outubro 11, 2004

O circo democrático

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«Uma noite com o "super-homem" da Madeira no "circo social-democrata"»

«Alberto João Jardim auto-intitulou-se o "super-homem" da "Madeira Nova", na intervenção política feita quinta-feira à noite, em São Martinho, no "circo social-democrata", designação assim dada pelo animador do comício à companhia Cardinalli.

O líder do PSD, ao enumerar a obra por si desenvolvida nas últimas três décadas, concluiu que "foi super-homem pegar numa terra que era miserável e criar estas condições de vida que temos na Madeira".

Ao entrar em cena, perante a ameaça de chuva, Jardim ordenou em direcção ao céu: "Oh! rapaz aí em cima, aguenta quinze minutos que é o tempo que eu voau falar".

No circo onde Jardim prometeu "dar um passeio de elefante" numa próxima actuação, a chuva foi de ataques aos partidos de oposição regional. "Eu vou ver como eles vão dar de comer com conhecimento e formação que prometeram", comentou o candidato ao oitavo mandato no governo regional, em defesa da sua política de investimentos públicos e de emprego. "Eles querem o povo a viver na miséria e a comer ideologia, é a velha doutrina marxista", acusou ao incluir nas críticas o CDS/PP, "uma delegação deles".

"O que se joga nas eleições é quem vai ser presidente do governo: o Alberto João ou o senhor Rodrigues"... (apupos da calque "jota", na maioria composta por jovens quadros da administração regional). "Não batam mais no infeliz", pede referindo-se ao líder do CDS/PP. Prossegue: "ou a Guida Vieira"... (mais apupos e irreproduzíveis impropérios para a dirigente do BE) e novo pedido do presidente: "façam o favor de serem decentes com as senhoras". Pausa..."ou o desgraçado do Edgar", ainda maior vaia. "Ou... se for o PS, é Quim Barreiros o próximo chefe do governo, porque é o único que traz gente" aos comícios socialistas, encerra Jardim partilhando risos cúmplices com os jovens apoiantes. A cena tem sido repetida em todas as intervenções, quase tão mecanicamente executada como a dos contorcionistas, trapezistas, ilusionistas e domadores que partilham a arena com os dirigentes sociais-democratas.

"Seria um descalabro para a economia se essa gente chegasse ao governo", uma "calamidade" comparada com a dos "desgraçados" dos Açores que "nunca andaram para frente" e "tiveram emigrar", ataca Jardim. "Eu não embarco em loucuras", conclui, orgulhoso do PIB madeirense "vinte pontos acima do da região" governada por Mota Amaral e Carlos César.

Antes de "inolvidáveis momentos de ilusão e magia" com que abriu a segunda parte do espectáculo, Jardim conta como evitou a crise no arquipélago. "Fui à televisão e disse: 'Na Madeira não quero ninguém a falar de crise'". O governante explicou o "truque" para manter os investimentos públicos: o recurso às sociedades de desenvolvimento que, com empréstimos bancários, substituíram a região e as autarquias, sujeitas à norma do endividamento zero.

Entretanto, é tempo de calar os tambores que com arrufos sublinhavam as frases mais sonantes. "Eu dei-vos as condições de vida e tudo aquilo que qualquer sociedade mais avançada tem ao seu alcance. É nesse caminho que vamos prosseguir", sublinha o líder madeisense.

Agora a música de fundo é suave. Fez-se silêncio à volta da arena para Jardim "fazer um pedido": "Eu preciso do vosso voto, da vossa ajuda para manter esta terra desenvolvida e afastada das crises do continente", quase segreda o líder madeirense, num tom intimista.

De repente, o conjunto musical "Autonomia", a rigor trajado de laranja, atira a marcha final: "Quem é que haverá/ quem é que não acha/ que é o PSD/ que põe a Madeira em marcha". Jardim agora vibra e salta no palco, como o verdadeiro artista, a cantar numa versão "no stop" a "Macarena", "La bamba" e finaliza com uma canção popular gravada por José Afonso: "Quando eu era pequenino/ acabado de nascer, ainda mal abria os olhos já era para (PPD) ver...". Quando o circo acabou, choveu.»

Artigo de Tolentino de Nóbrega, publicado no jornal "Público".
(Sábado, 9 de Outubro de 2004)

Publicado por gustavosampaio em outubro 11, 2004 03:31 PM
Comentários

O artigo está muito bom. Tolentino é uma referência no que toca a artigos sobre a Madeira.

Hoje escrevi um longo post sobre a Madeira. Aos interessados:

http://filhodo25deabril.blogspot.com/2004/10/198-insustentvel-leveza-da-democracia.html

Afixado por: Ricardo em outubro 12, 2004 06:07 PM

Debate «O legado de Marx nos 140 anos da I Internacional dos Trabalhadores». Cooperativa Árvore no Porto (nas traseiras do jardim da Cordoaria e do Palácio da Justiça), dia 15 de Outubro (6ª feira) às 21h30.

Participação de:
Francisco Martins Rodrigues (director da revista «Política Operária»); Ronaldo Fonseca (sociólogo e militante internacionalista); Ângelo Novo (ensaísta marxista independente); Tom Thomas (escritor marxista francês).

Aparece!

Afixado por: qwerty em outubro 12, 2004 11:26 PM