoral, foi precisamente essa presunção acerca da sua “burrice”. Bush foi e continua a ser subestimado (subEstimado, com “E”, e não “substimado”, caríssimo “o uno e o múltiplo”), e isso poderá vir a ser novamente um trunfo na presente campanha eleitoral. É essa leitura simplista das coisas – Bush é um “burro” e por isso não nos devemos preocupar muito com ele – que o ajuda a manter-se no poder. É uma leitura profundamente errada, meu caro.

Por fim, se John Kerry, de facto, optar “por um discurso menos maniqueísta, menos conservador na forma, menos belicista”, não representará isso uma possível “viragem fundamental” na política externa norte-americana? Não é precisamente isso que pretendemos? Ou estamos mais interessados no “quanto pior, melhor”, característico de certas “mentes iluminadas” não confundíveis com o vulgar e ignorante “homem de rua”?

Afixado por: gustavosampaio em setembro 23, 2004 02:39 PM

O Gustavo demonstra os tiques dos políticos institucionais que muito gostam de exibir o seu "pseudo brilhantismo intelectual" aconchegando, adaptando e retorcendo as palavras alheias menos agradáveis aos seus ouvidos. No caso do Gustavo penso que será apenas um tique...

Contudo, e só para que fique claro:

Quando o Gustavo afirma que considera "desonesta a (minha) afirmação sobre uma alegada demonstração da “falsidade dos relatórios e das provas apresentadas pela Administração Bush”, uma vez que tal não foi provado antes do eclodir da guerra, apenas posteriormente" devemos entender que:

1ºA ONU e os seus inspectores mentiam quando afirmavam que não haviam descoberto os mais leves indícios de armas de destruição maciça

2ºQue todas as declarações de Scott Ritter (ex-inspector de armamento da ONU que viveu 7 anos no Iraque) - entre outras - eram falsas

3º Que as informações que na altura circulavam no amâgo dos serviços secretos e que agora conhecemos também.

Devemos concluir que nós anódinos cidadãos do mundo estávamos convictos, mediante tais declarações, da falsidade dos argumentos de Bush mas que J.Kerry não, preferindo conceder maior legitimidade à administração Bush (com excelentes provas dadas de isenção e honestidade, diga-se de passagem) que à própria ONU e a todos os inspectores que estiveram no Iraque...
Na minha opinião quem acredita nisso ou é ingénuo ou pretende iludir a crueldade dos factos.

Ainda:

Não é muito simpático deturpar palavras alheias.
Acredito que as minhas posições políticas, para quem me conhece, sejam difíceis de engolir...afinal, sou eu a primeira a defender o conceito de democracia directa e a denegrir a política institucional e partidária. Isso, para todos os carreiristas da política que se esticam nos bicos dos pés deve ser difícil de digerir.
Concluindo, o que afirmei e o Sampaio deturpou, foi a constatação de que as informações verdadeiramente relevantes são habitualmente sonegadas ao cidadão comum pelos políticos institucionais. E isto é uma realidade. É aquilo a que vulgarmente chamamos manipulação das massas.NUNCA insinuei, sequer, qualquer incapacidade do dito "homem comum", categoria na qual me incluo.
Para mais, NÂO SOU nem nunca fui marxista-leninista....baralhou os conceitos.

Quanto ao resto, apenas lhe digo que "erros" existem que valem MILHÕES de vidas de inocentes. E isso não se apaga com um pedido de desculpas. O "arrependimento" de Kerry não ressuscita os mortos. Decidir uma guerra não é o mesmo que escolher uma camisa. As responsabilidades devem ser assumidas.

Quanto ao resto:

Sim, Bush é burro mas perigoso.

A esquerda americana a que me referia não era certamente o partido democrata (risos)

E quanto à sua pergunta:

"se John Kerry, de facto, optar “por um discurso menos maniqueísta, menos conservador na forma, menos belicista”, não representará isso uma possível “viragem fundamental” na política externa norte-americana?"

A minha resposta é não. É uma mudança na forma, na aparência e não na essência. As políticas económicas serão as mesmas, a orientação (reformada a estratégia) em termos de política externa idem. As opçãoes orçamentais idem, idem.

Quanto ao resto, cada um tirará as ilações que for capaz.

Mudar é muito mais que alterar os nomes às coisas.

Assim como assim, desculpem a expressão, a diferença entre Bush e Kerry será comparável à diferença entre Santana Lopes e Sócrates... (risos)

Abraço

o uno e o múltiplo

Afixado por: o uno e o multiplo em setembro 23, 2004 07:05 PM

Para mim esta é uma daquelas tristes situações em que a necessidade estratégica se sobrepõe ao resto. O Kerry não me convence como dificilmente qualquer presidente americano me convencerá, sobretudo no plano em que as coisas estão. Houve alguns no passado que foram bons (no mínimo menos maus), mesmo depois de 1945, e até confesso que o Howard Dean me tinha convencido e estava realmente entusiamado, mas certamente não é o Kerry que vai mudar muito.

Nesse sentido acho exemplar a forma como os democratas se atiraram ao Bush quando ele teve o deslize em que afirmou que a guerra contra o terrorismo "não podia ser ganha". O discurso pró bélico e de "força" veio ao de cima precisamente aos democratas, que se insurgiram contra essas declarações pelo facto de a Grande América ter que vencer no final, e outro cenário nao ser aceitável.

Também acho que o Kerry não veio propriamente trazer nada de novo, o que não implica que seja imprescindível que ganhe as eleições, sob pena de termos o Mundo mais perigoso durante 4 anos...

Penso também que o Nader não vai desistir, só espero que desta vez não tire tantos votos ao candidato democrata como já fez no passado.

Afixado por: david avila em setembro 23, 2004 11:26 PM

quando digo "acho exemplar a forma como os democratas...", digo-o no sentido de isso servir como exemplo de como são mais do mesmo, não no sentido de algo "exemplar/bom/a destacar positivamente/..."

