setembro 28, 2004

Outras Palavras

Por José Neves, membro da ATTAC

A ascensão de Santana Lopes e a queda de Ferro Rodrigues levaram à descrença uma boa parte das "gentes da esquerda". O derrotismo de hoje tem apenas lugar onde ontem houve uma dupla ilusão. Em primeiro lugar, a ilusão de uma autonomia tal do espaço político que tornaria possível que um projecto político de esquerda com fraca mobilização social pudesse ser transformador. Em segundo lugar, a ilusão de que a chamada "ala esquerda do PS", ex-futura líder desse projecto social-democrata, é muito mais do que uma interna figura de estilo.

1. Ao longo destes últimos anos, a enorme falta de vontade em mobilizar projectos sociais que se constituíssem em si mesmo como alternativas de poder estimulou, ainda mais, aquela dupla ilusão. A progressiva limitação do conceito de alternativa a uma declinação político-institucional, declinação que se expressou no sonho de um governo frentista que juntasse as diferentes esquerdas partidárias, revelou bem a concepção simplista de poder que venceu à esquerda. Cada vez mais tido como uma "Coisa", algo que estaria para lá das relações sociais mais quotidianas, do local de trabalho aos próprios "aparelhos partidários" à esquerda, o poder foi sitiado num qualquer palácio, cujo trono seria urgente tomar. É certo que, em grau diverso, muitos são os que no PS, na tradição comunista dominante, ou mesmo nas esquerdas críticas, foram minguando o sonho de uma transformação social nessas hipóteses políticas frentistas.

2. "Alternativa Política" foi a "palavra de ordem" que venceu. Cooperativas de produção, movimentos sociais, batalha do convívio, redes de associativismo, conselhos de fábrica, igrejas de base - estas, por sua vez, foram todas velhas palavras derrotadas à medida que se defendia a necessidade da solução política frentista, a tal "alternativa política". Para a maioria das "gentes da esquerda", pouco ou nenhum interesse parece existir, hoje em dia, em regressar àquelas velhas palavras derrotadas, cuja simples sonoridade tantas vezes embaraça. Aqui e ali, contudo, na sombra do embaraço, aquelas velhas palavras ainda ressoam um ténue eco nostálgico. Talvez porque, para muitos, elas não foram escritas apenas nos livros clássicos onde se empoeiram pelo tempo. Elas foram também a face escrita de novas e únicas experiências de vida - elas são as velhas palavras derrotadas que ontem venceram na feliz crise de poder do Estado, entre Abril e Novembro.

3. Até há algumas semanas, à esquerda vivia-se entre a pequena esperança frentista no poder político - o jargão da "alternativa política" - e a crítica ácida e radical dos poderes políticos. A eleição de Santana por Sampaio e a actual desilusão podem ajudar a resolver estas ambiguidades. O suicídio do "sampaismo" e a rapidíssima queda da "esquerda do PS" abalaram a pequena esperança frentista no poder político - pensava-se que ou era agora, com o mais credível socialista de esquerda, Ferro Rodrigues, ou não seria mais. À desilusão histórica ofereceram-se prontamente três opções como evidentes: a cultura de amargura de trinta anos de derrotas; a conversão à tese do "menos mau", privilegiando-se Sócrates em lugar de Santana Lopes; a insistência na retórica republicana do frentismo das esquerdas, agora figurada em Manuel Alegre.

4. A evidência esquece, contudo, outro caminho. Um caminho em que as "gentes da esquerda" não deleguem em nenhum projecto político as suas aspirações pessoais de transformação social. Um caminho que não condescenda com o "pronto-a-votar", mas que comece precisamente por insistir no cepticismo quanto às possibilidades da transformação social da vida a partir do espaço político-institucional. Um caminho que desloque o conceito de alternativa do espaço político para espaços sociais, económicos e culturais. Um caminho que apresenta custos elevados em termos da memória afectiva da tradição da esquerda, protagonizando o abandono da retórica da "defesa dos valores de Abril", retórica cada vez mais limitada à defesa dos poderes do Estado-nação, da mítica Constituição Portuguesa e do jargão da soberania popular.

