1. A estratégia de campanha. Se o medo irracional e a chantagem psicológica funcionaram para o Bush, porque não hão-de funcionar em França? Nos EUA bastou falar de um tal inimigo terrorista que é toda a gente e ninguém e foram favas contadas. Em França, esta estratégia foi notória, e os argumentos foram muitos e variados: sim porque sim, porque tem que ser, não há alternativas, porque senão vem aí o Papão (neste caso a China e os EUA), será a catástrofe, seremos vistos como os piores da EU, porque fomos fundadores e não podemos recuar, porque é uma falta de patriotismo para com o nosso conterrâneo D'Estaing... Tudo argumentos de peso, como se pode ver, contribuições para um debate sério!
Não contaram foi com o erro de cálculo: a educação em França é melhor e portanto, mesmo quem tem apenas a escolaridade obrigatória, tem recursos para entender um discurso, perceber as suas implicações e fazer o seu juízo. Além disso a partilha de opiniões, o debate (até de café) e principalmente o sindica-lismo estão enraizados, o que permite que a (in)formação chegue a quase toda a população.
2. Depois do 29 de Maio, os "Oui" andam de cabeça perdida. Afinal, honra lhes seja feita, conseguiram dizer uma verdade durante a campanha: não tinham plano B. Sem plano B, sem estratégias de recurso, sem nada na manga, foram apa-nhados completamente em falso. Nunca lhes deve ter passado pela cabeça que o Povo tem opinião própria e cabeça para pensar. Não lhes deve ter ocorrido que as pessoas percebem quando estão a ser ameaçadas e chantageadas, e não cedem; que as pessoas não admitem que lhes tirem direitos (e não privilégios como é agora moda chamar) tão duramente conquistados e que a tantos custaram muito sofrimen-to.
Em vez de perceber que já ninguém o quer é a ele (nem mesmo a direita), que ganhou as eleições por ser o menos horripilante dos dois da última volta, Chirac demitiu o governo. O governo era péssimo, entenda-se. Não devia era ter saído sozinho... Ora então, quem se perfila como "herdeiro" de Raffarin? Nada mais nada menos que a dupla Villepin-Sarkozy, dois inimigos de longa data e cujos desentendimentos se assemelham a birras pelo poder! Os "mimos" e previsões de fim de carreira são mútuos e frequentes. Como é que o presidente se foi lembrar de pôr no governo (sim, foi ele que designou o governo...) dois inimigos que planeiam concorrer às presidenciais de 2007 um contra o outro e contra Chirac ele próprio?
Sarkozy tinha saído recentemente do governo, porque Chirac considerou que o presidente de um partido não podia ser ministro ao mesmo tempo. Agora deu o dito por não dito.
Se nos lembrarmos que em França o regime é presidencialista e que portanto Chirac não é independente do governo, mas antes trabalham em conjunto, e se sou-bermos que nenhum dos três personagens pode tolerar os outros dois, podemos esperar no mínimo algumas situações insólitas.
3. Faço agora uma pausa para explicar quem é este personagem Sarkozy. É uma espécie de Bush da margem de cá, visto amiúde em companhias como Condolleeza Rice (diz-me com quem andas...) e com um longo currículo de leis absurdas (mas muito lucrativas) e violência policial. A sua lei sobre a prostituição pode resumir-se até de uma forma cómica: decidiu ir roubar para a estrada! As prosti-tutas são presas e é-lhes confiscado (roubado) todo o dinheiro que tiverem con-sigo no momento, seja qual for a quantia ou origem! É proibido é angariar clien-tes, e a lei permite a confiscação de todos os bens da "criminosa"! Aliás, se a lei fosse levada à letra, qualquer mulher que saísse à rua de mini-saia poderia ser presa e os seus bens confiscados, para não falar dos passaportes no caso das estrangeiras... O proxenetismo também é crime, mas obviamente a polícia conten-ta-se com o primeiro "criminoso" que apanha, e já não segue à procura dos verda-deiros criminosos. Estes ficam assim com mais poder ainda sobre as suas vítimas.
Quanto à polícia e às leis securitárias, há um exemplo que fará tremer qualquer português com mais de 30 anos. Um ajuntamento de mais de 5 pessoas numa escada de um prédio é proibido. Claro que a lei foi pensada para quem não reside no prédio, mas se fosse tomada à letra, a minha família teria que entrar em casa por grupos e nunca todos de uma vez. E o melhor era estabelecer um horário, não fossem os vizinhos encontrar-se à espera do elevador!
