«Ministro britânico da economia lança "Plano Marshall" para os países em desenvolvimento»
«Pensado em África mas alargado aos mais pobres da Ásia, principalmente os devastados pelo maremoto»
«O ministro britânico da Economia e Finanças, Gordon Brown, defendeu ontem um gigantesco "Plano Marshall" para os países em desenvolvimento. O projecto, pensado para o continente africano mas entretanto estendido aos países asiáticos devastados pelo maremoto do dia 26, terá três fases e será suportado pelos países mais ricos.
A ideia, que o autor apresentou num discurso intitulado "Desenvolvimento internacional: desafios e oportunidades", vai ser levada à próxima reunião do G8, o clube dos países mais industrializados do mundo mais a Rússia, de quem depende a sua concretização. São eles que afinal dominam os mecanismos financeiros internacionais e mais têm a receber dos países em desenvolvimento.
O centro da proposta é um perdão generalizado às dívidas, bilaterais ou multilaterais, dos países mais pobres, explicou, sem dizer quais.
A primeira sugestão de Brown é que, já este ano, "os países mais ricos acompanhem a decisão de anular a 100 por cento da dívida bilateral com o gesto audacioso de anular 100 por cento da dívida multilateral", que ascende a 80 mil milhões de dólares devidos ao Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial (BM) e Banco Africano de Desenvolvimento (BAD).
O modo de resolver as dívidas de cada uma das instituições financeiras é diferente. A anulação das dívidas ao FMI seria financiada segundo um plano e um calendário a ser acertado, eventualmente com recurso às reservas de ouro do Fundo. As do BM e do BAD seriam assumidas pelos países mais desenvolvidos. Para dar o exemplo, o Reino Unido responsabilizar-se-ia por 10 por cento das dívidas destes países junto dos dois bancos.
Gordon Brown propõe ainda o encerramento, também em 2005, das negociações de Doha, "as primeiras negociações comerciais da História que beneficiam os países mais pobres", disse, citado pela AFP. O propósito, aqui, é acabar com o proteccionismo dos países desenvolvidos, abrindo os seus mercados, e anulando as subvenções que liquidam à partida qualquer hipótese de concorrência.
Os países mais desenvolvidos deverão ainda concordar em consagrar 0,7 por cento do seu Produto Interno Bruto à ajuda ao desenvolvimento. Esses fundos juntar-se-iam numa nova estrutura financeira, a IFF ("International Finance Facility"), que os geriria e faria frutificar nos mercados de capitais. O processo permitiria juntar por ano, durante os próximos dez, cerca de 50 mil milhões de dólares, o dobro dos fundos actualmente consagrados no mundo à ajuda ao desenvolvimento.
Nascido a pensar em África, o projecto de Brown acabou por abarcar também os países mais pobres da Ásia, principalmente os devastados pelo recente maremoto do Índico - Indonésia, Sri Lanka, Índia, Tailândia, Malásia, Maldivas, Birmânia e Bangladesh.
"Devemos também fazer com que os países afectados pelos maremotos não fiquem incapacitados de financiar os trabalhos essenciais de reconstrução por terem de reembolsar a sua dívida", disse o ministro britânico, citado pelas agências.
A iniciativa não é para ficar pelos países do G8 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia), é para ser estendida aos de outros clubes, como o de Paris, que junta os principais credores internacionais, num total de 19 países.
O calendário do novo "Plano Marshall" abrange o ano todo, a começar com a análise do relatório das Nações Unidas sobre o que foi feito para diminuir a pobreza no mundo desde a Declaração do Milénio, em 2000, a aparecer no fim do mês, seguida da reunião dos ministros da Economia e das Finanças do G7, em Fevereiro, em Londres, o relatório pessoal do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, sobre a pobreza, em Março, dois outros encontros do G7, em Abril e Julho, outra reunião do G8 em Edimburgo, em Julho, a cimeira da ONU em Setembro e a importante conferência da Organização Mundial do Comércio, em Dezembro.»
Jornal "Público".
Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2005.