Afixado por: david avila em setembro 23, 2004 11:28 PM

Não tenho e nunca demonstrei ter qualquer tipo de tique “dos políticos institucionais que muito gostam de exibir o seu ‘pseudo brilhantismo intelectual’ aconchegando, adaptando e retorcendo as palavras menos agradáveis” aos meus ouvidos. Critiquei por diversas vezes o sistema político institucional e partidário, nomeadamente no próprio “Grão de Areia” (em textos como “A política não presta”, entre outros). Não tenho qualquer tipo de ambição político-partidária. Não sou filiado em nenhum partido político. Não me considero um “brilhante intelectual”, tão só um livre-pensador. E não aconcheguei, adaptei ou retorci qualquer uma das suas “palavras menos agradáveis”, nomeadamente a frase lapidar do seu discurso - “a ignorância e a omissão de informações está relegada para o ‘homem de rua’”.

Reitero a desonestidade da sua argumentação quanto a uma pretensa demonstração da falsidade dos relatórios e das provas apresentadas pela Administração Bush antes do eclodir da guerra. Não contesto essa mesma falsidade, mais do que comprovada (embora sem consequências reais para os seus autores, nem qualquer tipo de investigação), e não defendo de modo algum a legitimidade de uma guerra que considero ilegal e imoral. O que não posso aceitar é que se afirme com a maior das levezas que se provou materialmente a falsidade dos relatórios e das provas apresentadas por Colin Powell no Conselho de Segurança das Nações Unidas antes do início da guerra. Se essa falsidade tivesse sido logo comprovada, materialmente, decerto que a contestação à guerra teria sido ainda maior, sobretudo no seio das Nações Unidas. Esta minha posição resulta de uma questão de honestidade intelectual, uma vez que fui um fervoroso crítico desta guerra ilegítima desde o seu início, quando ainda estava a ser planeada no Pentágono (muitos meses antes do início das operações militares).

Sobre as questões que colocou, profiro os seguintes comentários:

1º os inspectores das Nações Unidas nunca afirmaram que não tinham descoberto “os mais leves indícios de armas de destruição maciça”, apenas pediram repetidamente mais tempo para finalizar a sua missão;

2º assim como Scott Ritter, dezenas de outras personalidades tão ou mais credíveis, com profundas ligações ao Iraque, procuraram influenciar o processo através de sucessivos depoimentos, muitos deles inteiramente falsos, sobre a capacidade militar do regime de Saddam Hussein (como o caso paradigmático de Chalabi);

3º gostava que especificasse que informações eram essas que na altura “circulavam no âmago dos serviços secretos”;

Quanto a John Kerry, penso que fui claro. Lamento a sua posição favorável na altura em que se iniciaram as operações militares no Iraque, mas acredito que esteja arrependido e que não voltaria a fazer o mesmo caso se tornasse Presidente dos Estados Unidos da América. Não o considero um político exemplar. Não nutro especial simpatia ou admiração política por ele. Mas considero-o melhor do que George W. Bush. Bastante melhor! Entre um e outro, não tenho dúvidas, votaria John Kerry e Partido Democrata! E não penso, de modo algum, que sejam iguais. Não faço análises simplistas e generalizadoras.

Sobre a sua apologia da “democracia directa” (discípula do seu amigo Boaventura de Sousa Santos?) teria de me alongar muito mais, pelo que fica para uma outra oportunidade…

Gostava apenas ainda de clarificar, na medida do possível, a sua “baralhação” de conceitos. O marxismo-leninismo, tal como o fascismo, tal como qualquer regime autoritário, defende intrinsecamente a tal sonegação das “informações verdadeiramente relevantes” ao “cidadão comum pelos políticos institucionais” a que se referiu. A denominada “manipulação das massas” é um dos pilares mais importantes do marxismo-leninismo, o qual se baseia tanto ou mais na propaganda de Estado como o próprio fascismo. Trata-se da vertente elitista do comunismo, paradoxo dos paradoxos, que considera que apenas uma casta iluminada deve ter acesso a toda a informação, a classe dirigente, de forma a pacificar e homogeneizar o povo, para que este se torne submisso aos ideais dogmáticos e perenes em que o sistema se apoia.

Por fim, deixo-lhe outra questão: abandonar a doutrina de “guerra preventiva” defendida pela Administração Bush, passando a respeitar as mais básicas premissas do direito internacional, não representa uma viragem fundamental na política externa norte-americana? Ou é tudo a mesma coisa, Bush, Kerry, Wilson ou Carter, desde que provenha do outro lado do Atlântico (e, figurativamente, do outro lado do espectro político)?

Afixado por: gustavosampaio em setembro 24, 2004 07:21 PM

Da discussão não nasce a luz...normalmente os interlocutores tendem a encerrar-se nos seus próprios argumentos e a deixar de ouvir, sequer, o outro. E isto é válido também para mim, claro.

Não entendo por que razão o Gustavo se irrita (pelo menos assim parece) tanto. Eu não estou em guerra nem consigo, nem com o grão de areia (que visito frequentemente), nem com a a ATTAc, à qual mais ou menos pertenço.

Posto isto, creio que ambas as posições ficaram claras. O que o Gustavo parece não ter compreendido é que, precisamente ao contrário do que insinua, eu rejeito ABSOLUTAMENTE qualquer tipo de autoritarismo, INCLUSIVAMENTE o chamado "democrático".Estou a referir-me a este tipo de democracia, a parlamentar. Deturpar, mais uma vez o que eu disse, ofende-me, evidencia a fragilidade dos seus argumentos e denuncia um incompreensivel nervosismo da sua parte. Portanto, o chapéu da baralhação conceptual não me cabe.

Eu não defendo a sonegação de informações e a manipulação da opinião pública, OBVIAMENTE. Apenas afirmo que é esse o comportamento habitual do poder instituido....DESMENTE ISTO? É capaz de me dizer, também, que esta minha afirmação é falsa??? Teremos então que conversar acerca da natureza do poder.

Aliás, já agora, seria simpático da sua parte, já que tanto se aborreceu comigo, ler alguns textos do "uno" que ficaram para trás. É que talvez ficasse a compreender melhor certos pontos de vista.

Adiante. Sim, defendo a democracia directa ou participativa e não, nunca tive o PRAZER, sequer, de conhecer o Boaventura Sousa Santos. Não sou sua discípula nem sequer nunca fui sua aluna. Mas preferiria ser aluna dele que do Narana Coissaró, ou coisa que o valha.