5. Este é um abandono que se dá em nome de um "processo" e de um "regresso". Por um lado, um "processo" europeu que é uma oportunidade de terminar com o patriotismo da esquerda e a concepção vanguardista do poder político que ele acomoda - a política como "pronto-a-votar" que delega a aspiração pessoal ao representante da nação e do povo. Por outro lado, um "regresso" ao tempo das experiências de vida que se inventaram na crise de poder do Estado. Tal "regresso" é a condição de uma refundação e a Europa é a sua primeira escala. O posicionamento face ao processo europeu é aliás paradigmático dos limites das duas principais correntes da esquerda: o reformismo só concebe a Europa como projecto comandado a partir dos velhos Estados-nação e da Convenção dos seus aristocratas; o revolucionarismo político lê apenas negatividade no "processo" europeu, reforçando posições soberanistas e nacionalistas, imaginando um socialismo limitado à trincheira de cada país.

Em alternativa, necessitamos de apostar desmedidamente no "processo" europeu. O declarado europeísmo liberal deve ser rapidamente ultrapassado pela esquerda, na senda da tradição antinacionalista do movimento operário. Esta entrega ao "processo" europeu deve ser feita a partir de baixo, a partir do "regresso" a uma acção política em que os movimentos sociais teçam as redes donde é possível nascer um poder constituinte que reinvente a produção e transforme o mundo.

6. Assim, o início é a recusa da tradição estatal e nacional da esquerda. A recusa do autoritarismo do Estado, que revela uma concepção instrumental do poder e da política, como exemplificada por Sampaio nas páginas do PÚBLICO: "No Conselho Europeu de Junho, prevaleceram, pois, o interesse geral e o sentido da história. Triunfou a Europa unida. Mas há agora que ganhar os europeus." Eis o que Sampaio nos oferece: um Conselho Europeu que presume um "interesse geral" dos europeus sem ter "ganho" os europeus, um "sentido da história" que se estabelece ordenando os europeus sem que se tenha "ganho" os europeus. Tal como no republicanismo autoritário da "unidade nacional" e da "estabilidade política", Sampaio revela-se aqui na presunção das elites políticas nacionalistas em quererem administrar as vidas da multidão europeia. Comece-se pois por não deixar passar os redondos vocábulos da "unidade nacional", do "sentido da história", da "estabilidade política", do "interesse geral" e da "soberania nacional".

In Público

Publicado por andre em setembro 28, 2004 11:27 PM
Comentários

Li no "Público" e gostei!
Parabéns.

Afixado por: mfc em setembro 30, 2004 12:39 AM

Excelente! Excelente! Excelente!!!Excelente!!!!
Partilho e subscrevo inteiramente.

um GRAAANDE abraço

o uno e o múltiplo

Afixado por: o uno e o multiplo em setembro 30, 2004 01:02 AM

pois sim, claro!!!
o melhor é mesmo esquecer o q está esturrado e apostar na hipocrisia á europeia. a esquerda europeia é que é. bonita, moderna e sobretudo insípida e subjectiva - como convem aos interesses europeus! fazer da esquerda uma mascara bonita para q possamos coadunar com aquilo q teoricamente condenamos é de facto o mais confortável q pode haver.

os meus parabens! isso é q é escrever, pena q destas discussões se façam exercícios de auto estima ao invés de se procurar a raíz dos problemas! viva o partidarismo camuflado!

Afixado por: tiago em setembro 30, 2004 01:53 PM


A alternativa de esquerda é uma necessidade. E de facto os "teoricos" do PCP PS e BE mostram pouca capacidade para a materializar. Nem podia ser de outro modo, estão todos preocupados em defender o seu feudo.
A única verdadeira alternativa é sermos nós a tomá-la aos partidos. Obrigá-los a agir.

Afixado por: Sensini em outubro 4, 2004 07:40 PM


E depois dos partidos agirem é preciso acabar com eles, de maneira a que deixem de existir. Muitos vivem obcecados em tomar o poder através de eleições. Claro que as eleições são importantes, mas mais do que maiorias aritméticas, o que conta em política são maiorias de vontade.
or isso não descurando o trabalho nas instituições burguesas é importante lutar nos vários locais onde se trava o combate capital-trabalho.
fundamental travar a luta de modo não sectário, mais ou menos ao contrário do que o Jerónimo de Sousa defendeu junto de um camarada brasileiro depois de beber um copito.
E é preciso não ser fatalista como foram os Srs que se reuniram no Alentejo.
Ainda não percebi porque é que certas correntes só vêem os defeitos da UE. Será dificil perceber que é a nível global que é preciso lutar? Julgarão alguns viável um sistema alternativo apenas em território português. Eu sou pela revolução, mas quero almoçar e jantar todos os dias.

Afixado por: Sensini em outubro 4, 2004 07:53 PM