junho 12, 2005

Constituição ao Fundo

O TRATADO EUROPEU ESTÁ MORTO, MAS A BATALHA CONTINUA. BLAIR PRETENDE SALVAR O NEOLIBERALISMO DO NAUFRÁGIO DA CONSTITUIÇÃO. OS MOVIMENTOS SOCIAIS, OS PARTIDOS DE ESQUERDA VÃO REUNIR-SE EM PARIS PARA PROSSEGUIR A LUTA PORQUE UMA OUTRA EUROPA É POSSÍVEL! Texto de Nuno Ramos de Almeida (Publicado no Global)

Recentemente, o filósofo francês Michel Onfray, meditando sobre a campanha do referendo, escreveu um texto satírico a que chamou “A Europa dos Cretinos”. Aí se repetem muitas das categorias e conceitos tão caros aos media e aos analistas sobre os dois lados da barricada europeia. Por um lado, “as gentes que votam ‘Não’ à constituição europeia são cretinos, embrutecidos, imbecis, incultos. Pouco poder de compra, pequeno cérebro, pequenos pensamentos, pequenos sentimentos (...) Eles não têm o sentido da História, não sabem reconhecer um grande projecto político. Ignoram o grande sopro do progresso. Morrem de medo”.
Por outro lado, e pelo contrário, “o eleitor do ‘Sim’ é genial, lúcido, inteligente. Grande livro de cheques, imenso encéfalo, gigantesca visão do mundo, hipertrofia do sentimento de generosidade. (...) Ele tem o sentido da História”.
Este eleitor iluminista tão caro aos patrões e aos comentadores “votou ‘Sim’ a Maastricht e constatou, como o previsto, que os salários aumentaram, o desemprego diminuiu e fortificou-se a amizade entre comunidades”, ironiza o filósofo.
Infelizmente para os adeptos desta divisão tão instrutiva, a Constituição Europeia foi derrotada com estrondo e nas urnas em França e na Holanda.
Sobre este facto rapidamente os comentadores de serviço tiraram as devidas ilações. Garantem que se abusou da democracia, nunca deveria ter sido pedido aos pobres um tão grande esforço, como escreve o editorialista da Le Point, Claude Imbert: “Um sistema de democracia representativa teria sido mais prudente. Veja-se um rapaz que trabalha todo o dia numa fábrica perto de Nancy. Ele regressa a casa tarde. Eu digo-vos que ele tem vontade de beber uma cerveja, ele não vai ler a Constituição em pormenor. Para que serve o Parlamento?”. Para o esforçado escriba, o facto de o Parlamento Francês ter previamente apoiado por 91,7% dos deputados um texto que 55% dos franceses posteriormente rejeitaram nas urnas, explicar-se- ia sobretudo pela cerveja que o rapaz de Nancy bebe depois do trabalho...
Sobre o significado da vitória do “Não”, políticos do sistema, editorialistas de plantão e outros leitores de enigmas ainda são mais claros. A derrota da Constituição Europeia, segundo eles, não aponta nenhuma alternativa. Garantem a pés juntos ser impossível ler qualquer sentido político neste voto, para além da pressão a que as meninges dos pobrezinhos foram sujeitas. Onde os estudos falam da recusa dos eleitores das políticas neoliberais, os políticos, depois da constituição ter ido ao fundo, tentam salvar por artes de ilusionismo aquilo que defendem: essas mesmas políticas neoliberais. Assim, na vulgata oficial, a recusa do tratado não é homogénea: “é uma vitória da Frente Nacional e da extrema esquerda”, “não é possível tirar nenhuma ilação do ponto de vista de uma alteração do texto da constituição europeia”, etc.
Sobre a derrota nas urnas de um texto constitucional a que muitos europeus acusam de destruir o que resta do “modelo social europeu”, colocando como alfa e omega da política o conceito de uma “economia de mercado competitiva”, pouco se diz. Reveladores, no entanto, são dois descuidos de linguagem. O director do Liberation, Serge July, acusou os franceses de terem caído no canto das sereias dos altermundialistas, como a ATTAC, e de pensarem o impensável: de que é possível uma alternativa ao neoliberalismo. E o antigo comissário holandês, Bolkestein. que deu nome à directiva da liberalização dos serviços, foi ainda mais claro numa entrevista à France Inter, quando disse: “‘Modelo Social Europeu’... eu não compreendo bem o sentido desta expressão”.
Neste contexto, o primeiro ministro britânico Tony Blair tenta salvar o que resta – ao contrário do seu amigo Durão Barroso, ele não pretende continuar a série de referendos – e fez saber aos jornalistas, segundo o Sunday Times, que pensa que “a Constituição Europeia está morta” e que se trata de salvar o espírito da coisa: façam-se pequenas adaptações dos tratados existentes que os negócios continuarão a ser prósperos e a Europa manter-se-á solidamente neoliberal.
Enquanto o Partido Socialista Francês expulsa da sua direcção os militantes que apoiaram a recusa da constituição, e os seus principais dirigentes falam da necessidade de “matar a cobra que são o altermundialistas da ATTAC”, no campo do ‘Não’ de esquerda aproveita-se o balanço e convoca-se uma reunião à escala europeia, em Paris, a 24 e 25 de Junho, de partidos e movimentos que pretendem “abrir um novo caminho para a Europa”.
Os referendos em França e na Holanda não fecharam, aparentemente, o processo de construção europeia, apenas tornaram claro que não há nenhuma Europa política e social que se construa de costas para os cidadãos. As movimentações sociais e políticas que se vão seguir contribuem para erguer uma opinião pública militante a nível europeu que se bata por uma outra Europa, alternativa à do neoliberalismo.
A rejeição da Constituição permite discutir, com partidos, sindicatos e movimentos sociais de todos os países da Europa, a criação de um debate democrático a nível continental que permita a construção de alternativas ao texto constitucional chumbado e ao neoliberalismo.
NUNO RAMOS DE ALMEIDA