Aliás, não compreendo a sua irritação com o senhor....será que também o irrita? Talvez por ser o único académico português com coragem de dizer o que pensa? Também conheço a história que o envolveu em Coimbra e a polémica em relação à sua lição inaugural. Mas conheço-a SOB DIVERSOS ângulos...e não apenas a versão oficial.

Por fim, abandonar a "guerra preventiva" significará, do meu ponto de vista, pouco mais que abandonar um rótulo. Pelo menos enquanto a própria economia americana não for redireccionada; o conceito de economia da guerra permanente começou a ser posto em prática nos E.U.A. depois da II guerra mundial, como sabe, e hoje domina completamente a economia interna americana. Acha que o Kerry revolucionará, nesse sentido, a economia america? Penso que não. Não quer fazê-lo nem (tendo em conta a natureza dos lobbies que financiam os partidos norte americanos, o poderia fazer). Veja-se o caso de Cliton. Evidentemente, Cliton não aparecia aos olhos do mundo com o mesmo discurso belicista de Bush mas isso não o impediu de se lançar para a guerra. Uma guerra discutível. Aliás, a natureza desta "economia de guerra permanente" (E NÂO FUI EU QUEM INVENTOU A EXPRESSÂO; como expliquei, foi criado por um economista americano no pós-guerra e é hoje amplamente aceite nos E.U.)explica - também - a estrondosa quantidade de conflitos provocados, patrocinados ou incutidos pelos estados unidos desde o pós-guerra.

Portanto, a guerra dos E.U. contra alguém (haverá sempre alguém ) continuará. Disso, não tenho dúvidas. Pode até ser que o Kerry se revele um pacifista inveterado e afronte os lobbies da indústria militar, fazendo tremer toda a economia interna americana! Se assim for eu estarei enganada e ainda bem. Ainda bem para o mundo.

Mas o tempo nos dirá.
Eu não votaria no Bush. Mas também não faço campanha pelo Kerry, nem advogo males menores. Eu quero O MELHOR e não um mal menor. Essa estratégia eleitoralista, compreendo-a - do ponto de vista do poder - mas provoca-me arrepios. Creio que a humanidade não tem de se sacrificar a esses males menores. Não deve. Isto, se admitirmos que esse mal é efectivamente menor.

Afinal, parece que é o Gustavo o único, aqui, a mostrar-se intolerante.
Mas reitero o que disse: não estou em guerra consigo. Apenas discordo (se me permite) da sua opinião.


PS - Já agora, porque isso parece ser importante para o Gustavo, tenho como referência intelectual Espinosa, Toni Negri, John Holloway - nessa mesma sequência. Irrite-se lá mais um pouco, vá.

Abraço

o uno e o múltiplo

Afixado por: o uno e o multiplo em setembro 25, 2004 02:31 AM

Ah, pois...

"... análises simplistas e generalizadoras" são as que colocam os candidatos (ou o que quer que seja) em gradações de "mais e menos"! Em gavetas que descem de acordo com a valoração que se lhes atribui.

Ou seja, simplista é quem defende um bom, um mau, e um mais ou menos... coisa que eu nunca fiz. O Gustavo, por seu turno, é que se fartou de adjectivar Kerry, afirmando que ele é menos mau...introduzindo no debate, portanto, um juízo moral.

A realidade, contudo, é muito mais complexa. E quem acusa Bush de maniqueismo necessita de alguma atenção a essas análises políticas fundamentadas em juízos morais.

Ainda:

Os candidatos não são todos iguais (por que será que ninguém fala de Nader, estranho não acha?). O que eu digo é que as diferenças não são substânciais, suficientemente significativas.

outro abraço


Afixado por: o uno e o múltiplo em setembro 25, 2004 02:48 AM

John Kerry dixit:

«A invasão do Iraque criou uma crise de proporções históricas e, se não mudarmos de rumo, existe a perspectiva de uma gerra sem fim à vista»

«Hoje, o Presidente Bush diz-nos que voltaria a fazer tudo da mesma maneira. (...) Como pode estar a falar a sério? Estará realmente a dizer que se soubéssemos que não havia uma ameaça iminente, não havia armas de destruição maciça, não havia ligações à Al-Qaeda, os Estaduos Unidos deveriam invadir o Iraque? A minha resposta, retumbante, é não, porque a primeira responsabilidade de um comandante-em-chefe é tomar uma decisão sensata e responsável para conservar a América segura»

George W. Bush dixit:

«Hoje, o meu opositor prosseguiu o seu padrão de adejar ao vento com novas contradições sobre velhas posições quanto ao Iraque»

«Incrivelmente, considera agora que a nossa segurança nacional estaria melhor com Saddam Hussein no poder, não na prisão. Diz que prefere a estabilidade da ditadura à esperança e segurança da democracia. Não podia discordar mais e, não há muito tempo, o meu opositor também não [referindo-se ao voto favorável de Kerry no Senado quanto ao uso da força no Iraque]»

Torna-se irónico perceber que a linha de argumentação seguida por "o uno e o múltiplo" coincide com o cínico discurso de George W. Bush. Se depender de "o uno e o múltiplo", Bush será reeleito, e depois é só esperar o pior possível.

Sobre Ralph Nader, importa dizer que conseguiu cerca de 97 mil votos no Estado da Flórida nas eleições de 2001. Bush venceu neste Estado, e consequentemente foi eleito Presidente, por apenas mais 537 votos do que Al Gore. De acordo com sondagens realizadas na altura, a esmagadora maioria dos votantes em Nader tinham como segunda escolha Al Gore. Nader merece, por isso, ser referenciado, sobretudo enquanto responsável pela vitória de Bush em 2001, e provavelmente pela sua reeleição agora em 2004.

Afixado por: gustavosampaio em setembro 28, 2004 03:17 PM

de Michael Moore para "o uno e o múltiplo":

«No, it is not. If I hear one more person tell me how lousy a candidate Kerry is and how he can't win... Dammit, of COURSE he's a lousy candidate -- he's a Democrat, for heavens sake! That party is so pathetic, they even lose the elections they win! What were you expecting, Bruce Springsteen heading up the ticket? Bruce would make a helluva president, but guys like him don't run -- and neither do you or I. People like Kerry run.

