janeiro 06, 2005

Humanitarismos

«As operações políticas por trás das acções humanitárias»

«Para além de fazer chegar água, comida e abrigo aos milhões de pessoas afectadas pelo maremoto de 26 de Dezembro, vários países travam uma competição pela influência na região. Para os Estados Unidos, esta será a altura ideal para melhorar a sua imagem belicista junto de populações muçulmanas. A União Europeia tem aqui uma oportunidade de se afirmar como uma "softpower". E a Índia pretende marcar posição como potência regional, rivalizando com a China.

"Isto é uma terrível tragédia humana. Mas é também uma oportunidade para a política externa", diz pragmaticamente Joseph Cirincione, do Carnegie Endowment for International Peace.

Depois de um atraso na reacção à catástrofe asiática, o Presidente norte-americano tem procurado corrigir o passo. George W. Bush começou por oferecer uma ajuda de 15 milhões de dólares, rapidamente denunciada como pouco generosa. Decidiu depois desbloquear uma verba de 350 milhões de dólares (258 milhões de euros).

O Pentágono anunciou ontem que tem 13 mil soldados no Índico. O secretário de Estado, Colin Powell, está na região. E o Presidente pediu aos seus antecessores, George Bush (seu pai) e Bill Clinton, que liderem uma campanha de recolha de fundos privados; anunciou ainda uma "coligação humanitária", com os EUA na liderança.

A mudança na resposta de Bush é interpretada como uma percepção de que esta crise poderá trazer alguns benefícios políticos. "Houve uma verdadeira alteração, e não apenas financeira", comentou à AFP Richard Bush, analista do Brookings Institute, em Washington. "Espero que eles [dirigentes] considerem haver não apenas um imperativo humanitário, mas também uma oportunidade de tentar restaurar a nossa reputação no Sudeste Asiático".

Para alterar a forma como as populações olham para os EUA, particularmente depois da guerra contra o terrorismo e da invasão do Iraque, nada como mostrar soldados americanos "a distribuir garrafas de água em vez de balas", comentou por seu lado David Ignatius no "Washington Post". "A imagem do povo americano a resolver os problemas é o melhor antídoto para as dificuldades actuais do nosso país no mundo".

Mesmo com um aumento de verbas, os donativos americanos são inferiores aos da União Europeia (UE), que reduziu ao seu orçamento 300 milhões de euros para os encaminhar para a Ásia (isto para além das contribuições individuais dos vários países). A UE enviou ainda para Jacarta - onde uma reunião da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) se tornou num encontro de doadores - uma delegação ao mais alto nível: o presidente da Comissão Europeia, o português José Manuel Durão Barroso, o presidente em exercício da União, o primeiro-ministro luxemburguês Jean-Claude Juncker, e o comissário para a Ajuda Humanitária e Desenvolvimento, Louis Michel. Bruxelas poderá assim provar as intenções humanitárias da sua política externa, mais assente na ajuda e no combate à pobreza do que nos conflitos armados.

Intrusão na esfera indiana

A presença americana no Sri Lanka, um dos países mais afectados, não foi bem vista pela Índia. "Não há inocência na política de assistência humanitária", afirmou Jayadeva Uyangoda, chefe do departamento de Ciência Política na Universidade de Colombo. Para o analista, o envio de 1500 Marines e de um barco de guerra para o país é visto por Nova Deli como "uma intrusão simbólica na esfera de influência indiana".

No dia seguinte à catástrofe, as autoridades indianas recusaram as ofertas de auxílio estrangeiro, nomeadamente australiano. O semanário anglófono "The Week" explicava que Nova Deli "está determinada a provar que pode enterrar os seus mortos e levar ajuda aos seus vizinhos".

Não só para a Índia se trata de uma prova de poder político na região. A China, que se vem afirmando como uma potência económica em ascensão, deu um passo significativo: contribuiu com 62 milhões de dólares (45,7 milhões de euros) no esforço humanitário. O montante é significativo para um país que só este ano vai sair da lista de receptores de ajuda do Programa Alimentar Mundial.

Para Shi Yinhong, da Universidade Popular de Pequim, os EUA têm "uma gigantesca superioridade" face à China na resposta a crises deste género. Mas o maremoto marca um ponto de viragem. "Ainda estamos a aprender a reagir multilateralmente", disse. "Mas há o sentimento de que a China deve desempenhar um papel maior".»

Análise por Francisca Gorjão Henriques.
Jornal "Público" - Quarta-feira, 5 de Janeiro de 2005.

Publicado por gustavosampaio em janeiro 6, 2005 05:42 PM
Comentários

A hipocrisia do nojo.

Afixado por: mfc em janeiro 6, 2005 06:06 PM