junho 06, 2005

A culpa é da mini

Em todo o planeta diligentes analistas procuram perceber as razões que levaram os franceses, apesar de sistematicamente alertados e educados pela comunicação social favorável à aprovação do tratado constitucional, terem dito "não" à dita constituição. Os mais diligentes garantem que se abusou da democracia e que nunca deveria ter sido pedido aos pobres um tão grande esforço. Nesse sentido se pronunciou o editorialista “Du Point”, Claude Imbert: “Um sistema de democracia representativa teria sido mais prudente. Veja-se um rapaz que trabalha todo o dia numa fábrica perto de Nancy. Ele regressa a casa tarde. Eu digo-vos que ele tem vontade de beber uma cerveja, ele não vai ler a Constituição em pormenor. Para que serve o Parlamento?”. Para o esforçado escriba, o facto de o Parlamento Francês ter previamente apoiado por 91,7% dos deputados um texto que 55% dos franceses posteriormente rejeitaram nas urnas, explicar-se-ia sobretudo pelas minis que o rapaz de Nancy bebe depois do trabalho... Já a arguta escrita do reputado editorialista só pode ser assacada à cegueira ideológica ou alternativamente a muitos snifs de cola...
NUNO RAMOS DE ALMEIDA

Publicado por graodeareia em junho 6, 2005 11:20 AM
Comentários

A Democracia incomoda muita gente, especialmente nas raras ocasiões em que o Povo exerce efectivamente o seu Poder. E se pensarmos bem, este referendo é muito mais prejudicial para essas pessoas do que umas eleições.
É que nos sistemas actuais vigentes na Europa, o poder oscila entre o centro-direita e o centro-mais-à-direita (não me peçam para chamar centro-esquerda aos actuais PS europeus...). Por conseguinte, perder umas eleições não é muito grave para nenhum dos dois partidos. Mudam-se os líderes, fica tudo na mesma e voltam a ganhar nas eleições seguintes.
Prova é que os discursos de noite de eleições são sempre muito contidos e previsíveis (mais demissão, menos demissão), com grandes tiradas de respeito pela decisão dos eleitores.

Mas agora os franceses e os holandeses mostraram que é o próprio sistema implantado e que seria agora constitucionalizado que está errado. Nem a favor do PS, nem a favor do UMP. Nada para ninguém. E os senhores do poder perderam-se. Andam de cabeça desvairada, os discursos foram uma desorientação e as medidas de rescaldo pior ainda. E os artigos dos defensores do poder instalado só reflectem isso mesmo!

Afixado por: Helena Romao em junho 6, 2005 05:37 PM

O curiosos é que o comentador toca no essencial: a crise do capitalismo é também a crise da democracia representativa. Ora, a democracia pode tornar-se uma exigência, sobretudo se dela houver alguma experiência. O medo de que o poder 'caia na rua' pode levar estes monstros de feira a favorecer o aparecimento de um homem providencial. Vigilância e acção pela construção de um outro mundo!!!!

Afixado por: o uno e o múltiplo em junho 11, 2005 02:28 PM