Yes, OF COURSE any of us would have run a better, smarter, kick-ass campaign. Of course we would have smacked each and every one of those phony swifty boaty bastards down. But WE are not running for president -- Kerry is. So quit complaining and work with what we have.

(...)

So, do not despair. All is not over. Far from it. The Bush people need you to believe that it is over. They need you to slump back into your easy chair and feel that sick pain in your gut as you contemplate another four years of George W. Bush. They need you to wish we had a candidate who didn't windsurf and who was just as smart as we were when WE knew Bush was lying about WMD and Saddam planning 9/11. It's like Karl Rove is hypnotizing you -- "Kerry voted for the war...Kerry voted for the war...Kerrrrrryyy vooootted fooooor theeee warrrrrrrrrr..."»

;)

Afixado por: gustavosampaio em setembro 28, 2004 03:51 PM

novamente Michael Moore...

«And you have the audacity to criticize John Kerry with what you call the "many positions" he has taken on Iraq. By my count, he has taken only one: He believed you. That was his position. You told him and the rest of congress that Saddam had WMDs. So he -- and the vast majority of Americans, even those who didn't vote for you -- believed you. You see, Americans, like John Kerry, want to live in a country where they can believe their president.

That was the one, single position John Kerry took. He didn't support the war, he supported YOU. And YOU let him and this great country down. And that is why tens of millions can't wait to get to the polls on Election Day -- to remove a major, catastrophic flop from our dear, beloved White House -- to stop all the flipping you and your men have done, flipping us and the rest of the world off.»

Afixado por: gustavosampaio em setembro 28, 2004 04:06 PM

Pois Gustavo e quem mais quiser a minha resposta está no post do meu blog intitulado "os crimes da razão".

Quanto ao mais,

outro abraço

o uno e o multiplo

Afixado por: o uno e o multiplo em setembro 29, 2004 01:08 AM

PS - Lamentavelmente o Gustavo é que demonstra uma posição muito próxima de Bush: "Quem não está comigo está contra mim".
Nunca fiz a apologia de Bush. Espero que perca as eleições. Contudo, Kerry não mudará o mundo.
As mudanças estão nas nossas mãos, não nas "deles". Se o Gustavo fosse mais cauteloso nas suas afirmações e, pelos vistos, inabaláveis convicções de fé, talvez não tivesse suscitado tanta polémica.

A resposta dei-a lá no meu canto.

o uno e o multiplo

Afixado por: o uno e o multiplo em setembro 29, 2004 01:15 AM

mais uma rectificação à argumentação de "o uno e o múltiplo" - john kerry votou no senado contra a guerra do iraque! o voto favorável a que se refere foi anterior, reportando-se na altura à concessão de mais fundos financeiros para operações militares. kerry votou a favor nessa altura, mas depois rectificou logo a sua posição e votou contra a guerra. ou seja, o erro não é tão grave como se propala, e kerry reconheceu-o e rectificou-o de imediato. que fique bem claro: kerry votou CONTRA a guerra do iraque no senado norte-americano.

fundamentação (sim, porque não basta opinar de forma irresponsável, é preciso comprovar o que se diz, caro "o uno e o múltiplo") através de artigo publicado na "salon":

«John Kerry explains war funding vote

Sept. 29, 2004 | WASHINGTON (AP) -- On the eve of a foreign policy debate with President Bush, Democratic presidential candidate John Kerry said in an interview that his explanation of why he voted in favor of additional funding for the war in Iraq before voting against it was "one of those inarticulate moments" in the campaign.

Kerry ultimately voted against providing $87 billion for military operations and aid in Iraq and Afghanistan. Although he initially supported the appropriation when it was to be funded at least in part by rolling back tax cuts for those with the highest incomes, Kerry said he ended up voting against the final version of the bill in the Senate as a protest over its funding, which included no-bid contracts.

Bush has criticized Kerry throughout the campaign for the vote, which the president says shows a lack of support for troops in the field. Bush has mocked Kerry for saying, "I actually did vote for the $87 billion before I voted against it."

"It was just a very inarticulate way of saying something and I had one of those inarticulate moments," Kerry said in an interview broadcast Wednesday on "Good Morning America" on ABC. "But it reflects the truth of the position ... I thought that the wealthiest people of America should share in that burden. It was a protest."

Kerry rejected Bush's assertion that he would prefer that Saddam Hussein still be in power in Iraq and repeated his contention that Bush had misled the nation about the nature of the threat the Iraqi dictator posed.

"We should not have gone into Iraq knowing today what we know," Kerry told ABC. "Knowing there was no imminent threat to America, knowing there were no weapons of mass destruction, knowing there was no connection between 9/11 and Saddam Hussein, I would not have voted to support war."

Kerry was among the senators who voted to authorize Bush to use force against Iraq and has said he would still vote for authorization so that the president could put pressure on Saddam to allow more inspections for weapons. However, the Bush campaign characterizes Kerry's position as an example of vacillation and indecision.»

abraço, gs.

Afixado por: gustavosampaio em setembro 29, 2004 04:41 PM

Oh, Gustavo! Desculpe, mas não estou a perceber... leu o artigo de pernas para o ar.

O texto que me apresenta não confirma o que afirma, isto é, que "kerry votou CONTRA (???) a guerra do iraque no senado norte-americano"!

Sublinho apenas os seguintes excertos:

1º - "Kerry was among the senators who voted to authorize Bush to use force against Iraq"

2º - "Kerry ultimately voted against providing $87 billion for military operations and aid in Iraq and Afghanistan."


Portanto, Kerry votou a favor da intervenção militar no Iraque e votou contra o reforço orçamental para custear as despesas de todas as operações militares dessa mesma intervençao - já depois da eclosão do conflito.

E mais:

"Although he initially supported the appropriation when it was to be funded at least in part by rolling back tax cuts for those with the highest incomes, Kerry said he ended up voting against the final version of the bill in the Senate as a protest over its funding, which included no-bid contracts"

Isto é, votou contra esse reforço orçamental não por a ele se opôr mas pelo facto de não concordar com as adjudicações sem concurso público ( no-bid contracts).

Em todo o caso, se isso lhe agrada, podemos registar em Kerry um esforço de maior transparência. Contudo, não isso não é exactamente uma viragem fundamental na política norte-americana.

