«Reino Unido propõe moratória sobre a dívida dos países afectados»
«O ministro das Finanças do Reino Unido quer instituir uma moratória sobre a dívida dos países atingidos pelo maremoto que devastou o Sudeste Asiático. Gordon Brown, cujo país assumiu este mês a presidência dos G8 (grupo das oito nações mais industrializadas), quer ajudar as vítimas do maremoto desobrigando as nações afectadas de pagar 2,2 mil milhões de euros de dívida este ano. E tem objectivos ainda mais ambiciosos: usar este apoio como um ponto de partida para um "novo Plano Marshall" para combater a pobreza nos países em vias de desenvolvimento.
"O que sugerimos é uma moratória imediata nos pagamentos da dívida dos países afectados" pelo maremoto, declarou Gordon Brown à BBC. "Isso levará a uma análise das necessidades de crédito destes países, com possibilidade de cancelamento de parte [das suas dívidas externas]."
A ideia de uma moratória foi avançada inicialmente pelo chanceler alemão, Gerhard Schroeder, e apoiada pelo Presidente francês, Jacques Chirac. O Canadá já havia anunciado uma moratória unilateral dos seus créditos sobre países da região atingida pelo maremoto.
O ministro inglês quer agora concretizar a ideia numa reunião do Clube de Paris (organização de 19 países credores), na próxima semana. "Já falei com o secretário das Finanças [dos EUA, John Snow], e eles [os americanos] também estão de acordo com a ideia de congelar os pagamentos", disse Brown.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) já anunciara 730 milhões de euros em "assistência de urgência" sobretudo para as Maldivas, Sri Lanka e Indonésia. O Banco Mundial também deverá anunciar nos próximos dias um plano para ajudar a financiar a reconstrução de infraestruturas na região.
Gordon Brown encara o esforço internacional de solidariedade para com as vítimas do maremoto como uma oportunidade. O ministro inglês vai apresentar um conjunto de propostas para o que "será chamado um novo Plano Marshall" destinado a combater a pobreza nos países em vias de desenvolvimento.
O Plano Marshall original consistiu em grandes apoios financeiros dos EUA à reconstrução da Europa no pós-II Guerra Mundial. Agora, Brown quer mobilizar as nações mais industrializadas a "dar recursos suficientes, tanto através [do cancelamento da dívida externa] como através de mais fundos para poder lidar com as causas da pobreza em África e não só."
Não é só Brown que se inspira no maremoto como plataforma para lançar ideias grandiosas. O francês Bernard Kouchner, fundador da Médecins du Monde, sugeriu que a França deveria "dar o exemplo" e instituir "voluntariamente" uma taxa sobre os movimentos de capitais (a chamada "taxa Tobin"), cujos proveitos beneficiariam as vítimas da tragédia asiática.»
Artigo de Pedro Ribeiro.
Jornal "Público" - Quarta-feira, 5 de Janeiro de 2005.