janeiro 17, 2005

Armas de decepção maciça

«Estados Unidos desistiram de procurar armas de destruição maciça no Iraque»

Por Sofia Lorena.
Jornal "Público", 13 de Janeiro de 2005.

«A Casa Branca admitiu ontem que as buscas para encontrar armas de destruição maciça no Iraque terminaram, confirmando informações divulgadas pelo "Washington Post". De acordo com o porta-voz Scott McClellan ainda há equipas de inspectores americanos no terreno, mas segundo o jornal a violência e a falta de novas informações contribuíram para pôr um ponto final no trabalho do Iraq Survey Group (ISG) dias antes do Natal.

"É que julgo saber", comentou McClellan interrogado sobre a notícia do "Post". O porta-voz do Presidente George W. Bush disse acreditar que "algumas pessoas" do ISG ainda estão ocupadas nas buscas aos alegados "stocks" de armas, acrescentando que o chefe do grupo de pesquisa, Charles Duelfer, "continua a reunir todos os elementos e fará uma adenda ao seu relatório final que deve ser entregue no próximo mês".

McClellan admitiu, ao mesmo tempo, que nada do que Duelfer acrescente "alterará de forma fundamental o que já disse no relatório anterior". Entregue a 30 de Setembro ao Congresso, este relatório provisório contradisse praticamente todas as asserções sobre as armas iraquianas feitas por membros da Administração antes da guerra. Segundo disseram ao jornal peritos que integraram o ISG, as mesmas conclusões figurarão no relatório final.

"O relatório de Setembro é em grande parte o quadro final. Falámos com tantas pessoas que alguém teria dito alguma coisa. Não recebemos nada que altere o que já dissemos", disse um dos entrevistados. A CIA não permitiu a nenhuma das pessoas ligadas à busca de armas falasse ao jornal "on the record".

O jornal quis ainda saber quanto tinham custado as inspecções do ISG. Sabe-se que o Congresso disponibilizou centenas de milhões de dólares para as buscas, mas os gastos não foram tornados públicos e segundo uma porta-voz do Pentágono, orçamento e despesas vão permanecer classificados.

O ISG, formado depois da invasão para procurar as armas proibidas que serviram de argumento à guerra, ainda existe, mas actua na contra-insurreição. Duelfer está de regresso a Washington, onde termina a adenda ao relatório de Setembro, e os analistas da CIA que formavam as suas equipas voltaram a Langley, à sede da agência.

Ainda há documentos a serem analisados e um pequeno grupo de cientistas iraquianos permanece detido. Mas já não se espera que os milhões de páginas estudados por centenas de tradutores e analistas no Qatar tragam novidades sobre as armas. O trabalho sobre estes documentos está agora direccionado para informações que possam apoiar acusações de crimes de guerra. Ao mesmo tempo, já nenhum cientista iraquiano está detido por causa das investigações às armas.

Inspectores pedem libertação de cientistas

Três pessoas ligadas ao ISG dizem que a equipa de inspectores já pediu várias vezes ao Pentágono para libertar o general Amir Saadi, antigo oficial de ligação entre o governo de Saddam Hussein e os inspectores da ONU; Rihab Taha, a biólogo conhecida por "Dr.ª Germe", e o seu marido, Amir Rashid (ex-ministro do Petróleo); e Huda Amash, a bióloga a quem os inspectores chamavam "Senhora Antraz". Todos foram intensivamente interrogados e há mais de um ano que foi determinado que nenhum estava envolvido em programas de armamento desde a guerra de 1991.

Depois de confirmar a notícia, o porta-voz da Casa Branca lembrou o que Bush disse há meses: os EUA devem assegurar-se que têm "as melhores informações". "Tínhamos elementos recolhidos ao longo de 12 anos que se revelaram falsos e devemos corrigir o que não funciona", afirmou McClellan, reafirmando ainda que "o regime tinha a intenção e as capacidades necessárias no que respeita a armas de destruição maciça".»

Publicado por gustavosampaio em janeiro 17, 2005 12:04 AM
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