De qualquer forma, esta questão em nada altera o que me parece essencial: o que ficou exposto no post do "uno".

abraço

o uno e o multiplo

Afixado por: o uno e o multiplo em setembro 29, 2004 05:54 PM

Ainda:

Eis algumas das últimas palavras proferidas por Kerry nesta campanha (podem ler o artigo na íntegra em 'Antiwar.com' -http://antiwar.com/pat/?articleid=3670). Sublinho o que me parece relevante.


"[T]o destroy our enemy we have to know our enemy. ... They are not just out to kill us, they want to provoke a conflict that will radicalize the people of the Muslim world, turning them against the United States and the West. And they hope to transform that anger into a force that will topple the region's governments and pave the way for a new empire: an oppressive, fundamentalist superstate stretching across a vast area from Europe to Africa, from the Middle East to Central Asia. That's their goal."

1º Existe um inimigo que se opõe aos E.U.: os terroristas islâmicos que se opõem à dominação dos E.U e do mundo ocidental. Por outras palavras, os terroristas - cabendo nessa designação, pressupõe-se, quase tudo; desde o combate palestiniano à dominação israelita aos atentados da Al-Quaeda (e agora parece que é moda ligar a Al-Quaeda a todo o tipo de atentado...até em Beslan e afinal não era bem assim).

2º Esta visão pressupõe, desde logo, a reaccionária e sobejamente contestada visão reducionista do chamado choque civilizacional defendido por Huntington.

3º Consiste, para todos os efeitos, na declaração de um estado de guerra que é necessário manter e reforçar; já não contra o Iraque (afinal nem havia armas de destruição maciça) mas contra "logo se vê quem" - o tal inimigo a abater.

"As president, I pledge to you, America, I will finish the job in Iraq. ... I will refocus our energies on the real war on terror. I will wage this war relentlessly, with a single-minded determination to capture or kill the terrorists, crush their movements and free the world from fear."


1º Promete terminar o trabalho dos E.U. no Iraque. Que trabalho? O de constituição de um regime pró-americano?

2º Traduzindo: " Eu reconduzirei as nossas energias para a verdadeira guerra contra o terror. Empreenderei esta guerra implacavelmente, com a única determinação de capturar ou matar os terroristas, esmagar os seus movimentos e libertar o mundo do medo"

Os E.U. mantêm o seu papel de libertadores do mundo (bravo!), e se isto é um discurso menos belicista e menos maniqueista que o de Bush, então redefinam-me o valor desses vocábulos.

Afixado por: em setembro 29, 2004 07:50 PM

Ainda:

Eis algumas das últimas palavras proferidas por Kerry nesta campanha (podem ler o artigo na íntegra em Antiwar.com -http://antiwar.com/pat/?articleid=3670). Sublinho o que me parece relevante.


"[T]o destroy our enemy we have to know our enemy. ... They are not just out to kill us, they want to provoke a conflict that will radicalize the people of the Muslim world, turning them against the United States and the West. And they hope to transform that anger into a force that will topple the region's governments and pave the way for a new empire: an oppressive, fundamentalist superstate stretching across a vast area from Europe to Africa, from the Middle East to Central Asia. That's their goal."

1º Existe um inimigo que se opõe aos E.U.: os terroristas islâmicos que se opõem à dominação dos E.U e do mundo ocidental. Por outras palavras, os terroristas - cabendo nessa designação, pressupõe-se, quase tudo; desde o combate palestiniano à dominação israelita aos atentados da Al-Quaeda.

2º Esta visão pressupõe, desde logo, a reaccionária e sobejamente contestada visão reducionista do choque civilizacional defendido por Huntington.

3º Consiste, para todos os efeitos, na declaração de um estado de guerra que é necessário manter e reforçar; já não contra o Iraque (afinal nem havia armas de destruição maciça) mas contra "logo se vê quem".E agora parece que é moda ligar a Al-Quaeda a todo o tipo de atentados, veja-se o caso Putin-Beslan.

"As president, I pledge to you, America, I will finish the job in Iraq. ... I will refocus our energies on the real war on terror. I will wage this war relentlessly, with a single-minded determination to capture or kill the terrorists, crush their movements and free the world from fear."


1º Promete terminar o trabalho dos E.U. no Iraque. Que trabalho? O de constituição de um regime pró-americano?

2º Traduzindo: " Eu reconduzirei as nossas energias para a verdadeira guerra contra o terror. Empreenderei esta guerra implacavelmente, com a única determinação de capturar ou matar os terroristas, esmagar os seus movimentos e libertar o mundo do medo"

Os E.U. mantêm o seu papel de libertadores do mundo (bravo!), e se isto é um discurso menos belicista e menos maniqueista que o de Bush, então redefinam-me o valor desses vocábulos.

Afixado por: o uno e o múltiplo em setembro 29, 2004 07:54 PM

o essencial...

"We should not have gone into Iraq knowing today what we know," Kerry told ABC. "Knowing there was no imminent threat to America, knowing there were no weapons of mass destruction, knowing there was no connection between 9/11 and Saddam Hussein, I would not have voted to support war."

estar a refutar isto, comprova a sua parcialidade (cegueira?) quanto a esta questão...

Afixado por: gustavosampaio em setembro 29, 2004 08:18 PM

mais...

«Kerry was among the senators who voted to authorize Bush to use force against Iraq and has said he would still vote for authorization so that the president could put pressure on Saddam to allow more inspections for weapons. However, the Bush campaign characterizes Kerry's position as an example of vacillation and indecision.»

o voto favorável (repito: apenas naquela altura, porque depois votou CONTRA!) de Kerry baseou-se também numa forma de pressão sobre o regime de Saddam Hussein - pressão essa que foi defendida pelos próprios inspectores das Nações Unidas, que julgavam ser a única forma de o Iraque cooperar com as inspecções.

Afixado por: gustavosampaio em setembro 29, 2004 08:21 PM

por fim, quanto às suas conclusões (uma vez mais simplistas!) sobre o conflito iraquiano, deixo-lhe uma questão: o que fazer agora, que o mal está feito? abandonar o Iraque e esperar pelo despoletar de uma sangrenta guerra civil? esperar pelo pior possível para depois se poder dizer, com orgulho, que afinal "nós é que tinhamos toda a razão"? estamos, afinal, realmente preocupados com a população civil iraquiana ou estamos confinados a disputas ideológicas estúpidas e mesquinhas?

