Na altura em que estalou a polémica em torno da saída de Marcelo Rebelo de Sousa da TVI, abstive-me de tecer considerações mais vincadas, tendo reunido apenas alguns textos, comentários e opiniões alheias que julguei pertinentes para a apreciação do caso, intitulando essa espécie de compilação como “Estilhaços”, então aqui publicados, ou melhor, depositados.
Não obstante, surgiram este fim-de-semana novos desenvolvimentos sobre o assunto, que me levam agora a emitir uma opinião mais decidida e, sobretudo, mais fundamentada.
A única nuance que me levava a duvidar do que é evidente e está à vista de todos, a perniciosa pressão do Governo de Pedro Santana Lopes sobre uma televisão privada para o afastamento de um comentador político considerado “incómodo”, residia na possibilidade de orquestração e manipulação de todo este caso por parte desse mesmo comentador, Marcelo Rebelo de Sousa, no âmbito de uma campanha pessoal para uma posterior candidatura à Presidência da República.
Apesar da desconfiança sobre as reais motivações de Marcelo Rebelo de Sousa, nunca duvidei da ocorrência da pressão, mais do que clarividente, comprovada nas palavras do ministro dos Assuntos Parlamentares Rui Gomes da Silva, um “santanista” de todos os tempos.
Mas o silêncio de Marcelo Rebelo de Sousa sustentava, de facto, a tese, algo conspirativa mas não menos convincente, de que o antigo presidente do PSD estaria a extrapolar a situação, utilizando todo o alarido entretanto gerado em proveito próprio, instrumentalizando a opinião pública.
Contudo, Marcelo Rebelo de Sousa desfez essa desconfiança. Na passada sexta-feira à noite, no decurso de um jantar com jornalistas da TVI, reiterou, com todas as letras, que não é candidato a Belém.
Mais, classificou de “interpretação ridícula e absurda de alguns aprendizes de comentadores” a referida tese conspirativa, referindo-se claramente, entre outros escroques, ao sempre simplista José António Saraiva, um propagandista há 23 anos de serviço no “Expresso”, e ao sempre tendencioso Luís Delgado, um auto-intitulado “jornalista” que representa a negação dos valores do próprio jornalismo, “spin-doctor” submisso e “lambe-botas”, de execráveis recursos intelectuais, apoiante desde sempre de Pedro Santana Lopes e recentemente nomeado, com evidentes propósitos políticos, para a administração da “Lusomundo Media”.
Com a afirmação de Marcelo Rebelo de Sousa, foi desmontado o único argumento válido utilizado pelo Governo, ou respectivos propagandistas, relativamente a toda esta situação.
Só é pena que, devido à relação familiar que mantém com Luís Paes do Amaral, administrador da “Media Capital”, Marcelo Rebelo de Sousa não divulgue o conteúdo da conversa que manteve com este último, para denunciar de uma vez por todas as pressões, interesses inconfessáveis e jogos de influências que intervieram em todo este processo.
Posto isto, ficou mais do que comprovada, apesar de tudo, a pressão exercida pelo Governo para calar uma voz “incómoda”, e o sucesso que, consequentemente, obteve, com a saída de Marcelo Rebelo de Sousa da TVI.
Trata-se de um claro sinal, entre muitos, sobre os desígnios deste Executivo, herdados do anterior e agora ampliados, relativamente ao controlo da comunicação social portuguesa, considerada demasiado crítica e insubmissa ao poder por parte de Pedro Santana Lopes e Paulo Portas.
Infelizmente, parece-me que a opinião pública, sobretudo as pessoas menos instruídas, não estão atentas ao que se está a passar e não conseguem desmontar as falácias construídas pelo Governo. A cortina de fumo propagandística torna-se cada vez mais densa e a maioria da população portuguesa não é suficientemente bem formada e informada para a saber dissipar.
Cada vez mais, notam-se os tiques de Silvio Berlusconi na postura, no modo de agir e no obsessivo cuidado com a imagem de Pedro Santana Lopes. Repare-se também, por acréscimo, na imagem que o PSD adoptou nas últimas eleições europeias, com a colagem à selecção nacional de futebol. Ainda ontem na sede do partido, em reacção aos resultados das eleições regionais, surgia uma nova imagem, com uma mensagem muito mais publicitária do que propriamente política. Imagem, imagem, imagem.
As coisas estão a mudar muito rapidamente, perigosamente, e as pessoas não estão atentas, demasiado entretidas com os subterfúgios consumistas e televisivos. É preocupante.
Publicado por gustavosampaio em outubro 18, 2004 03:09 PMÉ realmente preocupante mas mais preocupante ainda, do meu ponto de vista, são os argumentos faliciosos da direita que pretendem incutir na opinião pública a ideia de que a privatização generalizada dos media (como defende JPP) resolve o problema das interferências políticas na comunicação social.
Contudo, e apesar das devastadoras campanhas de propaganda e intoxicação política generalizadas não gosto de subestimar o juízo e o discernimento da opinião pública; creio que no caso MRS, em particular, ninguém se deixou enganar. O que acontece de forma cada vez mais evidente é que, dentro do quadro institucional, as pessoas já não vislumbram diferenças; as alternativas esgotam-se em versões hard ou soft da mesma política plastificada, apostada no marketing, na imagem mas destituida de traços verdadeiramente distintivos no seu discurso político.
Pela parte que me toca, resta-me a esperança que, à semelhança do que por esse mundo fora vai acontecendo, os portugueses descubram que as respostas já não se encontram no quadro do regime e se encontrem na procura comum de uma alternativa global. Como tenho dito por todo o lado, esse deveria ser o papel da "verdadeira esquerda" portuguesa.
abraço
o uno e o múltiplo
Afixado por: o uno e o múltiplo em outubro 18, 2004 06:35 PM