Andar nos transportes sem bilhete é crime para ir preso durante 6 meses e a mendicidade é proibida. A prova é que os acordeonistas do Metro desapareceram e o senhor que vendia a sua poesia na linha 9 também.
Continuando...
4. No PS o desnorte não é menor. Num referendo interno decidiram fazer cam-panha pelo "Oui". Foi portanto uma decisão tomada pelos membros activos e pela direcção do PS. O número dois do partido afastou-se do grupo e decidiu fazer campanha pelo "Non", aparecendo nalgumas iniciativas ao lado dos líderes do PCF e da LCR, por exemplo. O eleitorado socialista (que, como o nome indica, deve ser socialista) disse ao PS que queria um Partido.... Socialista (!), de esquer-da, e votou "Non"! Não metade do eleitorado, como tem sido anunciado, mas 59% do eleitorado PS, ou seja, uma média ainda mais elevada do que no conjunto da popu-lação (55%).
A direcção do PS "ouviu" o seu eleitorado e decidiu: "temos que mudar de eleitorado!" Correram com os dirigentes que fizeram campanha pelo "Non", e con-solidaram posições como partido de centro-direita neo-liberal. Não sei que estratégia é esta, uma vez que nesse lugar político já há dois partidos e as coisas não estão a correr bem... mas isso é lá com eles!
Eu limito-me a constatar a total desorientação do centrão, as medidas apressadas e irracionais que tomaram durante a primeira semana, e a esperar que isso aproveite à Esquerda.
5. As reacções às "negas" francesa e holandesa, mas principalmente france-sa, é a insistência numa teoria dos problemas internos e do voto contra o gover-no francês. Que os franceses não estavam contentes com a política interna era sabido, mas dizer que não sabem ler e responder a uma pergunta simples e clara, é um abuso. Aliás, as sondagens à boca das urnas clarificam as razões dos elei-tores: tanto dos que votaram "Sim", como dos que votaram "Não". Basta ir lá ver!
Nas últimas cinco ou seis semanas antes do referendo apareceram dezenas de livros sobre o Tratado, que no conjunto, devem ter vendido alguns milhões de exemplares. Vendeu-se o texto oficial (que foi também enviado para casa de cada francês), várias versões comentadas e anotadas por diferentes personalidades com ambas as opiniões, "As razões para votar Sim", "As razões para votar Não", etc.
Os jornais todos os dias tinham um artigo, uma crónica ou um editorial sobre o assunto. Na televisão os debates, entrevistas e reportagens foram cons-tantes. Primaram pela defesa do "Sim", pela apresentação quase exclusiva de defensores do "Sim", e por mostrar o "Não" como um exclusivo de Le Pen.
Acredito que poucos leram o tratado na íntegra, mas também penso que a informação chegou a quase todos. E pelos vistos tão bem, que apesar do bloqueio dos meios de comunicação à campanha do "Não", as pessoas entenderam esse blo-queio e não gostaram.
6. Finalmente passo às primeiras mostras de iniciativas quanto ao próprio tratado face aos "Nãos" que obteve. E aqui Portugal não fica atrás. As avestru-zes desorientadas e já sem bússola, como vimos, encontram apenas uma solução: enterrar a cabeça na areia e fingir que não se passou nada. Insistem em conti-nuar o processo de ratificação de um Tratado que já não há. Pior, contra todas as regras democráticas preparam-se para legislar contra a vontade expressa do Povo.
Se a estratégia pré-referendo foi a da chantagem emocional, a estratégia pós-referendo é a da chantagem pura e dura: quando o processo de consultas esti-ver completo, explica-se aos que o negaram que agora não podem recusar uma coisa que todos os outros quiseram. A ideia é forçar e chantagear os franceses e holandeses (e os que se seguirem) a aceitar o mesmíssimo tratado que recusaram.
Cabe ao restante Povo europeu explicar aos líderes democraticamente eleitos o que é a Democracia que os elegeu. Cabe-nos a nós voltar a dizer-lhes o que ainda não perceberam: nós temos vontade própria e essa é para cumprir. É tempo de nos lembrarmos que quem lhes dá o emprego somos nós, através das eleições. Quem lhes paga o ordenado somos nós, através dos impostos. E que temos o direito a despedi-los quando temos justa causa.
Helena Romão
Paris, 7 de Junho de 2005
Bom artigo. É bom que cheguem notícias mais detalhadas de outros países.
Cumprimentos