Afixado por: gustavosampaio em setembro 29, 2004 08:28 PM

e ainda, a prova da viragem na política externa norte-americana que John Kerry protagonizaria, por ele próprio:

«Democrats must resist a new orthodoxy within our party—a politically stagnating shift that does a disservice to more than 75 years of history. That is the new conventional wisdom of consultants, pollsters, and strategists who argue that Democrats should be the party of domestic issues alone.

They are wrong. As a party, Democrats need to talk about all the things that strengthen and protect the United States. We need to have a vision that extends to the world around us, and we should remember that this vision is as old as our party. Woodrow Wilson was elected president during a time of peace, but he led during a time of war. Franklin Roosevelt was elected to tackle the Great Depression, create Social Security, and put the United States back to work. But no one should forget that he did those things even as he responded to Pearl Harbor and marshaled the nation’s troops from Normandy to Iwo Jima. And John F. Kennedy didn’t try to change the subject of the debate when Gen. Dwight D. Eisenhower’s vice president brought up foreign policy. Kennedy challenged the United States globally, insisting that the country do more and better, not because these things are easy but because they are hard.

It’s our turn again to talk about things that are hard.

The war on terrorism is different than any war in history. Intelligence is this nation’s most important weapon but also its greatest vulnerability. It is now common knowledge that crucial intercepts from September 10, 2001, weren’t translated until two days later because of severe understaffing at U.S. intelligence agencies. As of January 2002, the U.S. Army had an average 44 percent shortfall in translators and interpreters in five critical languages: Arabic, Korean, Mandarin-Chinese, Persian-Farsi, and Russian. The State Department reported a 26 percent shortage of authorized translators and interpreters.

Americans’ security depends on helping the people of the Middle East see and act on a legitimate vision of peace.

To remedy this intelligence deficit, U.S. college campuses need to overcome a Vietnam-era mind-set that demonizes the CIA and FBI. To respond to the new threats, we must redouble our information-gathering efforts and make sure proper officials heed critical information, so that when we talk about preventing another September 11, we’re dealing in reality, not rhetoric. We also face critical choices in the makeup and structuring of the U.S. armed forces. Operations in Afghanistan, Kosovo, Bosnia, and the Persian Gulf have highlighted changes in military tactics and equipment needs. Outdated military equipment may please defense contractors, but it won’t win tomorrow’s battles. A modern military means smarter, more versatile equipment; better intelligence; advanced communications; long-range air power; and highly mobile ground forces.
Predictably, the Bush administration has talked about improvements but so far has failed to enact meaningful change. It is up to Democrats to understand and prepare for Fourth Generation warfare (fighting unconventional forces in unconventional ways) so our nation can be better prepared to wage and win the new war.

We must also change the way we interact with the world. For people who have suggested that unilateralism is “just the American way,” it’s time to acknowledge that, more and more, our allies are our eyes and ears around the globe and will play a critical role in intelligence operations. We need partners. We should work on our public and private diplomacy more thoughtfully, sensitively, and intensely to develop both.

I support the Bush administration’s goal of a regime change in Iraq. Iraqi President Saddam Hussein is a renegade and outlaw who turned his back on the tough conditions of his surrender put in place by the United Nations in 1991. But the administration’s rhetoric has far exceeded its plans or groundwork. In fact, its single-mindedness, secrecy, and high-blown phrases have alienated our allies and threatened to undermine the stability of the region.

As both a soldier and a senator, I learned that when it comes to war, our goal must not be just regime change but a lasting peace. The United States has won the war in Afghanistan without securing the peace. This administration has failed to make its case on the international stage or to the American people for the rationale of starting the war or for the means of ending it. We cannot afford to put the security of our allies, the region, and ultimately ourselves at risk for the vague promises we have heard to date. We must do better.

American leadership means we must listen to the cultures and histories of other countries and work harder to build coalitions and partnerships. But for two years, the Bush administration has drifted from its chosen proactive message of disengagement to the reactive, mixed, and contradictory messages of reluctant engagement.

We can and must engage thoughtfully, strategically, and firmly. Nowhere is the need more clear or urgent than in North Korea.

But the Bush administration has offered only a merry-go-round policy: Bush and his advisers got up on their high horse, whooped and hollered, rode around in circles, and ended up right back where they’d started. By suspending the talks initiated by the Clinton administration, asking for talks but with new conditions, refusing to talk under the threat of nuclear blackmail, and then reversing that refusal as North Korea’s master of brinkmanship upped the ante, the administration sowed confusion and put the despot Kim Jong Il in the driver’s seat. By publicly taking military force, negotiations, and sanctions off the table, the administration tied its own hands behind its back.

Now, finally, the Bush administration is rightly working with allies in the region—acting multilaterally—to pressure Pyongyang. It’s gotten off the merry-go-round; the question is why one would ever want to be so driven by unilateralist dogma to get on in the first place. Draining the swamps of terrorists will require much greater involvement in the world. It must include significant investments in the education and human infrastructure of troubled countries. The globalization of the last decade proved that simple measures like buying books and teaching family planning can do much to expose, rebut, isolate, and defeat apostles of hate. These and other techniques are crucial to ensuring that children are no longer brainwashed into becoming suicide bombers and that terrorists are denied the ideological swamplands in which they thrive. Foreign aid must be increased and reformed to focus on education. We must give countries in the Middle East a reason to want peace. In the next few years, if changes aren’t made, the potential for violence in that region will only increase. If we fail to reach the children and the families wrecked by the violence of poverty and seclusion, the growing population of unemployed and unemployable kids will find in fanaticism a tragic answer to its problems. Americans’ security depends on helping the people of the Middle East see and act on a legitimate vision of peace.

It’s up to the United States to respond. Only the United States is in a position to lead the effort with other governments and private-sector partners to beat this pandemic; only the United States has the resources to make a difference. An American president once said, “We cannot . . . be content to rot by inches in ignoble ease within our own borders, taking no interest in what goes on beyond them, sunk in scrambling commercialism; heedless of the higher life, the life of aspiration, of toil and risk . . . We cannot sit huddled within our own borders and avow ourselves merely an assemblage of well-to-do hucksters who care nothing for what happens beyond.”