Publicado por graodeareia em junho 12, 2005 01:19 PM
Comentários

Morto ? Olhe que não, olhe que não...
Para já está 10-2 e pode acabar em goleada, 20-5 ou 21-4... e depois os aNÕES lá terão (se quiserem, é claro, porque a porta está sempre aberta...) ratificar à pressa o tratado para não ficarem para trás... O tiro vai sair pela culatra a todos os traidores da coligação comuno-fascista...
VIVA A GRANDE EUROPA !

Afixado por: EUROLIBERAL em junho 12, 2005 04:53 PM

Olà. Eu sou um francês. Escrivo de Nancy(a cidade do texto de Nuno Rames). Disculpe por o meu português um pouco fraco. Agora que a França votou o que votou, temos que dar un sentido claro as nossas reivindicacoes. Nao somos nacionalistas, nao queremos regresar nas fronteiras nacionais. Agora ja nao è posivel. Em França, queremos uma outra Europa, mais forte, mais social e mais democratica. Queremos um presidente da comisao responsavel frente ao parlamente das suas politicas.
E vocês, que tipo de Europa querem?

Julien.

Afixado por: Julien Rodrigues em junho 12, 2005 10:25 PM

Olá!
Na ronda habitual pelos meus blogues preferidos, aproveito pra vos desejar um bom fim de semana.

Aquele abração do
Zecatelhado

Afixado por: zecatelhado em junho 12, 2005 10:28 PM

Julien, fait pas le con !

Vocês vão ter de votar outra vez, mas agora no "SIM". Senão, vão ter que sair da UE... Ninguém vai renegociar o Tratado, porque a maioria esmagadora dos europeus querem uma economia de mercado liberal, a única que pode catapultar a Europa para o primeiro lugar mundial da prosperidade. A Europa é há 50 anos contrária a qualquer proteccionismo, isolacionismo, xenofobia e racismo. Não há recuo possível nessa matéria e ninguém vai assinar com os nonistes franceses uma constituição comunista. O que vocês fizeram foi dar uma vitória a Blair e Bush ao enfraquecerem a Europa e ao impulsionarem uma visão ultra-liberal e anglo-saxónica da economia europeia. São eles os vencedores dos referendos em França e Holanda. Vocês, os gauchistes nonistes, são apenas nesta estória, os idiotas úteis de Bush e Blair... Pauvres cons...

Afixado por: Euroliberal em junho 12, 2005 11:54 PM

Caro Julien:

Queremos obviamente outra europa. Aliás através deste espaço queremos discutir exactamente que europa queremos. Como podes observar não existe grande consenso sobre o tratado constituicional... A discussão ainda está para durar. Espero que em frança igualmente.
Abraços,
André

Afixado por: André em junho 13, 2005 12:28 AM

Nuno:

A tradução portuguesa da versão integral do texto do Onfray que aqui citas está disponível aqui:

http://ositiodotambemnao.blogspot.com/2005/05/europa-dos-cretinos-por-michel-onfray.html

Vale a pena lê-lo.

Afixado por: o sítio do também não em junho 13, 2005 03:33 AM

Portugal sempre fez e sempre fará parte da Europa, pelo menos enquanto se tratar de um país. Um país com características e necessidades específicas. E a União Europeia? Parece-me um bom título para um romance de ficção. Não podemos esquecer-nos da barreira liguística que modela também a cultura. Pela minha parte recuso-me a aceitar a prevalência do Inglês. O exemplo dos estados unidos é suficiente, esses iliterados fornicadores da sua mãe... Do ponto de vista económico e social não podemos falar em união entre países com assimetrias tão gritantes nos aspectos mais importantes. O mesmo se pode dizer em relação às pessoas. Realmente parece que muitos ainda não perceberam que a Europa é habitada por seres humanos e não por empresas e valores especulativos. Ó Euroliberal tu entulhas excremento pelo rabo acima até ao cérebro que já está cheio! Vê lá se não rebentas...

Afixado por: Viriato em junho 13, 2005 03:09 PM

"Ó Euroliberal tu entulhas excremento pelo rabo acima até ao cérebro que já está cheio! Vê lá se não rebentas..." diz Viriato...

Sim senhor, este viriato é brilhante, tem massa cinzenta, tem talento, tem saber... verdadeiro um aNÂO...

Afixado por: em junho 13, 2005 11:23 PM