The Republican Party has in too many ways already disavowed the lessons of that Republican leader, Teddy Roosevelt. Our party can’t afford to repeat those mistakes, not when national greatness hangs in the balance. It is time for Democrats to make clear once more: We will never surrender or submit—not on any issue, and not on any question before this country.

Kerry was first elected to the U.S. Senate in 1984, after serving as lieutenant governor of Massachusetts for two years.

Kerry sits on the Senate Committee on Commerce, Science, and Transportation; the Committee on Finance; the Committee on Foreign Relations; and the Committee on Small Business and Entrepreneurship.

In 1989, as chair of the Senate Foreign Relations Subcommittee on Terrorism, Narcotics, and International Operations, Kerry oversaw the publication of a 1,166-page report titled “ Drugs, Law Enforcement and Foreign Policy ,” which faulted U.S. government officials for turning a blind eye to the narcotics-trafficking activities of the Nicaraguan contras. Kerry joined with 44 other Senate Democrats to vote against the 1991 resolution on the Use of Force Against Iraq, arguing that economic sanctions should be given more time to work before “rushing headlong into war.” He supported granting the president fast-track trade negotiating authority in 1997 and voted in favor of permanent normal trade relations with China in 2000. In 1999, Kerry sided with 47 other senators in favor of the Comprehensive Nuclear Test Ban Treaty and also supported legislation that called for the deployment of national missile defense as soon as such a system is technologically feasible. He is the chair of the Center for Strategic and International Studies Task Force on Strengthening U.S. Leadership on HIV/AIDS; in 2000, he cosponsored legislation to facilitate the creation of a “trust fund” by the World Bank to raise money from governments, the private sector, and nongovernmental organizations as part of the global effort to prevent the spread of AIDS. Also in 2000, Kerry mediated negotiations in Cambodia to establish a tribunal to prosecute surviving leaders of the Khmer Rouge. In 2002, he voted with 28 other Senate Democrats and 48 Senate Republicans in favor of a resolution authorizing the Bush administration to use force to ensure Iraqi compliance with U.N. resolutions.»

Afixado por: gustavosampaio em setembro 29, 2004 08:44 PM

Espero que este esforço não tenha ido além de um copy/past...

Infelizmente, não vejo onde é que estas declarações contrariam o que eu disse. É certo que Kerry abandona a ideia do unilateralismo (Também Bush se esforçou por obter o apoio internacional, apesar de, vendo que não o conseguia ter avançado para a intervenção militar).

No entanto, a ideia de que existe uma guerra contra o terrorismo (e insisto, esta é uma designação demasiado abrangente para mim) subsiste. Mais, Kerry reforça a ideia de que:

To remedy this intelligence deficit, U.S. college campuses need to overcome a Vietnam-era mind-set that demonizes the CIA and FBI. To respond to the new threats, we must redouble our information-gathering efforts and make sure proper officials heed critical information, so that when we talk about preventing another September 11, we’re dealing in reality, not rhetoric. We also face critical choices in the makeup and structuring of the U.S. armed forces. Operations in Afghanistan, Kosovo, Bosnia, and the Persian Gulf have highlighted changes in military tactics and equipment needs. Outdated military equipment may please defense contractors, but it won’t win tomorrow’s battles. A modern military means smarter, more versatile equipment; better intelligence; advanced communications; long-range air power; and highly mobile ground forces.

Ou seja, os serviços secretos são DEFICITÁRIOS, é necessário abandonar a diabolização da CIA e do FBI, é urgente modernizar as FORÇAS ARMADAS, o controlo aereo, as comunicações, os serviços de espionagem, etc.

Resumindo, é necessária uma melhor preparação dos E.U. para a guerra e para o controlo de informações e das comunicações: por algum motivo Kerry votou a favor do Patriotic Act.

Não abandona a ideia da guerra permanente (desta feita em sentido lato contra o terrorismo), e reforça a necessidade de um ESTADO POLICIÁRIO mais eficaz.

mais

It is up to Democrats to understand and prepare for Fourth Generation warfare (fighting unconventional forces in unconventional ways) so our nation can be better prepared to wage and win the new war.

Existe, portanto, uma NOVA GUERRA, melhor, um "estado de guerra" de 4ª geração...

our allies ...will play a critical role in intelligence operations

os aliados serão pois importantes parceiros ENQUANTO colaboradores de todo um serviço secreto que se pretende global, uniformizado e ajustado aos mesmos fins (o combate ao terrorismo....e veremos o que isso virá a significar no futuro).

Usei apenas as próprias palavras de Kerry.
Em nada contrariam o que afirmei.
A resolução para a situação iraquiana é um outro debate, certamente uma situação demasiado complexa para debater aqui.

Creio que simplista é a análise que o Gustavo pretende impôr e que se poderá resumir no "slogan":

Bush=mau

Kerry=bom

Volto a afirmar:
Não haverá alterações significativas, substanciais ou essenciais na política externa norte-americana enquanto todo o sistema de dominação (económica, política, militar, etc) não for subvertido. Na minha modestinha opinião.

abraço

o uno e o multiplo

Afixado por: o uno e o multiplo em setembro 29, 2004 11:59 PM

Um mal menor

Após os acontecimentos do dia 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos da América, o jornal diário francês “Le Monde” declarava em primeira página: “Somos todos americanos!” Tratava-se, naquela altura, de um sentimento natural e justificado de solidariedade transatlântica, de carácter político e espiritual, resultante do choque profundo gerado por um ataque perpetrado contra os norte-americanos, em particular, e contra o Ocidente, em geral.

Presentemente, apesar de esse sentimento de solidariedade transatlântica, e mundial, se ter desvanecido através da ilegítima intervenção militar norte-americana no Iraque, torna-se novamente pertinente afirmar que “somos todos americanos!” Uma vez mais por solidariedade, mas desta feita apenas para com a população norte-americana, no momento crucial da escolha do seu próximo presidente, nas eleições de Novembro.

A relevância mundial da eleição do presidente dos Estados Unidos da América advém, proporcionalmente, da preponderância deste mesmo país no actual mundo unipolar do pós-guerra fria. Com a queda do Muro de Berlim, no ano de 1989, e o consequente desmoronamento político do bloco de Leste, terminava a confrontação de poder entre a antiga União Soviética e os Estados Unidos da América. Subitamente, esse mundo bipolar que vigorou dos anos 60 até ao final dos anos 80, com as duas grandes potências a ombrearem pelo domínio global, deixava de existir, abrindo caminho a uma hegemonia norte-americana verdadeiramente avassaladora.

Nascia deste modo a grande “hiperpotência” (“hyperpuissance”), termo idealizado por Hubert Védrine, antigo primeiro-ministro francês, para classificar os Estados Unidos da América, um colosso político, económico e militar demasiadamente poderoso para ser considerado apenas como uma mera “superpotência”. A escolha do presidente dos Estados Unidos da América obtém, naturalmente, vastas repercussões num mundo cada vez mais subjugado ao imenso poderio norte-americano. E as próximas eleições, em particular, adquiriram uma importância fulcral com os desenvolvimentos políticos dos últimos anos.

Ao longo da presidência do democrata Bill Clinton, nos anos 90, os norte-americanos viraram-se para dentro, para as questões internas, desfrutando dos dividendos de uma economia em franca expansão e descurando, de forma algo displicente, a política externa – excepção feita para a intervenção militar nos Balcãs, embora sob a égide da NATO e com o consenso da Europa Ocidental. No virar do século, com o republicano George W. Bush na liderança da nação, não se presumiam alterações estratégicas significativas, antes pelo contrário. Mas os atentados terroristas do dia 11 de Setembro de 2001 transformaram por completo este cenário relativamente pacífico.

Primeiro o Afeganistão, depois o Iraque. Os Estados Unidos da América voltaram então a ter um papel intervencionista no mundo a um nível militar e a poderosa máquina de guerra norte-americana entrou em processo de revitalização, para grande satisfação da sequiosa indústria militar que a abastece. E se quanto ao primeiro subsistiram algumas dúvidas, facilmente ultrapassadas em clima de solidariedade internacional para com a denominada “guerra contra o terrorismo”, no segundo foi mais do que comprovada a ilegitimidade, ilegalidade e imoralidade da intervenção militar norte-americana.

O presidente George W. Bush fez-se rodear por diversos conselheiros “neoconservadores” e resolveu colocar em prática as suas doutrinas estratégicas – do controverso conceito de “guerra preventiva” à quimérica “teoria do dominó”, tudo sob o pretexto da ambígua “guerra contra o terrorismo”, o inimigo imaterial do novo século. Concretizou-se assim uma viragem fundamental na política externa norte-americana, em prejuízo das mais básicas premissas do Direito internacional, de que Guantánamo é um exemplo paradigmático, e do “multilateralismo”, o que para muitos significou uma clara demonstração de “arrogância imperial”.
Da não ratificação do Protocolo de Quioto à rejeição do Tribunal Penal Internacional, desembocando no claro desrespeito pela Organização das Nações Unidas, os Estados Unidos da América do republicano George W. Bush tomaram um caminho diferente, unilateral, altivo, autoritário, gerando um enorme descontentamento em todo o mundo. A questão do Iraque, por sua vez, extravasou de sobremaneira este sentimento de rejeição. Consequentemente, retirar George W. Bush da presidência tornou-se o desejo maior de grande parte da população mundial. Mas essa decisão cabe apenas à população norte-americana, em Novembro próximo, através do poder de voto.

Contra a recandidatura do republicano George W. Bush, os democratas apostam em John Kerry. Os mais cépticos consideram que entre um e o outro as diferenças são pouco substanciais, tratando-se apenas de uma questão de estilo, com políticas semelhantes. Precisamente a mesma ideia defendida pelo cineasta Michael Moore nas eleições anteriores, em 2000, quando Bush venceu o democrata Al Gore por uma diferença mínima. Nessa altura, Moore apelou ao voto em Ralph Nader, candidato independente. Desta vez, após quatro longos anos de liderança republicana, o mesmo Moore leva a cabo uma acérrima campanha a favor de Kerry, procurando mesmo desmobilizar os apoiantes de Nader. Moore terá inteligentemente percebido que é preferível um mal menor a manter Bush na presidência.

Afixado por: gustavosampaio em setembro 30, 2004 04:27 PM

Assim está bem.

É claro que poderíamos prosseguir debatendo o que se entende hoje, bem como o que se entenderá num futuro próximo e dentro do actual quadro político internacional (mesmo com Kerry eleito presidente dos E.U.), por "multilateralismo", por exemplo. Se esse multilateralismo é ou não extensível a países do terceiro mundo, ou outros, politicamente pouco relevantes ou não subsidiários do interesse dominante. Poderíamos ainda avançar para a discussão acerca da natureza de certos acordos internacionais (que cedências e contrapartidas são postas em cima da mesa) ratificados ou simplesmente ignorados pelos E.U. e restante comunidade internacional e assim por diante.

Contudo, mantenhamo-nos na ideia de Kerry será um mal menor. Na certeza, porém, de que a humanidade vive, há demasiados séculos, com "males menores" e os sistemas de dominação, mais ou menos esmagadores, mais ou menos opressivos, mais ou menos geradores de exclusão se têm vindo a manter. Na certeza de que continuarmos a proclamar políticas "de males menores" significa continuarmos a aceitar as mesmas "cangas" e os mesmos "arados" que há muito reduzem o homem a uma permanente relação de alteridade fundada na hostilidade, no confronto, na exclusão tendo como cenário de fundo um eterno palco de guerra.

Creio que o caminho de quem procura uma "verdadeira" transformação social e política há muito se afastou do quadro institucional eleitoralista; há muito procura uma outra via a que os actuais movimentos sociais vieram dar nova expressão, há muito compreendeu que as transformações que contam não nascem por decreto concertado entre os sempre eternos patrões mundiais (sejam eles quais forem).

Finalmente, devo acrescentar que serei sempre e incondicionalmente igualmente iraquiana, africana, palestiniana, europeia ou venezuelana. A minha solidariedade está para com a humanidade e o meu compromisso intelectual para com o esforço de compreender que não existem efeitos sem causa. Nem mesmo onzes de Setembro.

abraço

o uno e o multiplo

Que Bush perca as eleições.

Afixado por: o uno e o multiplo em setembro 30, 2004 08:59 PM